Guerra na Ucrânia

[00:00] Floriano Filho: Olá, eu sou Floriano Filho e começa aqui o Ordem Global. Nos próximos minutos vamos apresentar notícias e debater questões estratégicas e contemporâneas sobre a geopolítica e a economia política internacional.

(Música de introdução)

[00:25] Floriano Filho: Em junho, o diplomata Ricardo Guerra de Araújo foi confirmado pelo Senado como novo embaixador brasileiro na Romênia. Durante a sabatina na Comissão de Relações Exteriores, ele explicou que os romenos são parte da OTAN desde 2004 e da União Europeia desde 2007, e que a chamada Aliança Euro-atlântica ficou ainda mais forte após o conflito na Ucrânia, que tem 650 km de fronteira com a Romênia. É o país da União Europeia com a maior fronteira com os ucranianos. Por conta disso, a Romênia apoia a Ucrânia em diferentes áreas. É o caso do acolhimento de refugiados: mais de 4 milhões de ucranianos já entraram no território romeno e cerca de 100 mil decidiram permanecer. Os romenos também têm prestado ajuda humanitária e energética e facilitaram o transporte de mais de 13 milhões de toneladas de grãos da Ucrânia para o resto do mundo. A Romênia defende, eu diria quase de unhas e dentes, a independência soberana e a integridade territorial da Ucrânia dentro das fronteiras internacionalmente reconhecidas. É um dos mais vocais críticos da Rússia dentro das Nações Unidas, no âmbito do Tribunal Penal Internacional, e vem apoiando as sanções econômicas para isolar Moscou no cenário internacional praticamente desde o início do conflito em 2022. Ricardo Guerra de Araújo também falou sobre a posição que o Brasil vem adotando a respeito do conflito em organismos internacionais. A atenção brasileira, pelo menos no que se refere a esse conflito naquele país, tem se concentrado muito nas nossas declarações nas Nações Unidas, tanto na Assembleia Geral quanto no Conselho de Segurança, onde o Brasil tem um assento não permanente. E o Brasil tem indicado muito claramente a nossa posição em relação a esse conflito naquela região da Europa.

(Música de transição)

[02:33] Floriano Filho: O Ordem Global conversou com Valdir da Silva Bezerra. Ele é mestre em relações internacionais pela Universidade Estadual de São Petersburgo, na Rússia, integrante do núcleo de pesquisas em relações internacionais sobre Ásia da Universidade de São Paulo, onde também pesquisa o BRICS, e colaborador do grupo de estudos sobre a Rússia da Universidade Federal de Santa Catarina. Recentemente, ele lançou o livro "Um Elo com o Passado: A Rússia de Putin e o Espaço Pós-Soviético", no qual ele trata de temas como a centralização do Estado na economia, o confronto com opositores políticos e a personalização do poder. Nós conversamos sobre as implicações e perspectivas da guerra na Ucrânia. Olá, Valdir. Bem-vindo ao nosso programa. O real motivo para a guerra na Ucrânia foi o avanço da OTAN?

[03:32] Valdir da Silva Bezerra: Se não exatamente o avanço da OTAN, pelo menos a percepção que a Rússia teve desse avanço para o Leste no contexto do pós-Guerra Fria. Até porque, num período recente, o Vladimir Putin mostrou a líderes africanos que vieram a São Petersburgo que existia um documento com as demandas que a Rússia fez à delegação ucraniana no começo do ano passado, já iniciada a guerra, na qual um dos principais pontos, se não o principal, era justamente a fixação de uma neutralidade da Ucrânia perante a OTAN. Esse tipo de demanda também foi feito pela Rússia em dezembro do ano passado e em outras ocasiões quando o líder russo Vladimir Putin tentou entrar em acordo com as lideranças ocidentais nesse sentido.

[04:14] Floriano Filho: As sanções contra a Rússia estão funcionando?

[04:19] Valdir da Silva Bezerra: As sanções que foram aplicadas à Rússia, na minha visão, tinham o intuito de provocar um cataclismo econômico no país, de modo que a população pudesse se sentir de tal modo afetada pelos problemas gerados por essas sanções que elas viessem às ruas para pedir uma mudança de governo na Rússia. Mas essas previsões negativas ou pessimistas que foram feitas a respeito da economia russa no ano passado não se realizaram. Então, nesse sentido, as sanções não funcionaram. Eu não digo que o país não tenha sofrido, sobretudo inicialmente, com a aplicação dessas medidas restritivas do Ocidente ao país, mas elas não cumpriram a sua função principal, que seria provocar um colapso econômico da Rússia. Nesse caso, elas não foram, de fato, até o momento pelo menos, tão efetivas como se esperava.

