Valor Econômico, v. 23. n. 5660, 03/01/2023, Finanças, C1
Análise: Desancoragem das expectativas de inflação se agrava
Alex Ribeiro, Valor
O processo de desancoragem das expectativas de inflação se agravou na última semana, ampliando a pressão sobre o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central para manter a Selic, a taxa básica de juros, em patamar elevado por um período mais longo do que o inicialmente planejado.
A variação do IPCA projetada pelo mercado para 2025 subiu mais uma vez, de 3,2% para 3,25% ao ano, distanciando-se da meta de inflação definida para o período, de 3%. A expectativa mediana do mercado para 2026 subiu de 3% para 3,15%.
Nesses casos, estamos falando de expectativas para um horizonte longe o suficiente para estar fora de fatores cíclicos que afetam a inflação e também de eventuais choques de oferta que puxam os preços para cima.
Dessa forma, a piora na expectativa reflete uma opinião do mercado sobre a capacidade do Banco Central de manter a inflação nas metas, dentro de um quadro de fragilidade fiscal. Quando prevê uma alta de inflação num prazo tão distante, o mercado, possivelmente, está colocando em xeque a credibilidade da política monetária.
Também pode ser uma antecipação da expectativa do mercado sobre uma eventual alta das metas de inflação. A equipe econômica do presidente Lula, tanto na campanha, na transição e na formação do governo, nunca foi direta em dizer que pretende manter a meta de 3% como um objetivo de longo prazo para a inflação.
Um fato que chama a atenção é que, ao mesmo tempo, o mercado está subindo as suas expectativas para a taxa Selic. Nessa semana, o mercado subiu, de 12% para 12,25%, a taxa de juros esperada para o fim do ano que vem. A Selic atual está em 13,75% ao ano.
O recado das projeções é que, mesmo que o Banco Central atrasar o ciclo de baixa de juros, não será capaz de cumprir o centro da meta de inflação. As expectativas para 2024, que passa a ter peso majoritário nas decisões do Copom, subiram de 3,6% para 3,65%, ante uma meta de 3,25%.
Toda essa piora nas expectativas de inflação está relacionada às incertezas fiscais desde o segundo turno das eleições. Hoje, o Banco Central divulgou o mapeamento da distribuição das expectativas, que ilustra bem como o mercado vem se tornando mais pessimista.
No último dia útil de outubro, 62% dos analistas achavam que a inflação iria ficar ao redor da meta em 2025. Esse percentual, hoje, é de apenas 45%. Cerca de um quarto dos analistas preveem que o Banco Central vai manter os juros na faixa de 13% a 13,75% ao ano no fim de 2023, ou seja, fazer um corte pequeno de juros ou não cortar nada.
Antes do segundo turno das eleições, o Copom vinha indicando ser possível começar a baixar os juros básicos a partir de junho deste ano. Atualmente, a previsão é que o ciclo de afrouxamento seja possível só a partir de setembro.
Mas os dados mostram que, apesar de toda a piora no quadro inflacionário, o mercado ainda não acredita que será preciso subir a taxa básica de juros. Essa é uma ameaça que tem sido levantada pelo Copom, no caso de o seu cenário de convergência da inflação para a meta não se confirmar.