Índia

00:00 - 00:18 Floriano Filho: Olá, eu sou Floriano Filho e começa aqui o Ordem Global. Nos próximos minutos, vamos apresentar notícias e debater questões estratégicas e contemporâneas sobre geopolítica e economia política internacional.

00:18 - 00:26 Vinheta: Ordem Global, fatos e análises da economia política e geopolítica internacional.

00:26 - 01:21 Floriano Filho: A Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou em agosto, um acordo sobre previdência social entre Brasil e Índia. Assinado originalmente em Nova Deli, em 2020, ele facilita o cumprimento dos prazos mínimos para a obtenção de aposentadoria e outros benefícios. Os períodos de contribuição dos trabalhadores nos dois países poderão ser somados. Cada sistema pagará ao beneficiário em sua própria moeda, o equivalente ao período de contribuição efetuado no respectivo país. O Brasil tem acordo similar com outras nações como Alemanha, Chile, Espanha e Portugal, além dos países do Mercosul. O senador Humberto Costa, do PT de Pernambuco, destacou a importância do acordo.

01:21 - 01:50 Humberto Costa: Entendemos ser o acordo um importante instrumento de cooperação entre o Brasil e a Índia, trazendo benefícios diretos a trabalhadores e empregadores de ambos os países em termos previdenciários. Iniciativas como essa também são, portanto, relevantes para proteger brasileiros que trabalhem no exterior e oferecer igual proteção aos indianos e às indianas que residem e trabalham no Brasil.

01:50 - 02:04 Floriano Filho: No primeiro semestre, a Comissão de Relações Exteriores já havia aprovado a indicação do diplomata Kenneth Félix Haczynski da Nóbrega para o cargo de embaixador do Brasil na Índia e no Butão. A relatora foi a senadora Margareth Buzetti, do PSD de Mato Grosso.

02:04 - 02:37 Margareth Buzetti: A Índia constitui-se um importantíssimo parceiro em diversas áreas do comércio, a ciência e tecnologia e a defesa. Muito significativo é o fato de ser uma democracia e de termos pleitos coincidentes em foros internacionais. Acordos bilaterais em áreas como previdência, assistência jurídica mútua em matéria penal, facilitação de investimentos e tributação têm sido assinados, alguns deles recentemente aprovados nesta casa.

02:37 - 03:22 Floriano Filho: O Ordem Global conversou sobre a complexa e delicada situação geopolítica da Índia com Enock Gabriel Mandelbaum. Ele é mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, onde também é pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais e do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da Universidade Estadual Paulista, Júlio de Mesquita Filho. Olá, Enock! Bem-vindo ao nosso programa Ordem Global. Como você define a estratégia da Índia que, ao mesmo tempo, faz parte do chamado Sul Global, dos BRICS e também participa de alianças com os Estados Unidos e Japão?

03:22 - 05:24 Enock Gabriel Mandelbaum: A estratégia da Índia é multifacetada. Ela busca exercer liderança entre os países do Sul Global e fortalecer seus laços com eles por meio do BRICS e da IBSA, por exemplo, enquanto também se engaja com potências como os Estados Unidos e o Japão, por meio de arranjos minilaterais de segurança no Indo-Pacífico, como o Diálogo Quadrilateral de Segurança, o QUAD, que também inclui a Austrália, e o diálogo ministerial trilateral Estados Unidos, Japão e Índia. A política externa indiana tem tradicionalmente priorizado o desenvolvimento de sua economia, a defesa de seu território e a manutenção de influência e de estabilidade na sua vizinhança. Além disso, desde o início do governo nacionalista hindu de Narendra Modi, em 2014, este adotou uma política externa retoricamente assertiva, que visa elevar o país a uma posição de grande potência tanto por meios materiais quanto pela expansão de seu poder de influência, chamado de soft power no jargão de relações internacionais. Além disso, por ser um país cujo produto interno bruto cresce, em média, 8,7% ao ano, Modi adotou a diretriz do multialinhamento, que facilita a um ator mais fraco a manipulação de atores mais poderosos em seu próprio benefício, podendo, assim, maximizar seus ganhos. Desse modo, a Índia sabe que pode jogar em diferentes campos, por ser considerada um parceiro economicamente indispensável para os seus aliados. De modo que, enquanto se recusou a criticar Moscou pela guerra de agressão contra a Ucrânia, devido ao fato de depender de suas exportações de armamentos, com destaque para a fabricação binacional dos mísseis supersônicos Brahmos, ao mesmo tempo renovou sua cooperação com os Estados Unidos em termos de exercícios navais conjuntos para a manutenção da liberdade de navegação no Indo-Pacífico, especialmente os exercícios Malabar, que ocorrem anualmente, incluindo as marinhas japonesa e australiana. E nas áreas de terrorismo, segurança cibernética e desenvolvimento de infraestrutura regional.