[05:07] Floriano Filho: O principal fator para a resistência ucraniana são as armas enviadas pelos Estados Unidos e aliados?

[05:14] Valdir da Silva Bezerra: Inicialmente, os ucranianos conseguiram debelar a investida russa em direção a Kiev, a sua capital. E naquele momento, essa resistência demonstrada pelos ucranianos foi muito importante. Mas num momento posterior, eu diria a partir de abril, maio, a ajuda ocidental à Ucrânia, ela foi sim fundamental para que o país pudesse resistir a essas investidas da Rússia no seu território. A gente tem que lembrar que, dos principais fornecedores de ajuda financeira e militar à Ucrânia, estão os Estados Unidos, que respondem por cerca de 70% dessa ajuda. E, certamente, que se não fosse esse auxílio da Europa e dos Estados Unidos à Ucrânia depois dos primeiros meses de iniciada a guerra, acredito que a resistência ucraniana se veria muito dificultada.

[06:05] Floriano Filho: Você considera que a China tenha se aliado à Rússia?

[06:09] Valdir da Silva Bezerra: A China, ela funciona como uma espécie de anteparo econômico para a Rússia, por conta do fato de que parte das commodities que a Rússia direcionava para a Europa, para o Ocidente, foram redirecionadas para os mercados asiáticos. Então a China e a Índia têm cumprido um papel muito importante nesse sentido. Mas a China, ela não tem participado diretamente da guerra no sentido de apoiar a Rússia militarmente. Entretanto, os dois países têm demonstrado uma aproximação política muito contundente nos últimos anos, uma aproximação política que se aprofundou bastante a partir dos anos 2000. E, nesse sentido, eu considero que, do ponto de vista geopolítico, a China é sim uma aliada da Rússia na Eurásia, até porque eles são os dois principais países cercados militarmente pelas bases americanas que contornam todo o continente eurasiano.

[07:01] Floriano Filho: É possível que a guerra se alastre para outros países?

[07:05] Valdir da Silva Bezerra: Eu não vejo essa possibilidade da guerra se alastrar para outros países. Eu acredito que ela fique concentrada realmente ali no leste ucraniano, na região sul de Zaporozhye e também de Kherson, podendo talvez avançar um pouco ali na direção de Odessa, Kharkov, na região nordeste da Ucrânia, mas não afetando outros países necessariamente. Por mais que no ano passado tenham ocorrido alguns incidentes na fronteira entre a Ucrânia e a Polônia, eu acho que esses incidentes eles foram bastante locais, foram episódicos. Na minha visão, o conflito vai ficar concentrado na Ucrânia, pelo menos de uma perspectiva futura dos embates entre a Rússia e as forças ucranianas ali na região do Donbas.

[07:50] Floriano Filho: Você teme uma progressão para um conflito nuclear?

[07:53] Valdir da Silva Bezerra: É, a questão que a gente discute muito nas relações internacionais é que um conflito nuclear não tem vencedor, só tem perdedores. E pelo menos do ponto de vista da Rússia, a doutrina militar do país não prevê um ataque preventivo da Rússia nuclear. A Rússia só poderia utilizar armas nucleares em duas ocasiões bastante distintas: uma se ela for atacada primeiro por uma arma nuclear e, segundo, se a existência do Estado ou se a existência da Federação da Rússia enquanto tal estiver sob ameaça. E nenhum dos casos me parece plausível nesse momento. Não me parece que alguém vá atacar a Rússia militarmente por meio de armas nucleares e também não me parece que a existência da Rússia como Estado esteja sob ameaça em nenhuma circunstância pelo que vem ocorrendo na Ucrânia. Então, nesse sentido, eu não enxergo uma progressão para um conflito nuclear nem agora, nem no futuro próximo.

[08:42] Floriano Filho: É possível determinar quem está ganhando ou quem irá vencer esta guerra?

[08:47] Valdir da Silva Bezerra: Ainda não é possível determinar quem irá vencer essa guerra. Eu acho que qualquer tipo de prognóstico é muito difícil nesse momento. Me parece que a guerra, ela adquiriu contornos de um conflito de esgotamento. Ambos os lados têm feito uma espécie de jogo de paciência, sobretudo os russos, que esperam que, em caso de um insucesso dessa contraofensiva ucraniana, a ajuda ocidental, tanto financeira quanto militar, comece a minar. Então essa tem sido a principal esperança de Moscou. Do lado ucraniano, a gente tem percebido que o principal objetivo é realmente reconquistar os territórios que foram anexados pela Rússia no passado, mas essa tarefa tem se mostrado muito difícil. Na minha visão, é um conflito que se equilibrou justamente pelo auxílio ocidental que foi fornecido à Ucrânia, como eu mencionei no começo, a partir de abril e que foi aumentando ao longo do tempo. Os dois lados não têm avançado em termos de vista territorial já há bastante tempo. Então, na minha visão, ainda não é possível dizer quem está vencendo ou quem irá vencer essa guerra nesses próximos momentos.

