Envelhecimento Populacional

00:00 - Floriano Filho: Olá, eu sou Floriano Filho e começa aqui o Ordem Global. Nos próximos minutos, vamos apresentar notícias e debater questões estratégicas e contemporâneas sobre geopolítica e economia política internacional.

00:18 - Vinheta: Ordem Global, fatos e análises da economia política e geopolítica internacional.

00:26 - Floriano Filho: O mundo está passando por uma transição demográfica graças, por um lado, a novos medicamentos, tratamentos e estilos de vida e, por outro, a taxas de fecundidade cada vez menores. No Brasil e em outros países, a população com idade acima de 60 anos está crescendo mais rapidamente do que os demais grupos etários. Historicamente, o número de crianças no mundo sempre foi superior ao número de idosos, porém, espera-se que em 2050 o percentual da população mundial acima de 60 anos ultrapasse o percentual de jovens de até 14 anos. No Brasil, essa transição deve ocorrer já em 2030, reduzindo a chamada janela demográfica ou bônus demográfico, ou seja, quando uma maioria da população mais jovem tem o potencial de alavancar o crescimento econômico de um país. Em junho, a Comissão de Direitos Humanos do Senado debateu a política nacional do idoso e os problemas sociais e econômicos que atingirão os idosos e o país como um todo. Na audiência pública da comissão, Alexandre da Silva, secretário nacional dos Direitos Humanos da pessoa idosa, lembrou que o Brasil já não é mais um país de jovens. Em 2020, pessoas acima dos 60 anos de idade já representavam mais de 14% da população. 70% deles viviam com renda mensal de até dois salários mínimos, agravando o problema da pobreza. Segundo o IBGE, até 2060, os idosos deverão chegar a cerca de 1/3 da população. Para garantir os direitos de uma sociedade que está envelhecendo, Alexandre da Silva mencionou vários programas que vêm sendo implantados ou reforçados na secretaria.

02:32 - Alexandre da Silva: Já estamos fazendo ampliação da nossa rede de enfrentamento à violência. Tivemos uma campanha agora em parceria com a UNESCO, um acordo de cooperação com instituições de ensino para que tenha maior capilaridade e formação desse agente em direitos humanos, o grupo de trabalho de violência patrimonial e financeira. Estamos lançando esta semana um guia de comunicação responsável sobre a pessoa idosa.

02:57 - Floriano Filho: O senador Paulo Paim, do PT do Rio Grande do Sul, que presidiu a sessão, mencionou o caso do extremo oriente como exemplo que todos nos Brasil poderiam seguir.

03:07 - Senador Paulo Paim: No Japão e na China a velhice é sinônimo de sabedoria e respeito.

03:13 - Floriano Filho: O Ordem Global conversou com Beatriz Kaoro Miakosh Lopes, pesquisadora que colabora com o Núcleo de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo. Ela terminou o mestrado na USP em 2020 com uma dissertação sobre os desafios do Japão como a primeira sociedade superenvelhecida, analisando o envelhecimento, declínio populacional e a condição das mulheres japonesas. Olá, Beatriz, bem-vinda ao programa Ordem Global. O envelhecimento populacional é um problema mundial ou está mais concentrado em alguns países?