05:24 - 05:31 Floriano Filho: A questão geopolítica mais importante para a Índia seria a disputa territorial com a China na região da Caxemira?

05:31 - 07:11 Enock Gabriel Mandelbaum: A disputa territorial com a China é, de fato, uma questão geopolítica importante para a Índia. O litígio remonta à guerra sino-indiana de 1962, que terminou com a derrota da Índia, causando a morte de 1.388 soldados do lado indiano. A China passou a controlar a região de Aksai Chin, considerada estratégica por conectar as regiões do Tibete e de Xinjiang. Então, foi estabelecida a chamada Linha de Controle Real, de mais de 3.440 quilômetros, que é uma fronteira mal definida devido à topografia complexa da região, de modo que atravessa montanhas, rios e lagos. Até hoje, a China e a Índia discordam sobre onde exatamente essa linha se encontra. E Nova Deli continua a reivindicar Aksai Chin, enquanto Pequim reivindica 80 mil quilômetros quadrados do estado indiano de Arunachal Pradesh. Estudos recentes apontam que a China faz aproximadamente oito incursões por ano em território indiano, especificamente em momentos em que se encontra mais vulnerável, como em situações de recessão econômica. De modo a conter a escalada das tensões na região, Nova Deli e Pequim concordaram que suas patrulhas, próximas à Linha de Controle Real, deixem de portar armas de fogo, o que faz com que os seus embates geralmente envolvam paus e pedras. Em 2017, a China avançou sobre a área em disputa de Doklam e levou a um impasse que durou dois meses. E, em 2020, 20 soldados indianos foram mortos em um confronto com soldados chineses no Vale de Galwan. Contudo, a China e a Índia não têm interesse em acirrar as tensões, de modo que estas possam colocar em risco o seu desenvolvimento econômico.

07:11 - 07:18 Floriano Filho: Seria essa disputa uma ameaça maior do que os ataques de países vizinhos como o Paquistão e Bangladesh?

07:18 - 09:51 Enock Gabriel Mandelbaum: A relação com o Paquistão tende a ser mais tensa devido à interdependência econômica praticamente inexistente entre os dois países e à questão da Caxemira. A disputa entre a Índia e o Paquistão em torno da Caxemira remonta à independência indiana em 1947, pois o estado de Jammu e Caxemira era um estado autônomo, mas não havia se decidido de qual país gostaria de fazer parte. O Paquistão clamou soberania sobre ele por ter população de maioria muçulmana, enquanto a Índia o reivindicou porque o marajá que o governava, Hari Singh, havia concordado que ele se integraria à Índia. Em outubro de 1947, grupos tribais armados do Paquistão invadiram Jammu e Caxemira para anexá-lo ao país, enquanto a Índia apoiou um movimento de resistência armada, causando uma guerra que durou dois anos e a disputa continua até hoje. A Índia controla aproximadamente metade do território de Jammu e Caxemira, enquanto o Paquistão controla um terço dele. A violência na região atingiu seu pico em 2020, com mais de 4 mil disparos transfronteiriços registrados. A Índia também observa um aumento no recrutamento de militantes islâmicos, apesar de uma ligeira queda na atividade militar. No entanto, as tensões diminuíram na sequência de um cessar-fogo de fevereiro de 2021, que se tem mantido desde então. Porém, Nova Deli continua a realizar esforços para colocar a Caxemira administrada pela Índia sob o seu controle. Em 2022 e 2023, reprimiu os meios de comunicação social independentes na região e desenhou o mapa eleitoral para privilegiar as zonas de maioria hindu na Caxemira e realizou uma reunião do G20 sobre turismo em Srinagar. Os assassinatos seletivos contra hindus por militantes islâmicos tornaram-se mais frequentes, motivando alguns a fugir. É a disputa territorial mais preocupante para a Índia porque ambas as nações são dotadas de armas nucleares. Já a Índia compartilha uma fronteira de 4.096 quilômetros com Bangladesh. A Força de Segurança de Fronteira da Índia, com o objetivo de impedir o contrabando e a entrada não autorizada de pessoas vindas de Bangladesh, adota uma abordagem controversa de atirar à vista. Esta abordagem permite que a FSF dispare contra qualquer pessoa sem necessidade de motivos específicos, causando mortes frequentes na região, de modo que estas totalizaram quase 1.750 entre 2000 e 2016. Muitos dos afetados são comerciantes de gado e indivíduos que possuem terras próximas à fronteira. A possibilidade de um ataque bengali contra a Índia é altamente improvável porque suas forças armadas são relativamente pequenas e com um orçamento de defesa limitado quando comparado ao indiano.