[09:51] Floriano Filho: Para além de Rússia e Ucrânia, no médio e longo prazos, quem serão os grandes vencedores e como o conflito mudará o futuro cenário global?

[09:59] Valdir da Silva Bezerra: No médio e longo prazo, eu vejo dois Estados que vão sair, entre aspas, com vantagens do resultado desse conflito. O primeiro deles é os Estados Unidos, até porque recentemente ocorreu a explosão do gasoduto do Norte que conectava a Rússia com a Europa através da Alemanha. Então, nesse caso, a Europa vai acabar se tornando mais dependente da energia exportada pelos Estados Unidos. E também de um ponto de vista de segurança, porque a OTAN acabou implementando uma sexta onda de expansão no continente, absorvendo, por exemplo, a Finlândia. E os estrategistas americanos sempre diziam que a OTAN é uma cabeça de ponte dos Estados Unidos na Europa, então eu vejo a América fortalecida. E a China, que não está participando diretamente dessa guerra, pelo menos também não tem ajudado a Rússia militarmente e que passou a comprar energia da Rússia mais barata e tem se posicionado como um grande jogador global em meio a todo esse caos acontecendo no Leste Europeu, como por exemplo foi demonstrado quando a China atuou como um intermediário para a retomada de relações diplomáticas entre a Arábia Saudita e o Irã, por exemplo. Então eu vejo esses dois países saindo mais fortes: os Estados Unidos e a China.

[11:09] Floriano Filho: Qual deveria ser o comportamento mais adequado do Brasil em relação a esse conflito?

[11:15] Valdir da Silva Bezerra: O Brasil, ele vem tentando exercer um papel de possível mediador desse conflito, de negociações de paz, muito embora o país tenha tomado dois caminhos relativamente distintos. O primeiro é a diplomacia institucional do Brasil na ONU, no qual o país tem votado junto com o Ocidente nas moções condenatórias às ações da Rússia na Ucrânia. E o segundo é a diplomacia presidencial, que tem se mostrado mais neutra, que tem se mostrado desejosa de servir como uma ponte entre russos e ucranianos, por mais que essa situação tenha ficado cada vez mais difícil nos últimos tempos. Mas, a meu ver, o Brasil tem feito o que pode para tentar ajudar num processo de estabelecimento de negociações de paz. Existem limites para isso, porque no final das contas essa negociação vai precisar envolver as demandas da Rússia e da Ucrânia, o que é que eles imaginam ser condizentes com um cenário de cessar-fogo. Fora essas questões que eu mencionei, não há muito mais do que o Brasil possa fazer para poder acelerar esse processo.

[12:17] Floriano Filho: O fato do Brasil ser um dos BRICS faz diferença nesse aspecto?

[12:21] Valdir da Silva Bezerra: O Brasil fazer parte dos BRICS faz sim alguma diferença. Os BRICS no geral — China, Índia, África do Sul — têm se mostrado mais neutros em relação à Rússia, procuraram mostrar que a Rússia não estava exatamente isolada internacionalmente como se quer fazer pensar no Ocidente. Mas ao mesmo tempo, mesmo dentro dos BRICS, o Brasil no caso tem se mostrado um tanto mais independente por conta das votações na Assembleia Geral da ONU, na qual o Brasil condenou as ações da Rússia na Ucrânia, tendo em vista o respeito à integridade territorial dos Estados, que é um dos princípios da nossa Constituição. A presença do Brasil nos BRICS pode ter influenciado em certa medida a diplomacia presidencial brasileira, que começou a partir do final da administração anterior de Bolsonaro e que seguiu com a administração atual de Lula, no sentido de não antagonizar a Rússia. Até porque a Rússia é um parceiro comercial importante para o Brasil no segmento de fertilizantes e também, claro, pelo fato de que eles são parceiros dentro do âmbito dos BRICS.

[13:25] Floriano Filho: Obrigado, Valdir. Por hoje o nosso podcast Ordem Global fica por aqui. A você que nos ouve, muito obrigado pela audiência e até o nosso próximo programa.