O Globo, n 32.372, 25/03/2022. Economia, p. 15

BC Vê probabilidade elevada de estouro da meta de inflação

Gabriel Shinohara


Banco Central avalia ainda que repasse da alta do petróleo aos preços da gasolina chegaria a 66%

Em seu Relatório Trimestral de Inflação, divulgado ontem, o Banco Central (BC) manteve sua previsão de crescimento para este ano em 1% e apontou dois cenários para a inflação em 2022 — ambos com o índice acima da meta estipulada. Ou seja, seria o segundo ano consecutivo em que o BC não consegue cumprir a meta de inflação.

Para a inflação, o cenário que considera um barril de petróleo mais caro, acima dos US$ 118, projeta IPCA a 7,1% no fim do ano e probabilidade de 97% de estouro da meta. Já o cenário com o petróleo a US 100 tem inflação em 6,3%, com probabilidade de 88% de superar o teto da meta.

A meta é de 3,5%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. No ano passado, para uma meta de 3,75%, o IPCA ficou em 10,06%.

No relatório, o BC calculou ainda qual seria o repasse do preço do petróleo para o da gasolina na bomba. Para este ano, considerando um preço de etanol constante, haveria um repasse de 47,2% dos preços do petróleo para a bomba. Já quando se considera uma alta no preço de etanol, que tende a ser influenciado pelo da gasolina, o repasse chegaria a 66,1%.

No ano passado, esses números foram de 39,8% e 54,4%, respectivamente.

Segundo o BC, as variações no preço da gasolina têm efeito relevante na inflação do país. Por isso, o impacto do preço do petróleo é “fonte de incerteza” para as projeções.

Fernanda Guardado, diretora de Assuntos Internacionais e Assuntos Corporativos do BC, que assumiu interinamente a diretoria de Política Econômica, ressalta que o estudo não considera as mudanças feitas pelo Congresso no cálculo do ICMS e que o peso da gasolina no IPCA deve subir em 2022.

Com relação ao crescimento da economia, o BC aponta como fatores negativos a escassez de matéria-prima, o risco fiscal, a alta dos juros e a guerra na Ucrânia. Por um ângulo positivo, o PIB acima do esperado em 2021 deve puxar para cima o primeiro trimestre deste ano.

Mas a projeção do BC ainda está acima da do mercado, de crescimento de 0,5%.