09:51 - 10:04 Floriano Filho: O fato da China ter feito uma aliança com o Paquistão no contexto das megaobras da Iniciativa do Cinturão e Rota representa uma ameaça adicional para a Índia?

10:04 - 11:51 Enock Gabriel Mandelbaum: Sim. A Índia teme ser enrodilhada pelos projetos da Iniciativa do Cinturão e Rota da China presentes no Paquistão, Sri Lanka e Nepal. A China começou a financiar a construção do Porto de Gwadar a partir de 2016 para usá-lo como um centro de escoamento de mercadorias que vêm do oeste da China. Os militares paquistaneses sempre entenderam o projeto de Gwadar como uma forma de consolidar a posição do Paquistão contra a Índia e de diminuir a influência desta na região. O seu antagonismo foi, por isso, um grande obstáculo não só a qualquer tentativa de normalizar as relações, mas também a qualquer movimento suscetível de gerar uma maior integração econômica com a Índia, inibindo, de fato, os seus próprios planos de desenvolvimento para toda a região. Nesse contexto, os tomadores de decisão paquistaneses entenderam a conexão chinesa como uma garantia contra a Índia. Por mais que Pequim estivesse disposta a ajudar o seu aliado paquistanês e a manter algum grau de pressão sobre a Índia, só em parte partilhava das motivações do Paquistão, nem estava disposta a deixar Islamabad ditar os termos de suas relações com Nova Deli. A China também tem incentivos próprios, pois é uma rota alternativa que confere vantagem estratégica porque resolve o dilema de Malaca, que consiste no risco de seus adversários bloquearem o Estreito de Malaca no caso de conflito, que é fundamental para o seu abastecimento de combustíveis fósseis. A China já mantém um destacamento de sua marinha no porto, sob o pretexto de fazer a sua segurança. Há o risco de Pequim militarizar o Porto de Gwadar e ela pode usá-lo no caso de conflito com a Índia no Oceano Índico, além de poder usá-lo para acessar o Mar da Arábia e interceptar o comércio marítimo e o abastecimento de petróleo da Índia vindo do Oriente Médio.

11:51 - 12:02 Floriano Filho: Como a Índia e o Paquistão possuem armas nucleares, você vê a possibilidade futura de uma guerra envolvendo esse tipo de armamentos na região?

12:02 - 13:54 Enock Gabriel Mandelbaum: Sim. Tanto a Índia como o Paquistão modernizaram consistentemente as suas forças nucleares ao longo das últimas duas décadas, e ambos possuem um arsenal de entre 130 e 150 ogivas nucleares. Isto abrange desde a capacidade de utilizar armas nucleares táticas em campos de batalha específicos, bem como a capacidade de conduzir grandes ataques estratégicos nas cidades de um dos outros. O Paquistão adotou uma estratégia de dissuasão de todo o espectro, que permite a utilização de armas nucleares em resposta a uma guerra convencional de baixíssima escala, mesmo consideravelmente abaixo do limiar nuclear. Como parte desta estratégia, Islamabad introduziu armas nucleares táticas, como o míssil Hatf-IX (Nasr), que tem um alcance de 60 quilômetros. Também construiu uma série de mísseis de cruzeiro com capacidade nuclear lançados no solo e no ar, com alcance entre 350 e 700 quilômetros. O Paquistão também introduziu seu míssil de cruzeiro marítimo com capacidade nuclear, Babur-3, em 2017, depois que a Índia encomendou um submarino nuclear. Entretanto, foi relatado que a Índia está construindo sistemas nucleares de defesa. Estes incluem sistemas de lançamento nuclear mais precisos com curto alcance, múltiplos sistemas de veículos de reentrada independentemente direcionáveis, e um crescente arsenal de mísseis de cruzeiro. A Índia também está construindo uma nova série de mísseis balísticos terra-terra, como o Pralay, com um alcance de 150 a 500 quilômetros, justamente com os seus atuais mísseis de cruzeiro terrestres e marítimos que têm um alcance de 1.000 quilômetros. É a rivalidade geopolítica de maior saliência de todas para Nova Deli.