03:52 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: Ambos. Ele é mundial e concentrado. O envelhecimento populacional é a maior tendência demográfica no mundo nos últimos séculos. Agora, um adendo: envelhecimento não é problema. Poder envelhecer é um luxo. Um país que conseguiu ter uma qualidade de vida e expectativa de vida alta, isso é sinal de sucesso. Envelhecer bem é o que todo mundo quer, não é mesmo? Então quando a gente fala que ele vira um problema? Ele vira um problema quando tem mais idosos do que jovens em um país. Aí que nós vemos na mídia, nos países comentando, governantes e tudo mais. E isso acontece juntamente com outro processo de transição demográfica que é o quê? Além das pessoas viverem mais, elas têm menos filhos à medida que as condições melhoram. Para ter uma quantidade similar de idosos e jovens num país, toda mulher deveria ter dois filhos. Só que dois terços da população mundial vivem em regiões em que a taxa de fecundidade é muito abaixo disso. E aí nós temos a questão de que faltam jovens, faltam crianças para contrapor a quantidade de idosos e pessoas que morrem. E, além disso, nós temos o efeito do declínio populacional. Então além de ter países que já não têm muitos jovens, têm muitos idosos, ele ainda tem uma população que a cada ano diminui cada vez mais. Esse é o caso do Japão. O Japão em 2022 perdeu 800 mil pessoas. Esse é o 14º ano em que a população diminuiu e no Japão isso é uma tendência que continua acontecendo e não há previsão de que esse ano isso vá mudar. O Japão é um grande objeto de estudos porque, justamente, ele tem a maior população idosa, chegando em 30% da população, tem um número de casamentos e filhos muito baixo e a população simplesmente diminui a cada ano. O que é interessante é: hoje nós pensamos muito "os países que passam pelo envelhecimento são os desenvolvidos". Sim, tem o Japão, tem países europeus, mesmo Estados Unidos, Canadá — só que Canadá não falamos tanto por quê? Porque a imigração ajuda muito a contrabalançar e ter bastante jovens. Agora, o que é muito interessante é o seguinte: os países que passarão pelas transformações mais rápidas e mais profundas são os países em desenvolvimento. Então o Brasil vai passar por um envelhecimento talvez até mais forte e intenso do que o Japão teve. E é um ritmo que está muito mais rápido hoje do que no passado. Antigamente demorava séculos para um país chegar a uma população idosa, hoje já não é mais assim. No mundo, em 2021, pegando relatório da ONU, havia 761 milhões de pessoas idosas. A tendência, a previsão, é que em 2050 haverá 1,6 bilhão de idosos. E o mais importante: 80% deles vão estar em países de baixa e média renda, como o Brasil. Por isso que é extremamente importante nós falarmos sobre o envelhecimento não só no contexto do mundo, mas no contexto realmente nacional, vendo o que o Brasil está fazendo hoje.

07:12 - Floriano Filho: Por que esse fenômeno é considerado um problema nacional e internacional?

07:24 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: Citando o David Sinclair aqui para essa resposta, basicamente, a população envelhecida ela vai causar repercussões no futuro mais do que qualquer outra transformação demográfica. Por quê? Vai mudar absolutamente tudo. Vai mudar a conjuntura populacional, como as cidades são, o transporte, o consumo, a economia e, sim, a relação entre outros países também. Então pode ser uma transformação para o bem, para os países que estão preparados e vão conseguir lidar com isso, e para o mal, para aqueles que não estão. Para poder entrar um pouquinho nessa questão de nacional e internacional, algo que era esperado no final do século passado era que viveríamos um "outono demográfico". Isso seria uma situação em que haveria a quantidade de jovens e idosos igual e eles iam evoluindo lentamente e de maneira constante. Então os governos teriam tempo para ver o que está acontecendo, quais são as mudanças, para ir acompanhar e poder criar políticas efetivas. O percentual máximo de idosos seria de 16% da população total. E um adendo aqui: 10% da população total já mostra que uma população é idosa. Agora o que aconteceu? Passou de um outono demográfico para o "inverno demográfico" e aí nós temos um processo de declínio populacional que é muito rápido e muito forte. E aí isso leva ao quê? A população ela diminui rapidamente, tem muitos idosos, poucos jovens, está acontecendo rapidamente e aí tem uma diminuição na produtividade e um aumento nos custos e aumento de tensão entre as gerações. Então, nacionalmente, o que é que acontece? Um país que ele perde a quantidade de mão de obra vai ter uma diminuição na produtividade dele e isso vai afetar o PIB também. Vamos pensar num país forte economicamente como China ou Estados Unidos. O que é produzido nesses países, os serviços que são feitos, os acordos econômicos, tudo vai afetar todos os países que fazem negócio com eles e, no caso aqui, eles têm um porte mundial. O que mais também pode ser um outro fator é a questão geopolítica. Uma população que tem poucos jovens, já sabemos então que é uma população que terá um exército menor caso venha ocorrer um conflito. Então o país que tem poucos jovens, ele fica mais vulnerável. E aí o que acontece? Os outros países, eles enxergam que há um país aqui que tem um exército menor, tem uma economia mais fraca e já é um efeito muito forte para o país. Por exemplo, uma mudança na geopolítica de uma única região pode sim afetar o mundo todo, como vemos com o conflito da Ucrânia e da Rússia. São dois países com envelhecimento populacional.

