Política Externa dos EUA
[00:00] Floriano Filho: Olá, eu sou Floriano Filho e começa aqui o Ordem Global. Nos próximos minutos, vamos apresentar notícias e debater questões estratégicas e contemporâneas sobre geopolítica e economia política internacional.
[00:16] [Vinheta Ordem Global]
[00:25] Floriano Filho: Em maio, o Senado aprovou o nome da atual embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Ela foi a primeira mulher indicada para um dos principais cargos da diplomacia brasileira. Natural de Belo Horizonte, Maria Luiza iniciou a carreira diplomática em 1976. Em Brasília, concluiu a graduação e o mestrado em economia e passou por diferentes cargos no Ministério das Relações Exteriores, entre eles nos departamentos de Direitos Humanos e de organismos internacionais. Anteriormente, foi embaixadora na Organização das Nações Unidas e na Alemanha. O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, também participou da sabatina da embaixadora na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado. Ele enfatizou a importância para o Brasil das relações com os Estados Unidos, onde existe uma rede de 11 consulados brasileiros.
[01:25] Mauro Vieira (Áudio de arquivo): As visitas do presidente Lula a Washington, ainda no primeiro mês de governo, e o encontro mantido com o presidente Biden sinalizaram o compromisso das duas maiores democracias do continente de voltarem a trabalhar conjuntamente em uma ampla gama de questões, como o combate ao extremismo antidemocrático e à violência política, o enfrentamento à mudança de clima, a luta contra a discriminação racial ou, ainda, a reforma da governança internacional.
[01:52] Floriano Filho: A senadora Mara Gabrilli, do PSD de São Paulo, foi a relatora na Comissão de Relações Exteriores da indicação para a embaixada nos Estados Unidos e enfatizou a importância da relação comercial com aquele país.
[02:05] Mara Gabrilli (Áudio de arquivo): No comércio, os Estados Unidos são o nosso segundo maior parceiro comercial e tradicional investidor na economia brasileira. Apesar do comércio bilateral ainda ser deficitário para nós, os Estados Unidos representam o principal destino de exportações brasileiras de produtos manufaturados. Além disso, em 2022, a corrente comercial atingiu a marca inédita de 88,76 bilhões de dólares.
[02:37] Floriano Filho: Maria Luiza Viotti concordou que as questões comerciais entre os dois países são de extrema importância e lembrou que a relação bilateral alcança vários outros setores.
[02:47] Maria Luiza Ribeiro Viotti (Áudio de arquivo): A agenda bilateral não se limita aos aspectos econômicos e comerciais e se estende por uma gama variada de temas, praticamente todos os temas que permeiam essas relações brasileiras nos planos político, ambiental, científico e tecnológico, educacional e cultural, as questões ligadas à saúde, a direitos humanos, defesa. E as relações entre as sociedades também são muito intensas e têm crescido de importância com o aumento do intercâmbio acadêmico, das atividades culturais e do turismo.
[03:22] Floriano Filho: Ela também destacou a importância da pauta energética e ambiental na relação entre os dois países.
[03:27] Maria Luiza Ribeiro Viotti (Áudio de arquivo): São prioridades que envolvem não apenas desmatamento, mas também investimento na bioeconomia, em tecnologias que possam promover o desenvolvimento sustentável. Enfim, aquilo que o ministro Mauro Vieira estava comentando, que é o esforço não é apenas o de conter o desmatamento, mas sim de promover uma economia que dê emprego e recursos para a população que vive na Amazônia e que possa fazer isso com sustentabilidade.
[03:58] [Música de transição]
[03:59] Floriano Filho: O Ordem Global conversou sobre os atuais desafios da política externa dos Estados Unidos com Paulo Kramer, professor aposentado da Universidade de Brasília. Em 1999, ele concluiu o doutorado em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Atuando por décadas na ciência política, ele se especializou em pensadores e escolas de pensamento político do Brasil e de outros países. Olá, Paulo. Bem-vindo ao programa Ordem Global. Como você definiria a política externa dos Estados Unidos atualmente?
[04:38] Paulo Kramer: A atual política externa dos Estados Unidos, da administração Biden, é uma política de recomposição das alianças globais dos Estados Unidos, já que a orientação anterior do seu antecessor Donald Trump era mais isolacionista, né, mais unilateral. E agora, diante do desafio da invasão russa à Ucrânia, os Estados Unidos estão precisando e até certo ponto estão conseguindo reconstruir isso aí, tendo essa bandeira de salvar a Ucrânia dessa invasão que sofreu e a reconstrução da Ucrânia depois da invasão.
