O Globo, n 32.374, 27/03/2022. Economia, p. 17

Após seca, crise de insumos impedirá safra recorde



A projeção do governo de uma safra de grãos de 300 milhões de toneladas no ano que vem tem todas as chances de não se concretizar. Após os agricultores sofrerem com a longa estiagem no Sul, agora se preparam para pagar cerca de 150% a mais para adubarem a terra para a próxima colheita. Com uso menor de fertilizantes, em falta em decorrência da guerra na Ucrânia, a produção deverá ficar com o mesmo volume esperado para a última safra, em torno de 260 milhões de toneladas. 

Luís Eduardo Rangel, diretor do Ministério da Agricultura, explica que as embarcações dos países fornecedores — incluindo Rússia e Bielorrússia, alvos de sanções — se dirigem para o Brasil porque as aquisições de fertilizantes do Hemisfério Sul, diferentemente do Norte, ocorrem no primeiro semestre.

Nas duas primeiras semanas de março,o volume de fertilizantes embarcados para o Brasil cresceu quase 10% em relação ao mesmo período do ano passado. Como a crise no abastecimento começou no fim de 2021, quando a Bielorrússia se tornou alvo de sanções por violações aos direitos humanos, os fornecedores se movimentaram para não perder as vendas.

— O sinal amarelo continua aceso. Só vamos nos tranquilizar quando o agricultor colocar o adubo na terra —diz Rangel. 

Entre as ações de curto prazo para garantir o plantio da safra que começa em setembro está a diplomacia: a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, mantém contatos diretos com fornecedores no exterior. 

A vulnerabilidade brasileira à importação desses insumos está pior por motivos estruturais e, portanto, depende de respostas de longo prazo, previstas no Plano Nacional de Fertilizantes, lançado no último dia 11. Uma das metas é reduzir o total de importados dos atuais 85% para 50% até 2050, por meio de fertilizantes organominerais (adubos orgânicos enriquecidos com minerais) e remineralizadores (exemplo, pó de rocha), além de maior exploração de jazidas minerais para fins agrícolas. 

Advogado especialista em agronegócio, Larry Carvalho diz que o segmento que mais vai sofrer com a falta de fertilizantes é o de grãos, como soja e milho:

— Considerando a alimentação da China e a confusão da Rússia, não dá para atender todo mundo. (Eliane Oliveira)