Senado instala grupo parlamentar de relacionamento com os BRICS
00:00 - Floriano Filho (Apresentador): Olá, eu sou Floriano Filho e começa aqui o Ordem Global. Nos próximos minutos, vamos apresentar notícias e debater questões estratégicas e contemporâneas sobre geopolítica e economia política internacional.
00:17 - Vinheta: Ordem Global: fatos e análises da economia política e geopolítica internacional.
00:25 - Floriano Filho: O Senado instalou em maio o grupo parlamentar de relacionamento com os BRICS. A soma das economias do bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul já ultrapassou as do G7, o grupo de sete países que representam a ordem mundial tradicional. Os BRICS começaram como mera categoria de investimentos, depois evoluíram para uma plataforma política até alcançar a fase de institucionalização com o lançamento do Novo Banco de Desenvolvimento, o NDB, que representa um acréscimo a instituições tradicionais como o Banco Mundial e o FMI. Atualmente, os BRICS correspondem a cerca de 23% do PIB global. O novo grupo vai promover o intercâmbio com parlamentos dos demais países do bloco e acompanhar o andamento de questões comuns dos BRICS. O autor da proposta, senador Irajá, do PSD do Tocantins, que vai presidir a frente, argumentou que ela é extremamente estratégica para a economia do país, que hoje já tem na China o principal parceiro comercial. Segundo ele, intensificar a relação com as outras nações emergentes trará enormes benefícios ao Brasil.
01:53 - Senador Irajá: Nós precisamos estabelecer uma relação saudável e que cada vez possa ser estimulada a se ampliar essa relação com essas cinco nações emergentes e estratégicas na economia do planeta Terra.
02:05 - Floriano Filho: O grupo parlamentar será de livre adesão. O senador Hamilton Mourão, do Republicanos do Rio Grande do Sul, também destacou o potencial dos BRICS.
02:16 - Senador Hamilton Mourão: Esses cinco países emergentes que compõem o bloco respondem por mais de 40% da população e quase 20% do comércio mundiais. Apesar de não contarem com documento constitutivo e se agregarem por vontade política dada suas características em comum, os BRICS, ao longo dos anos, permitiu a cooperação nos mais diversos setores entre seus participantes.
02:37 - Floriano Filho: A senadora Leila Barros, do PDT do Distrito Federal, relatou a proposta do grupo parlamentar no plenário do Senado e destacou o potencial do fortalecimento da relação entre esses países.
02:51 - Senadora Leila Barros: O impulso que ora se pretende dar ao BRICS é parcela muito relevante do que se pode vir a ser um novo capítulo de nossa política externa, de modo que é extremamente oportuno que o Parlamento brasileiro acompanhe de maneira mais ativa esses movimentos.
03:10 - Floriano Filho: O Ordem Global conversou com Aurobindo Xavier. Formado em geociências e com doutorado na Alemanha, foi professor em Munique, no Rio de Janeiro e em Lisboa. Nascido em Goa, quando ainda era parte da Índia Portuguesa, ele se dedica ao estudo da geopolítica global, da lusofonia e das relações da Índia e de Goa com o espaço lusófono. Olá, Aurobindo, bem-vindo ao nosso programa. O PIB dos BRICS e sua contribuição para o crescimento global já superam o do G7. O mundo está caminhando para uma nova ordem e correlação de forças?
04:02 - Aurobindo Xavier: Não é porque o BRICS estar a crescer em termos econômicos que está a surgir a ideia de uma nova ordem mundial. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, juntamente com seus aliados ocidentais e mais a Rússia, criaram uma ordem onde dividiram o mundo entre União Soviética e o bloco ocidental. Essa divisão foi depois alterada com a queda da União Soviética, ficando os Estados Unidos com a hegemonia econômica, militar e social no mundo globalizado. Devido ao declínio econômico dos Estados Unidos, que foi paralelo ao crescimento da China e da Índia, essa hegemonia americana criou espaço para o fortalecimento dos BRICS, com o que os BRICS e o mundo em geral estão a pensar agora numa estruturação para uma nova ordem mundial.
