Valor Econômico, v. 23. n. 5665, 10/01/2023, Agronegócios, B6
Colheita de soja começa lenta no país; clima preocupa no RS
José Florentino e Paulo Santos
A colheita da soja plantada na safra 2022/23 começou no país, mas ainda é incipiente. Segundo a AgRural, os trabalhos tiveram início em Mato Grosso, que lidera a produção de grãos, e em Rondônia. Mas como no Paraná as máquinas irão a campo com atraso em relação ao ciclo 2021/22, por causa do céu encoberto - o que retardou o desenvolvimento das plantas na regiões oeste e sudoeste do Estado -, na média nacional, a colheita até quinta-feira passada cobriu apenas 0,04% da área estimada de plantio. No início de janeiro de 2022, os trabalhos haviam ocorrido em 0,2% da área.
Segundo as estimativas mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o plantio da oleaginosa ocorreu em 43,4 milhões de hectares no país nesta safra; em 2021/22, a cultura ocupou 41,5 milhões de hectares. Por enquanto, a estatal estima rendimento médio de 3.536 quilos por hectare, acima dos 3.026 registrados em 2021/22. Com isso, a produção deve passar de 125,5 milhões para 153,5 milhões de toneladas. Esse forte aumento decorre, em boa medida, da baixa base de comparação, uma vez que no ano passado houve quebra na região Sul e em parte de Mato Grosso do Sul.
O clima está mais favorável no Sul do país, mas há riscos. Segundo a AgRural, se nas próximas semanas o tempo no Rio Grande do Sul - onde os trabalhos ainda estão em fase de plantio - continuar quente e seco como está agora, o potencial produtivo da soja poderá cair no Estado, que amargou perdas profundas em 2021/22. “No resto do país, a safra se desenvolve bem até o momento, e a expectativa é de boa produtividade”, informou a consultoria.
O fato é que o fenômeno La Niña voltou a dar as caras no Sul, limitando o regime de chuvas. Por isso, a StoneX, por exemplo, já reduziu em 0,8% sua estimativa para a produção nacional, para 153,8 milhões - volume que, ainda assim, é 20,9% maior do que o do ciclo passado. A Safras & Mercado também já fez seu primeiro ajuste desta temporada, e agora prevê 153,4 milhões de toneladas. Em novembro, a empresa estimava 154,5 milhões de toneladas.
Foi o clima adverso que impediu a finalização do plantio de soja no Rio Grande do Sul, como é normal nesta época do ano. Até quinta-feira, segundo a Emater-RS, as atividades terminaram em 96% da área prevista no Estado - de 6,6 milhões de hectares, segundo a Conab. A Emater estadual até agora mantém sua previsão para a colheita no Estado em 20,5 milhões de toneladas, 124,5% a mais do que na combalida safra 2021/22.
“As chuvas deverão continuar irregulares e ainda vão ocorrer de forma isolada, principalmente no sul e no oeste do Estado, onde os volumes serão insuficientes para cessar a estiagem. Ainda assim, a pouca umidade deverá trazer um alívio para algumas lavouras e vai ajudar na finalização do plantio da soja”, diz Nadiara Pereira, meteorologista da Climatempo. Segundo ela, só na última semana do mês haverá chuvas mais abrangentes nas regiões produtoras. No resto do Brasil, as chuvas deverão continuar frequentes e elevadas até o fim de janeiro. No Sudeste e no Centro-Oeste, essas precipitações poderão inclusive ter reflexos negativos sobre o início da colheita.