10:10 - Floriano Filho: A questão da previdência e do potencial crescimento econômico são as principais consequências desse problema?

10:19 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: Não. Pra citar o Kofi Annan em 98, olha só o que ele já tinha falado em 98: "Estamos em meio a uma revolução silenciosa, é uma revolução que se estende bem além da demografia, com amplas implicações econômicas, sociais e culturais". Então o que nós mais vemos geralmente nas notícias é sim a questão econômica, da previdência, mas o envelhecimento vai muito além disso. Por exemplo, o envelhecimento ele muda a composição do país. Então nós temos vários países que hoje eles são uma "Silver Democracy", ou uma democracia prateada. Isso quer dizer o quê? A população idosa basicamente controla a política. Eles estão em maior quantidade, vão geralmente votar mais nos países que o voto ele é uma escolha, e aí o controle das decisões no país é feito pela população idosa. Por exemplo, o Brexit, isso foi um exemplo disso. E temos também o Japão, em que a população idosa ela é contra o desarmamento do Japão, enquanto a população mais jovem é mais pacifista, e aí tem também uma grande tensão entre as gerações. Por exemplo, a população idosa ela tem uma preferência muito maior por leis e medidas que foquem na saúde, principalmente na saúde para doenças que afetam os idosos. E é muito comum, por exemplo, um menor investimento na área de crianças. No Japão, por exemplo, já tem uma grande falta de médicos que foquem em doenças e condições para crianças porque já não é mais o foco do investimento do país. Outra coisa também, por exemplo, leis e medidas que são muito focadas para a educação primária já não são populares nesse país, porque não é de interesse para a maior parte da população. Agora, mas a economia e a previdência sim, são super importantes e, no caso da previdência, muitos países como o Japão, por exemplo, já não conseguem mais garantir uma pensão necessária para os idosos que estão, então eles já não estão ganhando o que eles precisariam ganhar para sobreviver. Sério problema em que várias idosas roubam em lojas de conveniência para conseguir ficar na prisão e ter onde dormir. Outro ponto também, os jovens de hoje japoneses, eles já trabalham sem ter a expectativa de conseguir ter uma pensão quando eles se aposentarem. Então qual é a expectativa do futuro para esse jovem que ele nem tem a segurança de saber que ele vai poder se aposentar bem? Há vários jovens já que falam que o que eles esperam do futuro é que eles vão trabalhar até morrer. Então aí já tem um grande peso, a previdência ela é muito discutida e a parte econômica também é discutida, mas não podemos esquecer da questão sociocultural que o envelhecimento traz, que às vezes é um pouco mais escondido, digamos.

13:05 - Floriano Filho: O que isso representa para a competitividade internacional dos países?