04:45 - Floriano Filho: O que essa transformação significa para as tradicionais instituições multilaterais como o Banco Mundial e o FMI?
04:53 - Aurobindo Xavier: As instituições multilaterais como o FMI e o Banco Mundial são estruturas que foram criadas depois do fim da Segunda Guerra Mundial e onde ainda predomina uma hegemonia do bloco ocidental liderado pelos Estados Unidos e, portanto, não corresponde necessariamente à distribuição da força econômica do atual mundo. Tanto a China como a Índia e o Brasil têm que ser parceiros respeitáveis, acho eu, nas instituições multilaterais. Veja, por exemplo, a composição da mais importante instituição multilateral tradicional que tem que zelar pela manutenção da paz e da segurança internacional, como é o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por que que a Índia e o Brasil não estão ali representados? E que força representa a França para estar ali presente como membro permanente?
05:49 - Floriano Filho: O Banco dos BRICS, Novo Banco de Desenvolvimento, representa uma ameaça ou uma oportunidade de diversificação para o sistema internacional?
06:01 - Aurobindo Xavier: Se o novo Banco de Desenvolvimento agir convenientemente, como espero que o faça agora que tem Dilma Rousseff como presidente, acho que seria uma excelente oportunidade, principalmente para os países em vias de desenvolvimento, para terem uma alavanca para o crescimento deles. Agindo paralelamente a instituições como Banco Mundial e o FMI, o novo Banco diversificaria o sistema internacional. Bem espero eu que essa diversificação beneficie bastante as opções que os países lusófonos terão para promoverem o seu desenvolvimento. Essas opções podem contribuir, a meu ver, para que o Banco Mundial e o FMI exerçam uma menor pressão para transformações sociais que muitas vezes não são benéficas para esses países.
06:55 - Floriano Filho: A economia da China é muito maior do que a dos outros países do BRICS. Esse desequilíbrio é sustentável?
07:03 - Aurobindo Xavier: A economia da China é muito forte devido ao seu crescimento nos últimos anos na área da tecnologia e da tecnologia digital. Os outros países do BRICS e todos os outros restantes países do mundo beneficiaram, sem dúvida, com esse crescimento, porque a China tratou e trata todos os seus parceiros econômicos, sejam eles fortes ou fracos, com o máximo de respeito, não tentando explorar unilateralmente esses parceiros, nem impor o seu ponto de vista político ou social. Portanto, a China demonstrou no passado recente que não contribui para desequilibrar as suas relações, seja dentro de BRICS, seja fora dele. E isso é uma espécie de forte garantia de boa sustentabilidade no futuro da economia.
08:00 - Floriano Filho: Embora a Índia faça parte dos BRICS, também participa de alianças com os Estados Unidos e outros países que têm confrontado a China. Qual é a estratégia indiana?
08:12 - Aurobindo Xavier: A atual estratégia indiana, que remonta desde a criação de Índia como Estado independente em 1947, baseia-se na política de neutralidade e não de confronto desnecessário. Digo desnecessário porque o pomo de discórdia entre, principalmente, a Índia e o Paquistão tem a sua gênese na partilha provocativa do poder colonial da Inglaterra no subcontinente indiano. Até hoje, o bom código genético de neutralidade da Índia perdura, como vimos na neutralidade ativa da Índia em relação à guerra na Ucrânia e, assim, a aliança com os Estados Unidos faz parte dessa neutralidade e traz também vantagens econômicas e mesmo militares para a Índia sem prejudicar as boas relações com a China.
09:15 - Floriano Filho: Por que tantos países estão querendo fazer parte dos BRICS?
09:19 - Aurobindo Xavier: Nas relações internacionais não se pode nem se deve ignorar as forças emergentes. E, nesse sentido, o crescente poder econômico e político dos BRICS é uma forte atração para outros países, principalmente os emergentes. Esses países emergentes, como o Egito, o Irã ou a Argentina, querem ser respeitados a nível mundial porque acham que a hegemonia monopolista norte-americana é caracterizada por pouco respeito para com eles. Exatamente como fizeram durante séculos muitas das potências coloniais, os Estados Unidos, com as suas guerras provocatórias e muitas vezes até ilegais no Médio Oriente e no Norte da África, bem como com as sanções econômicas e financeiras sufocantes à Rússia, caracterizam-se por desrespeito a numerosos países.