[05:20] Floriano Filho: Você acredita que as atenções se voltaram totalmente para a Ucrânia? Porque anteriormente o foco parecia ser o Oriente Médio após os ataques de 11 de setembro.
[05:28] Paulo Kramer: Já na administração do Barack Obama, antecessor imediato do Trump, falava-se num pivô para a Ásia, um pivô da política externa americana para a Ásia, que é realmente onde estão acontecendo as coisas, quer dizer, o Pacífico é o oceano do século XXI, o século XXI é o século do Pacífico. E os Estados Unidos procuravam até, de uma certa maneira, eu não digo minimizar, mas estabilizar as suas alianças de maneira a possibilitar esse pivô em direção à Ásia. A guerra, de uma certa forma, ela veio, a guerra na Ucrânia, ela veio a retardar isso, mas por outro lado, também veio mostrar mais uma vez a importância desse continente, dessa região da Ásia do Pacífico, já que a invasão russa também provocou desconfiança nos taiwaneses, né, no pessoal de Taiwan, em relação às intenções anexionistas da China continental.
[06:25] Floriano Filho: Você diz que as preocupações já vinham desde a época do Barack Obama, porque já haviam percebido os riscos do crescimento vertiginoso da China?
[06:32] Paulo Kramer: Exatamente. E hoje fala-se numa nova guerra fria entre a China e os Estados Unidos, né, a mais antiga União Soviética e os Estados Unidos e a China e os Estados Unidos, com um, digamos assim, com um agravante: porque a economia da antiga União Soviética não era nem de longe tão integrada com a economia mundial como a economia chinesa. E, portanto, isso dificulta muito aí o desafio, né, para os Estados Unidos de manter sua hegemonia mundial e suas alianças, porque a China é um parceiro econômico muito importante, inclusive para os Estados Unidos, né.
[07:02] Floriano Filho: Pro mundo inteiro, né?
[07:03] Paulo Kramer: Pro mundo inteiro, pro mundo inteiro. E olha que eles agora estão experimentando mais recentemente, você sabe, uma queda daqueles patamares históricos de crescimento do PIB, porque é natural, uma economia que amadureceu. Houve também a vicissitude da Covid-19, que houve uma paradeira lá violenta, né, ordenada pelo Xi Jinping. E de qualquer maneira, mesmo crescendo menos, ainda a economia chinesa é muito importante para a economia mundial, e o desafio que o Xi Jinping enfrenta internamente de consolidar o seu poder — que ele já consolidou, porque agora já está indo para um terceiro e inédito terceiro mandato de 10 anos. Então, consolidar o seu poder, o poder do Partido Comunista, num momento em que a economia já não é mais tão exuberante como era antes da Covid-19 e como era na década passada.
[07:53] Floriano Filho: Como você compara os Estados Unidos de antes e depois dos atentados de 11 de setembro de 2001? O país mudou muito, não?
[08:02] Paulo Kramer: Não tem dúvidas. Quer dizer, veja, o ex-presidente George W. Bush, ele começou o seu primeiro mandato, ele substituiu o Bill Clinton, né, e então no começo de 2001, o primeiro ano do primeiro mandato dele, ele buscava uma política externa mais contida, mais modesta, mais relembrando a circunspecção da política econômica republicana e menos, digamos assim, doutrinária, evangelizadora, como costumam ser as políticas externas dos democratas. Aí houve o ataque de 11 de setembro, então tudo decorreu daí, né, porque a intervenção militar dos Estados Unidos e dos seus aliados no Iraque, no Afeganistão... Afeganistão, que foi a mais longa guerra da história dos Estados Unidos.
[08:44] Floriano Filho: Mais do que o Vietnã.
[08:45] Paulo Kramer: Mais do que o Vietnã, mais do que o Vietnã. E com consequências que vieram ao próprio início do governo Biden, porque foi aquela retirada meio que atabalhoada de Cabul, lá do Afeganistão, com a volta do Talibã ao poder, meio que as coisas voltando quase como eram antes, né, só que o Bin Laden está morto agora. De qualquer maneira, foi realmente um acontecimento marcante, tudo que aconteceu depois, inclusive a Primavera Árabe, tem a ver com esse 11 de setembro e como os Estados Unidos e o mundo reagiram aos ataques terroristas.