13:10 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: O envelhecimento populacional é um dos maiores desafios para a economia do país. Então geralmente um país com uma grande população idosa, ele perde a sua competitividade tanto localmente quanto internacionalmente. Por quê? Porque ele produz menos e ele tem então um PIB menor. E esse é um dos maiores desafios que muitos países envelhecidos estão lidando: como continuar competitivos com menos trabalhadores? Algumas soluções para aqueles que conseguem pagar seria aumentar o maquinário, o uso de inteligência artificial, são maneiras que estão sendo encontradas pelo Japão, por exemplo, Coreia do Sul, Estados Unidos, mas eles ainda não substituem o quê? A mão de obra humana. Então ainda há um déficit muito grande, principalmente em mão de obra qualificada e mão de obra na área de saúde, focando muito em cuidadores, enfermeiros e tal. Outra coisa também que é colocado nessa parte seria o quê? A fuga de cérebros. Isso é um fenômeno super comum aqui no Brasil em que profissionais que nascem aqui, estudam, eles vão trabalhar em outros países que oferecem muito mais serviços, potencial de crescimento nas suas carreiras. E o que acontece então? O Brasil é um dos países que tem a maior evasão de profissionais qualificados que poderiam ficar aqui e melhorar a competitividade do país, tanto intelectual quanto econômica e comercial. E aí acaba acontecendo o quê? Os países desenvolvidos que estão com envelhecimento muito mais forte, eles conseguem ganhar essa mão de obra qualificada que vai até lá, e os países como o Brasil, que têm uma expectativa de envelhecimento séria, fortíssima, e que não têm essa infraestrutura, ainda por cima não vão ter a mão de obra qualificada que poderiam ter porque ela vai embora do país. Então isso deixa países em desenvolvimento com uma competitividade ainda menor, apesar de não terem ainda uma população tão envelhecida. Há vários ângulos para ver isso então: às vezes não é apenas a questão da produção visível, mas também é a produção da mão de obra.

15:16 - Floriano Filho: O que é janela demográfica?

15:19 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: Ah, interessante pergunta. Esse é um termo que a gente está vendo cada vez mais em voga, né? Então janela de oportunidade demográfica, que é o nome total, é basicamente o período em que você tem o número de pessoas com idade ativa, ou seja, 15 a 64 anos seria aqueles que podem trabalhar, e esse número de pessoas é maior do que o número de dependentes, que seriam crianças e idosos. Aí, de novo, todo tipo de métrica ele é muito genérico e eles lidam muito com suposições. Então eles estão assumindo, por exemplo, que todo jovem vai trabalhar e todas as pessoas de 64 anos para cima são aposentados. Não é bem assim, mas precisamos de métricas para a demografia para poder entender o que o país passa. Então essa janela demográfica, ela é a oportunidade para o país crescer, porque esse é o pico em que ele tem o maior número de mão de obra e aí ele vai conseguir ter uma economia muito mais forte, gerar mais PIB e crescer no mercado internacional. Então esse é o momento para crescer, porque depois a janela fecha e aí vai declinando. Geralmente depois que fecha e declina já começa o processo de envelhecimento. Elas normalmente elas duram umas três ou quatro décadas. O Brasil ainda está na sua janela, mas já dizem que não vai durar muito tempo. Então tem estimativas bem pessimistas de menos de uma década para duas. Mas estamos assim, tá acabando nossa janela. E, sendo esse o momento, é quando nós deveríamos investir muito em educação e saúde focada nos jovens, porque são esses os jovens que vão ser os trabalhadores especializados que vão fazer o país crescer e aí depois quando eles envelhecerem já terá uma estrutura social, educacional, econômica que vai propiciar para as próximas gerações, com menos pessoas, conseguirem continuar sim. A questão é: o Brasil não está fazendo isso, né? E agora uma outra coisa que vale lembrar: a gente tem a janela sim, mas fatores demográficos podem influenciar tudo. Por exemplo, começou uma guerra, a janela mudou. E há países, por exemplo como o Canadá, que ele é um país em envelhecimento, isso não é visto por quê? Porque como ele abre muito a imigração, a população canadense em geral ela é muito jovem e não parece que ele é um país em envelhecimento. Então é possível criar janelas de oportunidade também, só precisa ter um planejamento a longo prazo por parte do governo.

17:49 - Floriano Filho: Quais são os países com maiores e menores janelas?

17:52 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: Os países com as maiores janelas são aqueles que estão em desenvolvimento e têm um crescimento populacional gigantesco. Então a maior parte dos países africanos, eles ainda nem chegaram na janela porque a mortalidade infanto-juvenil é tão alta que eles não conseguem chegar ao ápice de jovens trabalhadores que eles conseguiriam ter. Então eles ainda, grande parte não chegou na janela em si. E, por exemplo, países da América Latina, a grande maioria está na janela ou já está acabando a janela. Então é um momento em que está sendo meio que perdido para alguns. E agora os países que têm as menores janelas seriam os países em desenvolvimento, mas que já estão com uma população que envelhece. Por exemplo a China: teoricamente, ela já acabou a janela dela em 2015 para alguns especialistas e a janela tinha começado nos anos 90. No caso, por exemplo da Europa, a janela foi da década de 50 até 2000 e Japão também a janela fechou há muito tempo.

