O Globo, n 32.373, 26/03/2022. Saúde, p. 24

CoronaVac pode ficar fora de nova fábrica



Sem encomendas federais, imunizante tem produção incerta em complexo inaugurado pelo Butantan

O Instituto Butantan promoveu ontem uma cerimônia de entrega das obras da nova fábrica de vacinas do complexo, na Zona Oeste de São Paulo.

O projeto orçado em cerca de R$ 300 milhões — sendo R$ 189 milhões doados pela iniciativa privada — ainda não está apto, porém, a produzir os imunizantes. Primeiro será necessário que o maquinário seja instalado e, em segundo lugar, que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) dê o aval para que a produção seja iniciada, por meio do chamado certificado de boas práticas de fabricação.

Inicialmente anunciada como uma fábrica da CoronaVac — vacina contra Covid-19 operacionalizada no Brasil pelo Butantan —, a linha de produção também poderá fabricar vacinas de hepatite A, raiva e zika. Quanto à CoronaVac, o imunizante por enquanto corre o risco de ficar excluído da produção caso o Ministério da Saúde não faça encomendas de compras para o ano que vem.

— Se não houver mercado [para a CoronaVac], não vamos produzir — afirmou ao GLOBO Dimas Covas, presidente do Butantan. A incerteza que encobre a CoronaVac no Brasil se dá, unicamente, na vacinação dos adultos. Isso porque o Ministério da Saúde não recomenda o uso desse imunizante para o reforço do esquema de vacinação contra a Covid-19. Decisão que Covas refuta. Ele acredita que a posição será revista sob a luz de novos estudos.

—Tudo indica que as vacinas inativadas são as que mais têm proteção contra as variantes, mas o panorama está mudando muito. Haverá muita novidade [em relação ao uso dos imunizantes] — afirma Covas.

— É difícil dizer o que o Ministério colocará, em termos de vacina, para o ano que vem. Em relação ao uso da CoronaVac para as crianças, há um cenário mais promissor: o imunizante é aprovado para meninos e meninas a partir dos 6 anos. Neste momento, a Anvisa avalia o uso da vacina para as crianças acima de 3 anos.

— São em torno de 9 milhões de crianças [nessa faixa etária entre 3 e 5 anos], então precisaremos de em torno de 20 milhões de aplicações. Se o Ministério quiser a vacina, em 15 dias estará na porta deles. Provavelmente compraremos as doses já prontas [da Sinovac, na China] —diz Covas. 

Chamada de Centro de Produção Multipropósito de Vacinas, a nova fábrica tem 10,9 mil metros quadrados de área construída, separados por quatro pavimentos. 

O local vai abrigar a produção de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), um avanço para o país, que importa boa parte da matéria prima de seus imunizantes.