O Globo, n 32.370, 23/03/2022. Política, p. 08

Após convite do PSD, Leite indica a aliados permanência no PSDB

Gustavo Schmitt


Governador deve renunciar ao cargo e avalia volta a corrida presidencial

A possibilidade de o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, deixar o PSDB para ser candidato à Presidência pelo PSD ficou mais distante, segundo aliados. A permanência entre os tucanos deve ser anunciada amanhã, já que ele precisa voltar suas atenções para as articulações políticas no estado, onde a escolha de um nome para a sua sucessão está travada. Dirigentes da terceira via também chegaram a alertá-lo sobre risco de ficar isolado caso migrasse para o PSD — a legenda comandada por Gilberto Kassab não vem participando das conversas entre dirigentes de PSDB, MDB, União Brasil e Cidadania em torno de uma candidatura única.

O governador não conseguiu emplacar um nome na eleição estadual, o que preocupa o seu grupo político. Há inclusive pressão para que Leite seja candidato à reeleição e quebre a promessa de não ter um segundo mandato. O cenário visto por correligionários como mais provável, hoje, é que Leite renuncie ao cargo no dia 2 de abril, prazo máximo para governadores que desejam se candidatar a outros cargos deixem o posto. Caso isso se concretize, ele poderia tentar voltar à corrida presidencial, o que sempre foi sua preferência, numa composição com outros partidos que negociam com os tucanos.

Lideranças do PSDB, a exemplo do deputado Aécio Neves (MG), ventilaram a hipótese de que a convenção do partido poderia rever a decisão das prévias, quando o governador de São Paulo, João Doria, foi escolhido candidato da legenda. Há também entre os aliados de Leite quem pondere que uma reviravolta contrariando o que foi definido pelos filiados pode gerar desgaste ao gaúcho.

Outras hipóteses em avaliação por Leite e seu entorno são as disputas por uma vaga ao Senado ou até à Câmara — diante da debandada na bancada tucana, o partido vai precisar de puxadores de votos. Como O GLOBO mostrou na semana passada, um grupo em torno de dez deputados avalia deixar a legenda, que hoje tem 31 representantes na bancada. Por outro lado, a sigla filiou o senador Alessandro Vieira (SE), que deixou o Cidadania. Com isso, agora são oito tucanos no Senado.

“PACOTE” PARA FICAR

Até agora, um dos pontos que pesam contra uma mudança de partido é o risco de Leite ficar isolado na sigla de Gilberto Kassab. Nos últimos dias, ele ouviu lideranças de União Brasil, MDB e Cidadania que demonstraram contrariedade com a ideia de uma migração para o PSD, já que Kassab não participou das discussões de uma candidatura única com esses partidos.

Além disso, o presidente do PSD disse em entrevistas que escolheria o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa hipótese de segundo turno com o presidente Jair Bolsonaro (PL). Esses acenos de Kassab na direção do petista não são bem vistos pelo eleitorado conservador identificado com Leite. Na avaliação de aliados, a situação o colocaria numa situação difícil com sua base.

Nos últimos dias, os movimentos de Leite indicam uma reaproximação com o PSDB. Lideranças tucanas fizeram uma carta em que pediam a permanência do governador. O documento contou também com assinaturas de aliados do governador de São Paulo, João Doria — o paulista e o gaúcho travaram uma disputa acirrada nas prévias, em dezembro. Nessas conversas, tucanos colocaram à mesa inclusive a possibilidade de Leite assumir o comando da legenda em 2023, num esforço de renovação do PSDB e de construção de uma potencial candidatura à Presidência em 2026, gestos que agradaram o governador do Rio Grande do Sul, segundo pessoas próximas.