Correio Braziliense, n. 22746, 30/06/2025. Brasil, p. 6
Emergência climática aprofunda desigualdade
Rafaela Gonçalves
Belém (PA) — No Brasil, pessoas pretas, pardas e indígenas estão entre as mais impactadas pela escassez de recursos e pela exclusão de direitos — fatores que as deixam especialmente vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. Essa relação desigual se manifesta na falta de acesso a recursos básicos, na exposição a riscos ecológicos e na dificuldade de acesso à Justiça em casos de crimes ambientais.
Racismo ambiental é um termo relativamente novo e ainda pouco difundido, que busca explicar essa equação que aprofunda desigualdades. "O racismo ambiental é uma das formas mais severas de exclusão, porque, muitas vezes, ele não é percebido pelas próprias pessoas que o sofrem", afirma Antonieta Luisa Costa, conhecida como Nieta, professora e uma das vozes mais importantes do movimento negro de Mato Grosso.
Com formação em pedagogia e geografia, Nieta possui mais de quatro décadas de atuação pelo direito das mulheres negras e promoção da justiça social, é fundadora e presidente do Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso (Imune-MT) e coordenadora do Centro Cultural Casa das Pretas.
Em sua pesquisa em comunidades urbanas da bacia do Córrego Gumitá, localizado na região norte da cidade de Cuiabá, a maior constatação é a falta de coleta de lixo. "Falar de racismo ambiental também é falar do que não é visto, do que não é percebido. Nesses lugares, em que a maioria da população é empobrecida, a dinâmica é perversa, e não é culpa da população."
A capital mato-grossense já é conhecida por suas altas temperaturas devido a uma combinação de fatores geográficos e urbanos. Além disso, a falta de infraestrutura e áreas verdes, combinada com o adensamento populacional, torna as pessoas mais vulneráveis aos efeitos do calor.
"Como que eu quero a mudança do meio ambiente se eu não consigo criar políticas para acesso a condições mínimas? Muitas políticas públicas não dão certo porque tratar desiguais como iguais gera desigualdade. A população pode sim fazer a sua parte, mas isso é difícil quando se vive em um ambiente e um espaço que nada se permite", enfatiza Nieta.
Saneamento
A falta de saneamento, especialmente em áreas periféricas, com grande concentração de pessoas negras e indígenas, é um dos principais mecanismos de racismo ambiental. Essa forma severa de exclusão foi constatada em alguns dados do último Censo, realizado em 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O levantamento mostra que 83,5% das pessoas brancas têm esgotamento sanitário considerado adequado, enquanto o número diminui para 75% das pessoas pretas, 68,9% das pardas e 29,9% das indígenas. A situação revela a necessidade de uma atenção especial das políticas públicas para a região Norte, em que, dos 78% dos moradores que se declaram pretos e pardos, apenas 46,4% — menos da metade dos seus 17,2 milhões de habitantes — têm saneamento básico.
O Censo aponta, ainda, que cerca de 9,1% da população não tem acesso à coleta direta ou indireta de resíduos. A cobertura mais baixa também é no Norte do país, de 21,5%. A falta de abastecimento adequado de água atinge 6,2 milhões de brasileiros, sendo 72% declarados pretos e pardos.
Já a falta de acesso a serviços de saneamento básico, como água tratada e esgoto, e a poluição por falta de infraestrutura impactam desproporcionalmente essas comunidades, agravando suas condições de vida e saúde. Para Aparecida Matos, professora e pesquisadora de saberes tradicionais da Universidade Federal do Tocantins (UFT), racismo ambiental é um termo novo que precisa ser mais debatido.
Em seu trabalho com mulheres de comunidades quilombolas, Aparecida relata vivenciar as mais diversas formas de exclusão encontradas no ambiente rural. "Trabalhamos em lugares em que não têm banheiros nas escolas, isso é racismo ambiental. Falta coleta de lixo nas comunidades, isso é racismo ambiental", ressalta. "A escola não é um local só de livros. A escola precisa de luz, precisa de água, de banheiros. A escola precisa ser um local de acolhimento, não de abandono", emenda.
A professora considera, ainda, impossível falar na agenda de combate às mudanças do clima sem abordar a falta infraestrutura básica nessas regiões e faz um alerta sobre o tema: "Sustentabilidade não se mede com carbono, se mede com afeto".
Existe uma preocupação real de que o racismo ambiental não receba a devida atenção nas discussões da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP 30, marcada para novembro deste ano, em Belém. Movimentos sociais, lideranças indígenas, comunidades quilombolas e organizações da sociedade civil têm alertado que, embora o tema ganhe cada vez mais visibilidade, ainda é marginalizado nas negociações internacionais sobre clima.
Esses temores foram expostos durante o TEDxAmazônia 2025, evento que ativistas para antecipar algumas das demandas que a sociedade civil espera que cheguem na Cúpula do Clima. Segundo a pesquisa Justiça Urbana, realizada pelo Greenpeace, pessoas da classe C e D se sentem mais inseguras com eventos climáticos (70%) do que pessoas da classe A e B (56%). A preocupação também é maior entre negros (64%), em comparação aos brancos (58%).
Garimpo
A liderança indígena Alessandra Munduruku descreveu sua infância livre no território indígena e expôs os efeitos nocivos dos avanços do garimpo e do desmatamento. Ela menciona que, na sua região, na década de 1960, já havia atividade de mineração, e que as pessoas estavam doentes e não sabiam por quê.
Para fazer a separação entre o ouro e outros materiais, garimpeiros usam com frequência o mercúrio, substância que é altamente tóxica e prejudicial à saúde. No processo, o mercúrio acaba sendo lançado de forma incorreta no solo, na água e no ar, contaminando a floresta e as pessoas. “Porque as pessoas, as crianças estão morrendo dentro da aldeia? E aí quando veio o resultado (do exame), soubemos que as mulheres têm o seu útero contaminado com mercúrio, o leite materno contaminado com mercúrio”, relata.
Considerada uma das principais vozes indígenas do Brasil, Alessandra alerta para os perigos que o garimpo e o desmatamento representam para a floresta e para a vida dos povos originários, sobretudo em sua região, no Médio Tapajós, no Pará. “Tem lugares que não têm água potável. Será que alguém está preocupado com o que está acontecendo com a nossa casa e o nosso corpo?”, diz a líder, que também questiona se a COP30 trará soluções para os problemas que afligem os povos tradicionais.