10:24 - Floriano Filho: Caso os cinco atuais países aceitem a adesão de outros, o que o crescimento dos BRICS significará para as relações mundiais?
10:33 - Aurobindo Xavier: As relações mundiais, para serem equilibradas e estáveis, precisam sempre de alguns polos de poder. Se o BRICS se desenvolver como mais um polo de poder no atual espectro mundial, acho que seria muito bom para uma estabilização das relações internacionais. Não devemos, porém, esquecer que o surgimento de um novo polo de poder mundial significará quase automaticamente que a hegemonia norte-americana será quebrada. E caso o BRICS avance com a chamada "desdolarização" do dólar norte-americano no mercado internacional e com a criação de uma nova moeda, então o BRICS certamente teria uma força econômica extraordinária e a hegemonia norte-americana e o bloco ocidental sofreriam um forte revés econômico. Mas duvido que isso aconteça brevemente.
11:39 - Floriano Filho: Uma vez que a Rússia é integrante dos BRICS, como os outros países do grupo devem se posicionar em relação à guerra na Ucrânia?
11:47 - Aurobindo Xavier: Depois do desmembramento da União Soviética, o poder hegemônico dos Estados Unidos achou que seria conveniente avançar militarmente para mais perto da Rússia. Achou que essa meta seria fácil e utilizou para isso a Ucrânia, vizinha da Rússia. Nesse contexto, os países mais poderosos como a China e a Índia deveriam abster-se de se posicionar na guerra, como realmente fizeram. Não traz nenhuma vantagem à Índia posicionar-se contra a Rússia, seu aliado privilegiado desde a sua independência. Nem, por exemplo, os países africanos de expressão portuguesa, como Angola ou Moçambique, deveriam posicionar-se ostensivamente contra a Rússia porque foram sempre ajudados pela Rússia na sua luta pela independência nos anos 60 e 70 do século passado.
12:52 - Floriano Filho: Em meio à guerra comercial Estados Unidos-China, os BRICS podem servir como uma plataforma para continuar estimulando o comércio mundial?
13:02 - Aurobindo Xavier: Na fase econômica conturbada com a guerra na Ucrânia e depois do choque da pandemia, não é fácil para nenhum país orientar-se economicamente. Mas, mesmo necessitando de uma reavaliação, o BRICS tem uma estratégia — a chamada Parceria Econômica BRICS 2025 adotada em 2020. Nessa estratégia, os países do BRICS demonstram sua determinação em enfrentar conjuntamente os novos desafios globais, incluindo choques macroeconômicos e volatilidade financeira, e elaborar uma agenda econômica positiva, equilibrada e clara, inclusive para a cooperação intra-BRICS e apoiar o sistema multilateral de comércio baseado nas regras e princípios da Organização Mundial do Comércio e resistir à incerteza global emergente causada por uma série de fatores.
14:18 - Floriano Filho: Nesse sentido, como os BRICS poderiam fortalecer as cadeias globais de valor com maior agregação tecnológica?
14:26 - Aurobindo Xavier: Acho que as economias do BRICS, fora a da China, têm um menor valor agregado nas cadeias globais de valor. Sendo assim, a longo prazo, acho que o seu crescimento econômico poderá ser limitado pela capacidade tecnológica. A China se beneficia de insumos intermediários fornecidos por estrangeiros para fortalecer a sua capacidade de exportação. Mas parece que as exportações chinesas, por outro lado, enfrentam restrições em termos de demanda por produtos finais nos mercados externos. E parece-me também que, para os BRICS sustentarem-se no seu desenvolvimento a longo prazo, precisam de se concentrar em melhorar a sua capacidade tecnológica para subir nas cadeias de valor.
15:29 - Floriano Filho: Obrigado, professor Aurobindo Xavier. Por hoje, o nosso podcast Ordem Global fica por aqui. A você que nos ouve, muito obrigado pela audiência e até o nosso próximo programa.
15:41 - Vinheta final: Ordem Global: fatos e análises da economia política e geopolítica internacional.