18:49 - Floriano Filho: Em termos internacionais, qual é a situação brasileira quanto ao envelhecimento?

18:54 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: Ah, excelente pergunta. É curioso porque o Brasil se considera ainda um país de jovens, mas não é bem assim. A estatística já mostra que a situação é outra. Então, lembre-se: uma população ela é considerada como idosa quando 10% dela é composta por idosos. E 10% parece muito pouco, mas uma população grande como a nossa, por exemplo, do Japão, é muita gente. E o Brasil, em 2022, tinha a população com 65 anos ou mais representando 10,5% do total. Ou seja, tecnicamente nós somos sim uma população já idosa. E isso não é uma característica que é vista mesmo. Nós não nos consideramos um país envelhecido e isso é geral na mídia, na política, tudo mais. Então falta um pouco essa percepção ainda. Em questão internacional, por outro lado, o Brasil já é sim visto como um dos países mais preocupantes juntamente com Turquia e China. Por quê? Porque o nosso envelhecimento atual e a expectativa é extremamente rápido, muito mais rápido do que o Japão e do que os países europeus passaram. Então, levando isso em conta e o fato de que nós e esses países não temos as estruturas econômicas, físicas e sociais suficientes para lidar com uma população envelhecida, aí a preocupação. Então é bem interessante porque se você pega fontes nacionais, o envelhecimento ainda não tá muito em voga, não é um tema que a gente lida muito. E quando lida é aquele, né? "Ai, que chato", "ai, que problema", mas é pro futuro. Já publicações internacionais, relatórios, tudo eles direto falam: o Brasil tem que ficar de olho, porque o Brasil já está envelhecido e não está reconhecendo isso. Então é uma coisa bem interessante, a visão nacional que nós temos e a visão internacional. E nós temos que realmente acordar um pouco mais para a situação que temos hoje e pensar no curto prazo já em relação a envelhecimento e aos idosos.

20:56 - Floriano Filho: Como nos comparamos com outros países e continentes nesse aspecto?

21:03 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: Comparações são complicadas, porque elas devem ser feitas com parâmetros bem específicos e levando em conta países que têm características em comum. Se não, vira um exercício meio confuso e que não vai a lugar nenhum. Por exemplo, podemos comparar o Brasil com a Noruega? Não. São países com dimensões populacionais diferentes, históricas, sistemas políticos e de saúde diferentes, tamanho do país, geografia — não é um exercício muito interessante. O que podemos geralmente fazer, e é o que os relatórios internacionais fazem, é comparar o Brasil com outros países latino-americanos. Então, por exemplo, em relação à população idosa, a América Latina e Caribe no geral tem 9% do total são idosos. Brasil é 10,5%, Argentina é 12%, Colômbia 9%, Uruguai 16%. Ou seja, podemos ver que tem países que têm mais idosos e tem outros que têm menos. Mas quantidade de idoso não quer dizer nada. O que quer dizer, o que importa seria o quê? Qualidade de vida. Então, por exemplo, infraestrutura: nós estamos na posição 78, atrás de muitos países em desenvolvimento porque a nossa qualidade de infraestrutura e investimento está abaixo da média do que deveria ser. Ainda mais para um país com a nossa proporção e o nosso PIB. Então aí tem um ponto a melhorar. Tem um índice também que é sobre preparação do país em questão econômica, governança e social. O Brasil tá na posição 125 de 192. Comparando com outros países da América Latina, Argentina 108, Colômbia 111 e Uruguai 53. Primeiros lugares seriam Singapura seguido por países europeus. Então, novamente, vale a pena comparar o Brasil com Singapura? Não. Mas vale a pena comparar o Brasil com outros países latinos e ver o que está acontecendo para nós estarmos tão abaixo comparando, por exemplo, com o Uruguai. Então é um exercício um pouco difícil. Dando uma resposta mas não dando muito, poderíamos falar por vários pontos: demograficamente o Brasil está bem? Está, mas a situação não vai ser sempre assim. A quantidade de idosos vai aumentar e essa é a tendência. Em questão de direitos, discriminação ao idoso, acesso a serviços governamentais e de saúde e infraestrutura — não, o Brasil não está bem e poderia fazer mais. E é muito importante a gente focar na desigualdade, porque um dos fatores que o envelhecimento populacional mais afeta é a desigualdade. Então aquela pessoa que já não tinha acesso a serviços e tinha dificuldade, vai ter ainda mais quando ela envelhecer e depender de uma pensão. Então isso é uma coisa que deve ser muito pensada no Brasil em questão de política, e não é no longo prazo, é no curto prazo.

