O Globo, n 32.371, 24/03/2022. Mundo, p. 20
Talibã volta atrás e proíbe que jovens afegãs Vão à escola
Medida do grupo extremista barra alunas secundaristas das salas de aula
O Talibã revogou a autorização para que adolescentes do sexo feminino frequentem escolas secundaristas no Afeganistão. O retorno das alunas para as salas de aula estava marcado para ontem, sete meses após o grupo fundamentalista assumir o poder no país. Em Cabul, estudantes foram vistas chorando ao receberem a notícia.
— Ficamos desapontadas e totalmente sem esperança quando o diretor nos contou. Ele também chorou — disse uma jovem não identificada.
O Ministério da Educação afegão anunciou semana passada que escolas secundárias para todos os estudantes seriam reabertas no país ontem, depois de quase um ano. Na noite de terça-feira, a Pasta divulgou um vídeo desejando um bom retorno para as salas de aula.
Ontem de manhã, porém, o governo decidiu que as meninas não podem frequentar as instituições de educação secundária até a definição de um plano que concorde a sharia, a lei islâmica:
“Informamos que colégios de Ensino Médio e todas as escolas com estudantes do sexo feminino acima da 6ª série permanecem fechadas até segunda ordem”.
A estudante Wajiha Amimi não dormiu durante a noite, ansiosa para voltar a estudar, mas a alegria durou pouco. Recebeu a notícia de que teria que voltar para casa no meio da aula de biologia.
— De repente, nos disseram para sair até que outra ordem fosse emitida. O que fizemos de errado? Por que mulheres e meninas devem enfrentar essa situação?
'FRUSTRAÇÃO E DECEPÇÃO'
As famílias das alunas também demonstraram tristeza. Mãe de quatro meninas, Amina Haidari disse que não é possível acreditar no grupo extremista:
— Partiram o coração das minhas filhas. Para jovens, viver à sombra do Talibã é um desastre, perda de tempo. Todos os anúncios feitos pelo Talibã são propaganda.
Na escola Rabia Balji, as alunas sequer puderam atravessar o portão de entrada:
— Tínhamos muitas esperanças, mas agora foram despedaçadas — lamentou Muthahera Arefi, 17 anos.
Em comunicado, a alta comissária para os Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, demonstrou decepção após o fechamento das escolas secundárias afegãs.
“Compartilho a profunda frustração e decepção dos estudantes afegãos, que, após meses de espera, não puderam voltar à escola hoje”, diz a nota.
A missão da ONU no país também condenou a postura do grupo extremista: “A ONU no Afeganistão lamenta o anúncio de hoje do Talibã de que estão estendendo ainda mais sua proibição indefinida de estudantes do sexo feminino acima da 6ª série serem autorizadas a retornar à escola”, ressaltou o comunicado da organização.
Em seguida, o secretário geral da ONU, António Guterres, pediu a volta de todas as mulheres à escola e disse que a suspensão do ensino secundário para elas é “profundamente prejudicial”ao Afeganistão.
Algumas universidades públicas do Afeganistão reabriram em fevereiro. Para permitir a participação as alunas, os estudantes assistem às aulas separados por sexo. As escolas primárias foram reabertas em outubro do ano passado, e as meninas podem frequentá-las.