O Globo, n 32.373, 26/03/2022. Mundo, p. 20

Presidente mantém lealdade da elite política russa



Apesar de protestos contra guerra na Ucrânia, divergências táticas ainda não levaram a uma divisão nos grupos dominantes

O presidente Vladimir Putin ainda mantém a lealdade pública da elite política da Rússia, apesar dos protestos contra a invasão da Ucrânia e das sanções internacionais sem precedentes que o país enfrenta. Artistas e grandes figuras da mídia russa se manifestaram contra a guerra, e até mesmo grandes empresários fizeram críticas veladas. Mas, depois de um mês, não houve dissidência no círculo íntimo de Putin ou entre os pesos pesados da política russa.

— Não houve indicação de uma divisão na classe dominante — disse a fundadora da empresa de análise R.Politik, Tatiana Stanovaya. — Há um consenso total, embora talvez com divergências táticas. 

A especialista afirma que deve ser feita uma distinção entre ter reservas quanto à invasão e estar preparado para agir. 

— As pessoas estão em choque, e muitos acreditam que isso é um erro. Mas ninguém pode agir, todos estão focados em sua sobrevivência. 

Fontes diplomáticas ocidentais dizem que, apesar do forte impacto das sanções na economia russa, ainda não há sinais de que isso se traduzirá em mudança política. A principal crítica local à invasão, segundo Tatiana, vem de forças “periféricas” da extrema direita que consideram que ela não é suficientemente agressiva. 

A TV estatal russa domina a narrativa, retratando o que o Kremlin chama de “operação militar especial” como uma missão heroica contra a agressão ocidental. A oposição liberal desapareceu, os partidos representados no Parlamento geralmente seguem a linha do Kremlin em todas as questões, e o maior rival de Putin, Alexei Navalny, está na prisão.

—Não é surpreendente que não tenhamos visto divisões públicas dramáticas na elite dominante — disse Ben Noble, do University College de  Londres e e coautor do livro “Navalny: nêmesis de Putin, futuro da Rússia?”

Três dias antes da invasão, Putin convocou a liderança política ao Kremlin para uma reunião do Conselho de Segurança que tratava do reconhecimento da independência das regiões separatistas pró Rússia do Leste da Ucrânia. Um a um, em uma demonstração teatral de unidade, os 13 membros do Conselho endossaram o reconhecimento de Donetsk e Luhansk como independentes.

Entre os presentes estavam três homens que compõem o círculo íntimo de Putin: o ministro da Defesa, Sergei Shoigu; o secretário do Conselho de Segurança Nacional, Nikolai Patrushev, e o chefe do Serviço Federal de Segurança, Alexander Bornikov.

Não houve o menor murmúrio de discordância entre os que compareceram a essa reunião ou entre as autoridades de baixo escalão. 

Dias antes, Putin alertou opositores da linha do Kremlin, observando que o Ocidente está apostando em “uma quinta coluna, traidores da nação” para enfraquecer a Rússia. Os únicos a romper as fileiras foram o ex-vice-primeiro ministro Arkady Dvorkovich, e o enviado do governo russo para o Clima, Anatoly Chubais.

Dvorkovich, que lidera o órgão mundial de xadrez, se manifestou contra a guerra em uma revista americana e deixou a posição de chefe da Fundação Skolkovo, dedicada à inovação tecnológica. Já Chubais, último remanescente no governo russo dos liberais dos anos 1990, deixou o posto e o país esta semana. 

Preocupações foram levantadas entre os grandes empresários que podem perder com a invasão, como Oleg Deripaska e Mikhail Fridman, que fizeram comentários cautelosos em favor da paz. 

Noble diz que muitos membros da elite ficaram surpresos com a invasão, pois “não estavam envolvidos no processo de decisão” e achavam que Putin estava seguindo uma política de risco calculado.

— Mas uma coisa é pedir paz, e outra é criticar diretamente Putin —pontuou.