O Globo, n 32.371, 24/03/2022. Economia, p. 14

Pico da inflação deve ser em abril, diz presidente do BC

Gabriel Shinohara


Campos Neto avalia que guerra na Ucrânia trará oportunidades para o Brasil, com exportação de 'commodities' e inserção nas cadeias globais

A inflação deve atingir seu pico em abril e depois começar a cair, afirmou ontem o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, em evento promovido pela Fiesp e pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre regras fiscais. Ele disse ainda que os impactos decorrentes da guerra na Ucrânia podem abrir uma oportunidade de inserção do Brasil nas cadeias globais de fornecimento.

— Devemos chegar no pico em abril e voltar a cair. A gente estima que esse número de curto prazo seja até um pouco mais alto do que anteriormente previsto — disse Campos Neto.

Segundo o IBGE, o IPCA acumulado em 12 meses chegou a 10,54% em fevereiro, bem acima da meta estabelecida pelo BC para este ano, de 3,5%. A expectativa é que a inflação ainda suba este mês por causa dos impactos da guerra nos preços de combustíveis e alimentos.

Para tentar controlar a alta dos preços, o BC passou a taxa básica de juros (Selic) de 2%, no início de 2021, para 11,75% na semana passada, com a sinalização de que deve subir ainda mais.

CHOQUE DE COMBUSTÍVEIS

O presidente do BC ressaltou que a pressão inflacionária vem acontecendo em países avançados e emergentes também por uma mudança na demanda. Durante a pandemia, os bens tiveram uma demanda muito mais alta do que os serviços e esse movimento ainda não retornou ao normal.

Segundo ele, essa mudança causou um problema nas cadeias de produção globais e também no consumo de energia, que aumentou muito e pressionou os preços.

— Começamos a ver um aumento de demanda muito grande na energia, porque produzir bens demanda mais energia do que consumir serviços. Essa demanda extra começou a elevar o preço da energia —afirmou.

Com relação à guerra na Ucrânia, Campos Neto disse que o conflito deve levar a um redesenho das cadeias globais de valor, com empresas ocidentais buscando novos contratos fora de Rússia e China, por exemplo.

— O Brasil não se inseriu nas cadeias globais de valor, e agora temos uma oportunidade de estarmos muito mais presentes com essa redivisão das cadeias globais, se estivermos no lugar certo, com políticas certas —afirmou.

O presidente do BC ressaltou os efeitos negativos da guerra no campo econômico, pressão nos preços e um período “relativamente longo” de menos crescimento e mais inflação no mundo. Mas ressaltou que nem todas as notícias são ruins para o Brasil.

— Quando a gente pensa no efeito desse choque da guerra no Brasil, vê o seguinte: dividindo em alguns componentes, a parte de minerais que está subindo é um choque positivo para o Brasil, que é exportador de minerais. A parte de alimentos, se o Brasil tiver fertilizantes, que é um problema que temos na cadeia global, também é um choque positivo.

Campos Neto, no entanto, admitiu que a alta dos preços de combustíveis é um “choque negativo”, porque o país importa derivados.

Mas ressaltou que a alta nos preços das commodities beneficia a situação fiscal no Brasil no curto prazo, pois melhora a arrecadação do governo federal e dos estados.