23:48 - Floriano Filho: Um envelhecimento com qualidade de vida pode ajudar na extensão da produtividade dos países?

23:55 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: Definitivamente. Mas deve ser uma qualidade de vida para todos os idosos, não apenas para aqueles que conseguem pagar. Não adianta nada ter uma minoria de 1%, 2% com o envelhecimento maravilhoso e o resto tendo um envelhecimento péssimo, não é mesmo? E vários países, eles enxergam que existe um caminho sim, até para melhorar a economia dele por meio da população idosa. Por exemplo, os idosos são um grupo muito importante de consumidores com poder de compra e isso é algo que muitas empresas ainda não perceberam, principalmente em países em desenvolvimento. Tem todo um grupo, uma audiência que não está sendo ainda focada. E é comum nós vermos cada vez mais quando idosos falam: "Mas por que não tem uma coisa assim adaptada para mim quando ela é legal?". Certo? Então aqui entra muito no ponto da discriminação etária — em inglês eles falam "ageism" — que é basicamente isso. O Brasil ainda tem bastante, tem que batalhar isso, que é a questão de: quando falamos de envelhecimento, geralmente ele é negativo. Se tem uma propaganda sobre isso é "Como não envelhecer mal", "como não ter rugas". A experiência do envelhecimento já é negativa. Então a partir daí você já tem um público que não vai se sentir interessado em comprar muitas coisas. Outro ponto: a mão de obra. Muitos idosos são obrigados a aposentar quando eles gostariam de continuar trabalhando e, na verdade, eles são obrigados a serem aposentados. Então tem aí uma grande perda de mão de obra de muita qualidade, muita experiência que poderia não só auxiliar economicamente no país como passar também bastante know-how para a próxima geração. E isso é uma visão que a sociedade e as empresas têm que perceber e se adaptar a isso. Então, por exemplo, políticas para conseguir manter esses trabalhadores e os atualizarem em habilidades que são mais difíceis para eles — por exemplo, tecnológicas — são super comuns nos Estados Unidos, em países europeus e ao mesmo tempo eles passam o know-how deles de experiência para os mais jovens. Então essa é uma questão muito forte: manter o idoso no trabalho porque grande parte quer ser mantida mas não consegue. E isso também vai combater a discriminação etária, aquela ideia ainda antiga que a gente tem de "Ah, não, aposentou a pessoa já não faz mais nada e fica em casa". Outra que eu também gosto de brincar: assim como a fuga de cérebros, tem a "fuga dos aposentados", que é o quê? As pessoas que elas agora têm um certo capital para gastar, em vez de ficar no Brasil, elas vão morar em um outro país, em um país com maior infraestrutura, maiores oportunidades para passar os seus anos de aposentado. E aí, novamente, o Brasil perde muita gente. Perde gente que poderia passar conhecimento, experiência, até mesmo fazer mais coisas aqui — nós estamos perdendo essa produtividade para até mesmo outros países. E mesmo idosos que querem continuar trabalhando não acham emprego no Brasil e vão trabalhar fora. Então nós temos uma grande fuga de jovens e de idosos.

26:56 - Floriano Filho: E como essa qualidade de vida na terceira idade alivia o peso no orçamento público dos países?

