Valor Econômico, v. 23. n. 5667, 12/01/2023, Empresas, B4
Investimento para pesquisa em energia cresce em 2023
Gabriela Ruddy
Os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) no setor de energia vão crescer no Brasil em 2023. De acordo com a legislação atual, empresas que operam campos de petróleo e gás natural de grande volume de produção precisam investir 1% da receita bruta dessas áreas em PD&I. Os recursos são definidos pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), com base em um preço de referência do petróleo que considera as cotações internacionais. Com a alta do preço do barril de petróleo em 2022, reflexo da guerra na Ucrânia, os investimentos previstos pela lei terão um incremento a partir deste ano.
A maior disponibilidade de verbas permite acelerar os estudos em andamento, segundo a gerente-executiva do Cenpes, o centro de pesquisas da Petrobras, Maiza Goulart. “Quando queremos acelerar, podemos apostar em duas [linhas de pesquisa] aumentando nossas chances de sucesso. O melhor exemplo é a vacina da covid, quando se apostou ao mesmo tempo em várias empresas e várias linhas de pesquisa que poderiam chegar a uma solução”, diz.
Em 2022, a cláusula obrigatória de investimentos em PD&I contemplou 462 iniciativas, em um total de R$ 3,15 bilhões, segundo os dados públicos da ANP. Petrobras, Shell e Repsol Sinopec foram as empresas que mais aplicaram recursos, sendo que a maior parte do valor foi direcionado a projetos em parceria com a UFRJ, seguido pelo Senai da Bahia e pela PUC-Rio.
Em 2021, foram R$ 2,2 bilhões investidos em 805 projetos. As companhias têm cinco anos para realizar os aportes. Nos últimos anos, as regras foram atualizadas para que iniciativas na área de renováveis pudessem receber os recursos, além do setor de óleo e gás.
Goulart diz que a Petrobras não limita os investimentos ao mínimo exigido pela agência. Lembra que o aumento dos recursos, com a alta do barril, não afeta decisões sobre as linhas de pesquisa, tomadas com base no longo prazo. A fase final de desenvolvimento de tecnologias assim como parcerias com empresas estrangeiras não entram na conta da cláusula obrigatória. “O estímulo à inovação tem que ser a geração de valor para as companhias, principalmente num cenário de tantos desafios”, afirma, em referência à transição energética.
O Cenpes tem cooperação tecnológica com 89 empresas e 40 institutos de pesquisa e universidades de 19 países. Para além do Cenpes, a Petrobras tem parcerias para pesquisa com mais de 120 universidades no Brasil, numa rede de inovação que reúne 10 mil parceiros para desenvolvimento tecnológico. Para Goulart, esse relacionamento entra em uma nova fase, depois de 25 anos de vigência da obrigação da cláusula da ANP.
Nos anos iniciais foi necessário usar os recursos para ampliar a infraestrutura das universidades parceiras. Depois, houve avanço da competência técnica. Agora, a expectativa é de maior retorno dos projetos. “Torcemos para que seja uma fase mais conectada ao empreendedorismo. Em muitas universidades, estão saindo startups. Podemos ter agora uma fase de maior organização do sistema de inovação”, diz.