[09:16] Floriano Filho: E olha que você nem mencionou aí a guerra na Síria e a criação do Estado Islâmico.
[09:22] Paulo Kramer: Isso, exatamente. Que foram... O caso da Síria foi uma decorrência da Primavera Árabe, mas ali o regime do Bashar al-Assad, que cultiva uma variante especial do islamismo, que é a variante alauíta, que tem familiaridade, proximidade com o xiismo, né, os xiitas do Irã. Então é... o regime do Bashar al-Assad é bancado pelo Irã, cometeu uma série de violações de direitos humanos, né, contra populações ali que não concordavam com a ditadura dele, e os Estados Unidos também estenderam o seu combate ao terrorismo, o combate ao Estado Islâmico, também intervindo militarmente na Síria, sendo que do outro lado estava a Rússia, que é outro sustentáculo importante do regime do Bashar al-Assad. Quer dizer, o que nós temos hoje é um eixo antiamericano, antiocidente, formado pela China, que é o principal dos países, a Rússia, seu parceiro, hoje um parceiro menor, e o Irã, e ditaduras periféricas auxiliares, como é o caso do Maduro na Venezuela e do Ortega na Nicarágua.
[10:23] Floriano Filho: Você acredita que esse eixo faz frente à hegemonia dos Estados Unidos?
[10:28] Paulo Kramer: Eu acredito que sim. Veja, o país líder desse eixo, que hoje é a China, ela procura reescrever as regras do jogo internacional que foram estabelecidas ao final da Segunda Guerra Mundial, com regras liberais de comércio, finanças, direitos humanos. E a China agora, ela quer fazer uma ordem sinocêntrica. Ela diz que é contra a hegemonia dos Estados Unidos, mas na verdade quer substituir por uma hegemonia chinesa, reescrever as regras do jogo internacional espelhando os interesses da China. E aí esses outros sócios menores — Rússia, Irã — acompanham também.
[11:02] Floriano Filho: Os Estados Unidos também têm culpa pela situação atual por terem investido maciçamente e transferido tecnologia para a China?
[11:11] Paulo Kramer: E hoje os Estados Unidos estão enfrentando o desafio, né, o chinês também enfrentando o desafio, da realocação de várias daquelas indústrias. Já houve um abalo nas cadeias de suprimento com a Covid-19, com a pandemia mundial. E agora, por uma questão de agravamento das relações entre a China e os Estados Unidos, os Estados Unidos estão buscando realocar ou estimulando suas indústrias a realocar suas linhas de montagem, antes na China, para outros lugares: para o México, para países do Sudeste Asiático, para o próprio antigo inimigo Vietnã, para a Índia também... E então essa é uma arquitetura global ainda muito assim em formação, é um momento aí de transição muito interessante. Os Estados Unidos, como potência, como primeira potência mundial, eles são, eu diria, para bem ou para mal, gostemos ou não, o país indispensável. Porque veja: os Estados Unidos, eles são criticados quando intervêm, mas também são criticados quando deixam de intervir. E isso é próprio do tamanho desproporcional que eles ocupam no sistema mundial.
[12:09] Floriano Filho: E o Brasil não poderia ter um papel de maior destaque nessa cadeia global de valor?
[12:14] Paulo Kramer: Poderia, mas infelizmente a política econômica do atual governo é uma política que eu digo que é uma política econômica viúva de Geisel. Por que viúva de Geisel? Porque acredita naqueles mesmos pressupostos de autarquia, de mercantilismo, de protecionismo, que nós achávamos que já haviam sido sepultados com o fracasso não apenas fiscal, mas também moral dos governos lulopetistas, culminando com o impeachment da presidente Dilma, a subida ao poder do presidente Michel Temer, que eu encarei ali como um momento de inflexão, de deslocamento do eixo da política econômica que antes estava centrado no Estado, agora para o mercado. Então veio PPI, vieram as concessões, as privatizações, e que em grande medida o presidente Bolsonaro, sucessor do Temer, aprofundou e deu continuidade a isso. Agora Lula volta com aquelas mesmas ideias: reindustrializar o Brasil e sem combater os reais problemas da nossa baixa produtividade, que advém do quê? De uma educação de má qualidade, que não prepara as pessoas para o mercado de trabalho, nem para os empregos do futuro; um excesso de burocracia fiscal e um verdadeiro manicômio tributário.
