O Globo, n 32.372, 25/03/2022. Política, p. 07
Em gesto ao centro, PT dá aval para novas alianças
Sérgio Roxo
Documento aprovado pelo diretório nacional deixa aberta a possibilidade de grupos que não estiveram com o partido no passado se juntarem a chapa encabeçada pela sigla ao Planalto. Sem citar Alckmin, texto diz que o candidato a vice terá que respeitar “compromissos antineoliberais'
Em um aceno a siglas de centro, o diretório nacional do PT aprovou ontem um texto elaborado pela corrente majoritária do partido, a Construindo um Novo Brasil (CNB), deixando aberta a possibilidade de grupos que não estiveram com a legenda no passado se juntarem à chapa encabeçada pelo ex-presidente Lula na disputa ao Palácio do Planalto em outubro.
No documento da CNB, corrente de Lula, o PT dá aval para a formação da federação com o PCdoB e o PV e, ao mesmo tempo, abre caminho para novas alianças que ampliem a candidatura do ex-presidente. “Quem outrora não esteve conosco é mais do que bem-vindo a participar deste movimento que devolverá a cadeira de presidente da República ao povo”, diz trecho do texto.
Sem citar o ex-governador Geraldo Alckmin, que deve ocupar a vaga de vice após se filiar ao PSB, o texto final ganhou um adendo no fim do dia. O trecho inserido diz que o candidato a vice terá que respeitar “compromissos programáticos antineoliberais”.
A partir do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), os petistas passaram a acusar os tucanos de seguirem um programa neoliberal na economia. Alckmin é um dos fundadores do PSDB, passou 33 anos no partido e disputou duas vezes a Presidência da República pela legenda, antes de se desfiliar em dezembro do ano passado.
Na primeira versão do texto — que teve 47 votos a favor, o que equivale a 65% dos que estavam presentes —, aprovada pela manhã, não havia referência aos compromissos programáticos que deveriam nortear a composição da chapa.
“A candidatura de Lula deverá trazer, já na composição da chapa de presidente e vice-presidente, a ampliação e a unidade que se espera das forças de oposição ao governo nesta quadra da história”, afirmava o texto. Com a emenda, acrescentou-se: “respeitando os compromissos programáticos antineoliberais”.
MARCANDO DISTÂNCIA
Textos apresentados por correntes minoritárias do partido se opunham diretamente ao nome de Alckmin para vice, mas esses documentos não foram aprovados. A indicação do ex-tucano para a chapa deve ser votada em encontro partidário, ainda sem data para ocorrer.
O documento prega ainda unidade para derrotar o bolsonarismo. “Todas e todos que decidirem pelo enfrentamento a Bolsonaro como prioridade política dos próximos meses terão no PT um aliado para aquela que será a eleição mais importante que já enfrentamos”, diz o texto.
Ontem, Lula afirmou que “figuras históricas” do PT, como a ex-presidente Dilma Rousseff, não teriam espaço em um eventual terceiro governo, caso seja eleito. Ele se referiu também ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e ao ex-presidente do partido José Genoino. Dilma ficou desgastada após sofrer um impeachment e devido aos indicadores econômicos ruins de sua gestão. Já Dirceu e Genoino foram presos no escândalo do mensalão.
— A Dilma tem uma competência técnica extraordinária, mas tem muita gente nova que nós vamos colocar. Essas pessoas que têm experiência podem ajudar com palpite, conversando —disse Lula.
O petista afirmou que “nenhum deles”, citando os três nomes, aceitaria participar do Ministério de um novo governo, caso ele se eleja para o Palácio do Planalto. A declaração foi feita durante entrevista à rádio “Super Notícia”, de Minas Gerais. (Colaborou Guilherme Caetano)