Valor Econômico, v. 23. n. 5688, 10/02/2023, Política, A10
Governo pode antecipar discussão sobre meta inflacionária e mercado reage
Fernando Exman, Larissa Garcia e Lu Aiko Otta

 

A possibilidade de o governo antecipar formalmente a rediscussão da meta de inflação provocou novos ruídos na equipe econômica e mais um dia de repercussão negativa no mercado, o que levou as taxas de juros de longo prazo aos maiores níveis do ano, queda do Ibovespa e depreciação do câmbio. Segundo o Valor apurou, a pauta da reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) do dia 16 de fevereiro ainda está indefinida, embora integrantes do governo demonstrem disposição de debater o tema antecipadamente. 

Isso normalmente seria feito apenas em junho. No entanto, fontes do Executivo não detalham qual seria a proposta, o que seria alterado e se o governo daria, dessa forma, sinal de que quer ampliar gastos de forma indiscriminada. Além disso, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, já se colocou diversas vezes contra a mudança das metas de inflação no curto prazo e disse que não teria "ganho de credibilidade" ajustá-las em períodos longos. 

Na apresentação do relatório de inflação de março do ano passado, por exemplo, ele afirmou acreditar que a autoridade monetária tinha instrumentos para cumprir as metas, sempre enfatizando que é uma decisão do CMN. “Isso pode ser debatido no CMN, mas a opinião do Banco Central hoje é que teria pouco a ganhar em termos de credibilidade”, ressaltou. 

Na apresentação do documento de junho, foi ainda mais incisivo: disse que “modificar uma meta no curto prazo que já não está no horizonte relevante na verdade não gera nenhuma credibilidade”. 

Em audiência no Congresso em maio, também falou sobre o assunto. E reiterou que “a meta gera a credibilidade” de que, se a autoridade monetária fizer “seu trabalho de forma correta”, vai conseguir cumpri-la. 

A atual meta de inflação para 2023 é de 3,25%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Quanto a 2024 e 2025, a meta é de 3%, também com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem atacado as metas, o atual nível da taxa de juros e, também, a autonomia do Banco Central. Essas críticas têm respaldo em parte da base aliada, mas a cúpula do Congresso sinaliza que não dará andamento a propostas que interfiram na autonomia do BC. 

Não seria a primeira vez que ocorreria a alteração da meta de forma antecipada. No entanto, se o presidente quiser levar o plano adiante, precisaria editar um ato para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, encaminhar a proposta ao Conselho Monetário Nacional. O governo colocaria a digital a operação, que precisaria ainda ser majoritária no CMN. O colegiado é formado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento, além do presidente do Banco Central.