Valor Econômico, v. 23. n. 5665, 10/01/2023, Empresas, B1
Ataques a refinarias teriam efeito de restringir oferta doméstica
Gabriela Ruddy, Alessandra Saraiva e Fábio Couto


As movimentações de bolsonaristas radicais insinuando que bloqueariam o acesso a refinarias poderiam restringir o suprimento de combustíveis no país, dizem especialistas. As autoridades nos Estados, porém, deram resposta rápida, com reforço preventivo da segurança nos parques de refino, o que evitou problemas. Do total do diesel consumido no Brasil, em média, 75% têm origem em refinarias nacionais e 25%, em importações, sendo que os produtos do exterior atendem sobretudo ao Norte e Nordeste. Foi a capacidade de produção doméstica que os atos antidemocráticos cogitaram atacar para desestabilizar o abastecimento nacional. 

O cenário atual de abastecimento de combustíveis é diferente do que era há quase cinco anos, quando, em maio de 2018, uma greve de caminhoneiros teve sérios reflexos no país. Hoje o mercado internacional de derivados de petróleo está mais apertado como resultado da guerra na Ucrânia, diz o professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, Edmar Almeida. Além disso, diz Almeida, a Petrobras não tem mais tanta flexibilidade para realocar a produção depois da venda de ativos de refino (veja mais abaixo). 

“A Petrobras vendeu duas grandes refinarias, além de terminais de importação de combustíveis. Qualquer tipo de problema nas refinarias pode causar restrições no abastecimento, ainda mais nesse momento atual de um mercado internacional muito curto, principalmente para o diesel”, diz Almeida. 

Um dos mercados de maior sensibilidade é São Paulo, atendido pelas quatro unidades de refino da Petrobras 

Um dos mercados de maior sensibilidade a eventuais problemas nas refinarias é São Paulo, atendido pelas quatro unidades de refino da Petrobras no Estado e menos dependente de importações. Ao todo, as refinarias paulistas foram responsáveis por 44% de todos os derivados produzidos no país de janeiro a novembro de 2022, segundo os dados mais recentes da Agência Nacional do Petróleo (ANP). “Nas outras regiões, é mais usual a chegada de produtos importados”, diz o consultor em gerenciamento de risco da StoneX, Pedro Shinzato. 

Outra região mais suscetível a apresentar problemas é o Norte, devido à maior dificuldade logística e à dependência do transporte fluvial, diz Shinzato. Todos os Estados da região são atendidos pela Refinaria Isaac Sabbá (Reman), em Manaus (AM), que tem capacidade para processar 46 mil barris por dia de petróleo. 

A Petrobras informou na segunda-feira (9) que as refinarias operavam normalmente: “A Petrobras está tomando todas as medidas preventivas de proteção necessárias, conforme procedimento padrão" informou a empresa em nota. 

Ontem, um dia depois dos ataques terroristas no Distrito Federal (DF), a Federação Única dos Petroleiros (FUP) fez levantamento em nove refinarias no país. A ideia foi apurar a situação das operações, tendo em vista possíveis ameaças de atos antidemocráticos perto de algumas unidades. Do universo monitorado, quatro unidades registraram protestos entre a noite de domingo e a madrugada de segunda, segundo a FUP. Apesar das ameaças, todas as unidades operaram normalmente, segundo os sindicalistas. 

Na Reman, a FUP informou que cerca de 50 “manifestantes golpistas” permaneciam na via de acesso às distribuidoras, mas sem bloqueios e com a presença massiva da Polícia Militar ao redor da unidade. Não houve atos terroristas na refinaria, informou a FUP. A Atem, que opera a Reman, disse que a situação próxima à sede foi controlada. 

Na Refinaria Henrique Lage (Revap), no Vale do Paraíba, golpistas tentaram impedir o acesso dos caminhões à distribuidora Vibra, segundo informações da FUP. No início da manhã, a Polícia precisou negociar para desbloquear a pista, de acordo com a entidade sindical. 

Também houve altercações na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária (PR). Na madrugada, o Batalhão de Choque da PM retirou todos os bolsonaristas radicais que estavam bloqueando o acesso às distribuidoras. Na Refinaria Alberto Pasqualini, em Canoas (RS), cerca de 50 golpistas permaneciam até às 11h, concentrados em frente à rótula de acesso à refinaria. Havia forte presença das Polícias Militar e Rodoviária, informou ainda a federação. 

No caso da Refinaria de Mataripe (Bahia), que atende parte do mercado do Nordeste, as operações seguiram normais, segundo a Acelen, que controla a unidade. A FUP também informou normalidade de operações, sem presença de golpistas, na Refinaria Abreu e Lima, em Suape (PE); na Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim (MG); na Refinaria de Paulínia (Replan), na cidade de mesmo nome em São Paulo; na Refinaria Capuava (Recap), em São Paulo; e na Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no município homônimo, na Baixada Fluminense. 

No caso da Reduc, o governo do Rio informou ter ordenado reforço de efetivo de segurança, na segunda-feira, com presença do Batalhão de Choque e do Regimento de Polícia Montada. O governo monitorava possíveis ameaças terroristas à estrutura desde domingo. O Ministério Público Federal (MPF) também informou ontem que o procurador da República no Rio, Julio José Araujo Junior, cobrou das autoridades atuação firme para impedir eventuais invasões. Segundo o sindicato dos petroleiros da Reduc, até a manhã de ontem não havia no local nenhum golpista e a troca de turno ocorreu “sem alardes”. 

O senador Jean-Paul Prates, indicado para presidente da Petrobras, afirmou, em comunicado, que as convocações para bloquear acessos a instalações foram todas evitadas com reforço na vigilância, inteligência e apoio das forças policiais.