O Globo, n 32.372, 25/03/2022. Política, p. 08
Datafolha: Lula segue à frente, mas Bolsonaro ganha espaço
Bernardo Mello
Reprovação diminui, e presidente vai a 26%, ante 43% do petista. Moro tem 8% Ciro fica com 6%, e Doria marca 2%
Em sua primeira pesquisa divulgada neste ano eleitoral, o Datafolha registrou um avanço do presidente Jair Bolsonaro (PL) na busca por atenuar sua rejeição e ganhar espaço frente a outras candidaturas, em especial a do ex-presidente Lula (PT), que segue na liderança das intenções de voto. O levantamento, realizado entre terça e quarta-feira e divulgado ontem, ocorre em meio a um novo arrefecimento da pandemia de Covid-19 e ao pagamento da terceira parcela do Auxílio Brasil neste ano, programa que substituiu o Bolsa Família. A pesquisa apontou ainda que, embora Bolsonaro e Lula tenham as mais altas taxas de rejeição, nomes que procuram se viabilizar dentro da chamada terceira via, como Sergio Moro (Podemos) e Ciro Gomes (PDT), não conseguiram até aqui se estabelecer em um patamar de dois dígitos de percentual de votos.
Em dois cenários elaborados pelo Datafolha listando todos os dez partidos com pré-candidaturas lançadas, Lula atingiu 43% de intenções de voto, ante 26% de Bolsonaro. Moro marcou 8% em ambos, enquanto Ciro oscilou entre 6% e 7%. A margem de erro é de dois pontos, para mais ou para menos.
No levantamento anterior do Datafolha, divulgado em dezembro, Lula oscilava entre 47% e 48% das intenções de voto, e Bolsonaro ficava entre 21% e 22%, a depender do cenário. Este ranking de intenções de voto, contudo, não é diretamente comparável ao da pesquisa divulgada ontem, por ter incluído as pré-candidaturas de André Janones (Avante), Leonardo Péricles (UP) e Vera Lúcia (PSTU), ausentes em dezembro, e deixado de listar os nomes de Alessandro Vieira (PSDB), Aldo Rebelo (sem partido) e Rodrigo Pacheco (PSD), que se retiraram da corrida presidencial.
Na modalidade espontânea, por sua vez, comparável ao resultado de dezembro, Bolsonaro cresceu cinco pontos, chegando a 23%. Lula oscilou de 32% para 30%.
A evolução da avaliação do governo reforça a hipótese de melhora de Bolsonaro na disputa por eleitores. A reprovação à gestão presidencial caiu sete pontos, passando de 53% em dezembro para 46% atualmente. Já as avaliações de ótimo ou bom chegaram a 25% neste mês, segundo o Datafolha, três pontos a mais do que no fim do ano passado.
REJEIÇÕES MAIS PRÓXIMAS
Os números colocam Bolsonaro em patamares de aprovação e de rejeição semelhantes aos de maio de 2021, quando aparecia com 24% e 45%, respectivamente. A reprovação ao presidente havia subido desde então, em paralelo ao avanço da inflação no segundo semestre do ano passado e ao aprofundamento dos trabalhos da CPI da Covid no Senado, que ocorreu entre abril e outubro do ano passado.
Apesar da melhora, Bolsonaro segue tendo maior rejeição a essa altura do mandato do que ex-presidentes que se reelegeram. Em fevereiro de 2014, por exemplo, a gestão de Dilma Rousseff (PT) era avaliada como ruim ou péssima por 23%, metade do percentual dos que reprovam Bolsonaro. Tanto Dilma quanto seus antecessores em anos de reeleição — Lula em 2006 e Fernando Henrique Cardoso em 1998 — tinham avaliações positivas e regulares próximas à casa de 40%.
O levantamento do Datafolha também mostrou que Bolsonaro, embora siga sendo o candidato mais rejeitado pelo eleitorado, atenuou seu impacto negativo neste quesito. Segundo a pesquisa, 55% dos eleitores dizem não votar de jeito nenhum no atual presidente, cinco pontos a menos do que o registrado em dezembro. Lula, por sua vez, aparece rejeitado por 37% do eleitorado —em dezembro, com outros nomes na lista apresentada pelo Datafolha aos eleitores, 30% haviam dito não votar no ex-presidente em qualquer hipótese.
Nos cenários de intenções de voto, a pesquisa indica que, a despeito de alterações na lista de candidatos, Moro e Ciro se mantêm estáveis em um patamar de até 10%, considerando a margem de erro, mas sem ultrapassar esta barreira. Em um degrau mais abaixo, figuram nomes como Doria, Janones e Simone Tebet (MDB).
O Datafolha testou ainda um cenário com o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), como candidato à Presidência no lugar do governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Doria venceu as prévias do PSDB no fim do ano passado, mas tem apresentado dificuldade em convencer o partido sobre a viabilidade de sua candidatura. Além do baixo patamar de intenções de voto, em torno de 2%, o paulista soma um dos maiores índices de rejeição na pesquisa, de 30% —acima de Moro, com 26%, e de Ciro, com 23%.
SEM MUDANÇAS
Leite tem sido estimulado por aliados a permanecer no PSDB e renunciar ao governo gaúcho até o fim do mês, para manter em aberto a hipótese de substituir Doria como candidato. Ele também avalia um convite para se filiar ao PSD. A pesquisa mostra, no entanto, pouca variação entre os desempenhos de Leite e Doria por ora, com ligeira desvantagem numérica para o gaúcho.
A expectativa, tanto de Leite quanto de Doria, é de convergência entre partidos da terceira via por uma candidatura única. O PSDB tem debatido o assunto com lideranças do MDB, sigla de Tebet, e do União Brasil, que ainda não apresentou formalmente um pré-candidato. Na pesquisa de ontem, contudo, os cenários com apenas um desses partidos na disputa praticamente não impactaram o quadro geral. Sem Tebet e Leite, Doria manteve 2% de intenções de voto. Sem os governadores tucanos, Tebet ficou com 1%.
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