27:02 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: Voltando ao ponto de que vários idosos querem continuar trabalhando, o fato de aumentar a idade de aposentadoria, aumentar a participação e contratação — muito importante também ter a contratação no mercado de trabalho dos idosos — já tem aí um super alívio econômico porque nós temos uma mão de obra estável ou mesmo que aumenta tendo isso. Outra questão é a saúde. Claro que com uma saúde melhor, um envelhecimento de qualidade, haverá menos gastos na área de saúde. A família ainda é considerada como a principal ou, às vezes, a única cuidadora dos idosos em vários países, e principalmente aqui. Então falta um pouco essa visão de política a longo prazo para poder pensar na parte de cuidadores, não especificamente hospitais ou sistema de saúde. E aí o que acontece? Geralmente cabe para a mulher cuidar dos idosos da família, tem aí então uma pessoa que sai do mercado de trabalho para cuidar dos idosos, depois ela mesma envelhece e vai sair mais uma pessoa para cuidar dela. Enquanto isso poderia ser um trabalho pago que ajuda e gera economia. Uma boa estrutura de saúde voltada para o idoso pode sim ajudar aos jovens terem mais condições para poder trabalhar. Então isso é um ponto muito importante e é um ponto que o Brasil tem que avaliar e pensar bastante sobre. Outra coisa que eu achei bem interessante: a discriminação etária é um ponto que leva às mortes mais cedo do que deveriam. E isso é uma coisa que me surpreendeu bastante. Então, por exemplo, o fato da pessoa não se aceitar ser idosa, entrar em depressão, ansiedade por conta do envelhecimento, leva a uma morte mais cedo por em média sete anos e meio do que deveria ser. Por quê? Porque há problemas de saúde física, mental, problemas de alimentação, excesso de bebida, excesso de uso de drogas. E isso é muito por conta da discriminação etária que esses idosos sentem. Nos Estados Unidos saiu um dado de que um em cada sete dólares gastos no sistema de saúde era devido a problemas que vieram da discriminação etária. Essa foi a causa. Quanto é um em sete dólares para isso? São 63 bilhões de dólares. Então temos aí um grande desperdício de dinheiro com uma fonte que pode e deve ser resolvida e até, digamos, mais facilmente do que outras.

29:24 - Floriano Filho: O que pode ser feito no curto prazo?

29:27 - Beatriz Kaoro Miakosh Lopes: A curto prazo, investir em infraestrutura é um grande gasto? Sim, mas a longo prazo essa pode ser a diferença entre ter pessoas que dependem sempre de carros e transportes para se locomover — isso vai aumentar muito mais o congestionamento, que já é ruim, e vai ter uma frota de carros muito maior e muito mais poluição. Então a longo prazo ter uma infraestrutura ruim é muito pior do que investir bastante agora e no futuro ter uma população que consegue se transportar mais facilmente caminhando. Então essa questão do orçamento público é basicamente: muita coisa é, digamos, facilmente resolvida garantindo que as pessoas tenham uma qualidade de vida básica. Esse é o principal. E não é apenas pensando no idoso e de agora ou do futuro, isso é pensando em todas as pessoas mesmo. Tendo agora uma boa qualidade de vida jovens, isso vai se traduzir também para uma boa qualidade de vida ao envelhecer. E é aquela questão que eu volto do início: envelhecer não é problema. O envelhecimento populacional não é de forma alguma um problema. É um luxo poder envelhecer e, principalmente, bem. A questão é como conseguir lidar com envelhecimento populacional, o declínio, menos jovens e como os países estão lidando com isso. Então quando há uma falta de equilíbrio na balança demográfica, é aí que vira um problema. E o Brasil é um dos países que mais vai passar por isso, viu? Então é algo que nós temos que ficar muito de olho. O envelhecimento ele tem que ser muito mais discutido do que ele ainda é.

30:58 - Floriano Filho: Obrigado, Beatriz. Por hoje, o nosso podcast Ordem Global fica por aqui. A você que nos ouve, muito obrigado pela audiência e até o nosso próximo programa.

31:10 - Vinheta: Ordem Global, fatos e análises da economia política e geopolítica internacional.