O Globo, n 32.364, 17/03/2022. Economia, p. 11
CONTRA INFLAÇÃO ALTA
Gabriel Shinohara e Letycia Cardoso
Copom sobe a Selic a 11,75% ao ano. BC dos EUA eleva juros pela 1ª vez desde 2018
Com a piora do cenário em razão da guerra na Ucrânia, o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou ontem a taxa básica de juros de 10,75% para 11,75% ao ano. Trata-se do nono aumento seguido da Selic ao longo de um ano. Ontem, a taxa chegou ao maior percentual em quase cinco anos. Embora o Banco Central (BC) tenha reduzido o ritmo de alta — de 1,5 ponto para 1 ponto percentual, conforme a expectativa do mercado — deixou claro que a trajetória de alta dos juros deve continuar na próxima reunião em razão da inflação alta e do impacto da invasão da Ucrânia pela Rússia sobre os preços.
O aumento de juros este ano se tornou movimento global para conter os preços. Ontem, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) elevou os juros pela primeira vez desde 2018. A taxa passou de um intervalo de 0% a 0,25% ao ano para 0,25% a 0,5% ao ano. É o primeiro do que se espera que seja um ciclo de aumentos da taxa, que buscam corrigir os desequilíbrios de uma economia que reagiu rapidamente ao arrefecimento da pandemia, mas que esbarra nas incertezas do conflito entre Kiev e Moscou.
“A inflação permanece elevada, refletindo desequilíbrios de oferta e demanda relacionados à pandemia, preços mais altos de energia e pressões mais amplas sobre os preços”, destacou o Fed, em comunicado. A inflação ao consumidor nos EUA atingiu 7,9% em fevereiro, no acumulado em 12 meses, o maior patamar em 40 anos, impulsionada pelo aumento no preço da gasolina, alimentos e aluguéis. O Fed acrescentou que a guerra na Ucrânia traz implicações “altamente incertas” para a economia americana e que os efeitos provavelmente “criarão uma pressão ascendente adicional sobre a inflação e pesarão sobre a atividade econômica”.
CHOQUE DE OFERTA
A preocupação com os efeitos da guerra também é destaque no comunicado do Banco Central brasileiro. Segundo o BC, o conflito levou a um cenário “substancialmente” deteriorado, a um aperto nas condições financeiras e ao aumento da incerteza no cenário econômico mundial. “Em particular, o choque de oferta decorrente do conflito tem o potencial de exacerbar as pressões inflacionárias que já vinham se acumulando tanto em economias emergentes quanto avançadas”, apontou.
Em fevereiro, a inflação acumulada em 12 meses no país chegou a 10,54%, consolidando um semestre seguido de taxas de dois dígitos. E os índices ainda não captaram os aumentos de preços de gasolina e diesel, anunciados pela Petrobras. No caso do diesel, o efeito se multiplica pelo impacto no transporte público, de cargas e no frete.
Para Júlio César Barros, economista do Daycoval Asset, a maior novidade do comunicado foi a avaliação do cenário externo deteriorado.
— Em função evidente do conflito e do ambiente externo mais deteriorado, com mais certeza, optaram por manter a alta em 1 ponto percentual para março, já contratam 1 ponto percentual para a próxima reunião. Devem caminhar para um patamar de juros ainda mais alto do que se esperava anteriormente —ressaltou.
Com isso, o BC ganha tempo para acompanhar os impactos da guerra na inflação e na atividade econômica brasileira. No comunicado, o Copom ressaltou que a alta dos juros visa a combater o choque de oferta de muitas commodities, que tem efeito defasado na inflação e ressalta que o momento é de muita incerteza e cuidado.
PETRÓLEO A US$ 100
“O Copom avalia que o momento exige serenidade para avaliação da extensão e duração dos atuais choques. Caso esses se provem mais persistentes ou maiores que o antecipado, o Comitê estará pronto para ajustar o tamanho do ciclo de aperto monetário. O Comitê enfatiza que irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”, ressaltou.
Nas últimas semanas, o conflito levou a um aumento do preço do petróleo, que chegou a ultrapassar os US$ 130. Ontem, o Brent voltou a fechar abaixo de US$ 100. No comunicado, o Copom considera que o barril deve terminar em ano em US$ 100, pressionando o preço dos combustíveis.
Outra incerteza no radar é o impacto da restrição de acesso a fertilizantes para a próximas afra. A escassez do produto tem potencial para pressionar os preços dos alimentos.
—O comunicado foi bastante duro, com a cautela de não desancorar as expectativas anteriores, que continuam para uma convergência para a meta em 2023 — afirmou João Beck, economista e sócio da BRA.
A meta de inflação deste ano é de 3,5%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, assim como no ano passado, a meta não será cumprida. As projeções do Copom indicam inflação de 7,1% este ano é de 3,4% em 2023, considerando que a Selic avance para 12,75% ao ano este ano e caia a 8,75% no próximo. Se esse cenário se confirmar, o ciclo de aumento de juros poderia terminar na próxima reunião, em maio.
RISCO FISCAL NO RADAR
Um dos fatores que devem pesar na próxima reunião é o comportamento do Fed. Além de tudo isso, o Copom continuou ressaltando o risco fiscal. Assim como na reunião anterior, a avaliação é que a incerteza em relação ao arcabouço fiscal acaba elevando a expectativa de preços. Nas últimas semanas, o governo discutiu criar um subsídio para reduzir o preço dos combustíveis e aceitou zerar impostos federais sobre o diesel.
“Apesar do desempenho mais positivo das contas públicas, o Comitê avalia que a incerteza em relação ao arcabouço fiscal mantém elevado o risco de desancoragem das expectativas de inflação, mas considera que esse risco está sendo parcialmente incorporado nas expectativas de inflação e preços de ativos utilizados em seus modelos", apontou.