[13:28] Floriano Filho: Como conciliar essa possível oportunidade aberta pelos Estados Unidos com a importante relação com a China?
[13:34] Paulo Kramer: Veja, uma relação importante com a China cabe não só ao Brasil, mas a todos os países, cabe a todos os países terem essa relação por causa do peso específico da economia chinesa. Então assim: a China, ela está do lado da Rússia, está claramente do lado da Rússia na invasão da Ucrânia. Mas não é por isso que alemães, franceses, ingleses vão romper com a China. Eles estão estrategicamente, militarmente alinhados com os Estados Unidos em defesa da Ucrânia e contra a invasão russa. Não é como um liquidificador que a gente desliga do plug a hora que a gente quiser. Você vai ter um decoupling, né? Quer dizer, você vai ter um desacoplamento da economia mundial. Em algumas áreas, isso pode ser mais rápido, mas outras, isso é bem mais devagar. E isso me lembra até uma frase famosa do Trotsky, que dizia que o desenvolvimento da realidade é desigual e combinado.
[14:22] Floriano Filho: E como preservar os interesses nacionais brasileiros nesse jogo?
[14:26] Paulo Kramer: É preciso desvincular uma política externa altiva e soberana da ideia de — que eu considero pueril, infantil — de pirraça antiamericana. A política externa do lulopetismo... eles alimentaram a ilusão lá atrás, quando fundaram o Foro de São Paulo em 1990, eles alimentaram a ilusão que, com o fim da União Soviética, o eixo da revolução mundial se deslocaria para a América do Sul, para a América Latina. Então a primeira medida seria mudar essa mentalidade e, ciente dos verdadeiros interesses nacionais, tirar o máximo proveito possível dessa relação com os Estados Unidos, sem prejudicar as relações com a China, sempre tendo, mais uma vez, em mente o interesse nacional.
[15:09] Floriano Filho: Caso Trump volte à presidência em 2024, o que isso significaria para a política externa dos Estados Unidos e para o Brasil?
[15:17] Paulo Kramer: O Trump, quanto mais popular ele se torna com a sua base republicana conservadora — e veja, temos alguns indicadores fortes de que ele está na dianteira da disputa entre os outros pré-candidatos republicanos, e o indicador mais seguro disso é o valor das contribuições financeiras que ele está arrecadando agora para esse desafio das eleições primárias. A primeira primária vai ser agora em 15 de janeiro, no estado de Iowa, no Centro-Oeste americano. O Trump, sem dúvida alguma, ele faz um grande sucesso na base republicana, mas isso também leva a que não apenas os democratas, mas também muitos independentes fiquem com o pé atrás em relação a isso. E isso pode ajudar o Joe Biden, que não é também uma história de sucesso, nós podemos dizer assim, eufemisticamente, mas que, sem dúvida alguma, como presidente no poder, ele vai ser... provavelmente será ele o candidato que vai enfrentar o Donald Trump ou seja quem for o candidato republicano. É interessante que várias pesquisas com eleitores registrados no Partido Democrata mostram que eles gostariam de poder contar com outro candidato que não fosse o Joe Biden. Mas veja: o cargo, a máquina do governo tem muita força lá também. Então o que eu acho que se desenha é um confronto entre o Donald Trump e o Joe Biden, sendo que eu acredito que o que vai definir mesmo na hora H quem vai ganhar vai ser a questão da economia: como estará a economia daqui para lá. Porque a gente sabe que as recuperações econômicas começam muitas vezes antes que os atores econômicos, as classes sociais, etc., percebam que a coisa já está mudando, já está recuperando. Então esse timing é muito importante e o Biden, se quiser, ele vai ter que bater o bumbo para mostrar a ligação entre a política econômica dele e uma recuperação econômica dos Estados Unidos, se houver essa recuperação.
[17:12] Floriano Filho: Então vamos ficar de olho aí nos indicadores econômicos dos Estados Unidos, né?
[17:15] Paulo Kramer: Mais uma vez é aquela famosa frase daquele marqueteiro do Clinton: "É a economia, estúpido!"
[17:21] Floriano Filho: Paulo, obrigado.
[17:23] Paulo Kramer: Obrigado, meu amigo. Sempre às ordens.
[17:25] Floriano Filho: Por hoje o nosso podcast Ordem Global fica por aqui. A você que nos ouve, muito obrigado pela audiência e até o nosso próximo programa.