Até quando o Cerradovai resistir?
Correio Braziliense, n. 22709, 24/05/2025. Cidades, p. 13
Bruna Pauxis
Maio marca o início da estação de seca no Distrito Federal, o que pode ser notado pela coloração amarelada das folhas das árvores, pela grama opaca, pelas emergências dos hospitais lotadas de casos de doenças respiratórias e pelos umidificadores ligados nos lares da capital. Ano passado, o DF viveu a pior seca da história, com 167 dias sem chuvas, ou seja, mais de cinco meses sem precipitações.
Mas depois que a chuva caiu e trouxe o verde de volta para a paisagem da capital, poucos se lembram do quão seca a vegetação esteve, por tanto tempo. Esse ciclo do bioma, embora belo, traz a preocupação de que, um dia, o Cerrado não volte a esverdear. Para a bióloga, escritora e ativista socioambiental Nurit Bensusan, olhar para os impactos das queimadas não é só ver o que o fogo queimou, mas as relações destruídas em meio às chamas.
"Precisamos entender que um bioma não é um conjunto de plantas e animais. É muito mais do que isso. É um conjunto de relações entre esses organismos. Essas relações têm a ver com a fertilidade do solo, que têm a ver com a polinização, que tem a ver com o controle de pragas e doenças, com a qualidade da água, com a disponibilidade da água, com a estabilidade climática", completou.
De acordo com a cientista, acreditar que o Cerrado sempre renascerá das cinzas é uma ideia que, a longo prazo, não se sustenta. "Qualquer organismo, qualquer ecossistema, tem alguma resiliência. Podemos pensar na asa de um avião, que é sustentada por centenas de parafusos. Se você tira um parafuso, a asa não cai. Dois, ou 10, e a asa não cai. Mas depois de um certo número, a asa colapsa", comparou.
Nurit ressalta que, com o passar do tempo e as agressões sofridas, o Cerrado se torna mais fragilizado. "Esses ataques, seja por fogo, por desmatamento ou por degradação, são muito frequentes. Se houvesse um tempo longo entre um evento e outro, tudo bem. A vegetação se recupera de pequenos incêndios naturais. Mas isso não é o que acontece", lamentou.
Como a seca ocorre todos os anos no DF, os preparativos para combater o fogo começam muito antes de as folhas secarem. O Instituto Brasília Ambiental (Ibram) faz o controle das áreas de risco de incêndio nas unidades de conservação e parques, por meio da Diretoria de Manejo Integrado do Fogo (DPCIF), vinculada à Superintendência de Unidades de Conservação, Biodiversidade e Água (SUCON).
"O Brasília Ambiental adota medidas como a construção de aceiros (técnica de retirada estratégica de vegetação que contorna uma área de risco) com uso do fogo, contratação de brigadistas florestais para ações preventivas, monitoramento, vigilância e combate direto aos incêndios. Neste momento, inclusive, um processo seletivo está em andamento para contratação de 150 profissionais para trabalhos na prevenção e combate aos incêndios", afirmou a assessoria do Ibram.
Ainda de acordo com o Instituto, após as queimadas, a recuperação de áreas atingidas pelo fogo ocorre de forma natural. "Em áreas degradadas, ou com fogo recorrente e intenso, é necessário adotar medidas de recuperação ativa, como o controle de espécies exóticas invasoras, revegetação com espécies presentes no local atingido e proteção contra novos incêndios", completou.
Verde Vivo
No fim de abril, o Governo do Distrito Federal (GDF) lançou a Operação Verde Vivo para reduzir e prevenir incêndios florestais. A ação é dividida em três partes, ao longo do ano: Fase de Preparação e Prevenção, com foco na capacitação das equipes e no planejamento; Fase de Combate, com posicionamento dos militares nos focos de incêndio; e Fase de Desmobilização/Avaliativa, na qual é feita a análise dos resultados da estratégia.
Com atuação conjunta dos governos local e federal, a operação terá o suporte de viaturas especializadas, brigadas florestais, aeronaves e ferramentas de georreferenciamento para o monitoramento das áreas mais suscetíveis às queimadas.
Animais
Setembro do ano passado foi marcado por milhares de focos de incêndio no DF. Um deles, devastou quase metade da área da Floresta Nacional de Brasília. Essas queimadas não afetam apenas a vegetação: têm um impacto negativo na sobrevivência e conservação dos animais do Cerrado. Helga Correa, especialista de conservação do WWF- Brasil, ressalta que o bioma tem diversas espécies sob risco de extinção.
"Segundo dados oficiais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), temos mais de 242 espécies em ameaça de extinção. Comparado com o número total de espécies de vertebrados no Cerrado, isso chega a cerca de 7%", assinalou. "Pode não parecer um número grande, mas esse percentual está conectado a papéis muito importantes para a manutenção dos sistemas. Por isso é alarmante", destacou.
A especialista reforçou a importância de pensar nas espécies nacionais em risco de extinção que estão no Cerrado. "São cerca de 12% das espécies endêmicas do Brasil. Quer dizer que ocorrem somente no Brasil, que estão ameaçadas de extinção e ocorrem no Cerrado. Essas espécies, se desaparecem aqui, desaparecem do mundo inteiro. Sem elas, perdemos também uma história evolutiva e, além disso, muitas vezes, essas espécies são fundamentais no contexto das mudanças climáticas", alertou.