13:54 - 14:03 Floriano Filho: Em termos de segurança nacional, que implicações tem para o país a escassez de água para atender à maior população do mundo?

14:03 - 16:32 Enock Gabriel Mandelbaum: A escassez de água representa um sério desafio de segurança nacional para a Índia. Isso pode levar a conflitos internos, migrações massivas e tensões com nações vizinhas sobre os recursos hídricos compartilhados. O sistema de gestão dos recursos hídricos não é unificado, com diversas entidades tendo funções que muitas vezes se sobrepõem. Na Índia, os recursos hídricos são escassos e a necessidade por água cresce velozmente devido à expansão populacional, ao rápido processo de urbanização e ao avanço industrial. A distribuição de água apresenta desequilíbrios e carece de uma visão integrada para o planejamento, administração e aproveitamento dos recursos hídricos. O aumento da população e a demanda crescente têm gerado escassez de água em várias regiões, desde o semiárido do Rajastão até o Planalto do Decã, onde se situa Bangalore, o principal centro de indústria eletrônica da Índia. Mais de 2 mil casos de conflito por água foram registrados em todo o país nos anos recentes, deixando mais de 200 mortos. A crise climática e ambiental contribui para agravar as questões de quantidade e qualidade da água. Assim, por exemplo, em Bangalore, cidade que se expandiu e se industrializou, os lençóis freáticos baixaram devido ao alto consumo e à falta de chuvas nos últimos anos, precisando ser implementado um sistema sofisticado para gerir a água disponível e evitar o seu racionamento. A Índia também tem disputado com a China pelo controle das águas do Rio Bramaputra, que cruza os dois países. Em novembro de 2020, o 14º plano quinquenal da China para 2021 a 2025 deixou a Índia preocupada quando anunciou a construção de uma superbarragem hidrelétrica em Medog, perto da fronteira indiana, na Grande Curva. A barragem de 50 metros de altura e capacidade de geração de energia de 60 gigawatts é considerada a maior barragem do mundo no sudeste do Tibete, no sopé do Himalaia. A construção de megabarragens acarreta ameaça para a Índia de períodos de seca no inverno e de inundações repentinas durante o verão, especialmente nos dois estados do nordeste que são Assam e Arunachal Pradesh. O local proposto para a barragem fica a apenas 30 quilômetros da fronteira indiana. Somado a isso, abre a possibilidade que a China controle a vazão de água que chega à Índia como tem feito no Rio Mekong em relação aos países do Sudeste Asiático.

16:32 - 16:45 Floriano Filho: Quais são as perspectivas para os indianos em relação à segurança alimentar, uma vez que a Índia tem cerca de um terço do território brasileiro e possui muitas áreas não agricultáveis?

16:45 - 20:12 Enock Gabriel Mandelbaum: Apesar do crescimento significativo da economia indiana nos últimos anos, a insegurança alimentar ainda é um problema crônico na Índia. De acordo com as Nações Unidas, 195 milhões de indianos sofrem de desnutrição, que é aproximadamente 14,8% da população indiana, e o mesmo ocorre com 43% das crianças do país. As causas da insegurança alimentar na Índia são complexas. Algumas pesquisas indicam que as elevadas taxas de migração das zonas rurais para as urbanas podem desempenhar um papel, como evidenciado pela concentração dos ganhos econômicos nas zonas urbanas e pelas mudanças significativas na contribuição do setor agrícola para o PIB. O processo de urbanização em larga escala também tem pressionado as terras agricultáveis. Isso é especialmente preocupante, pois quase 147 milhões de hectares de terras estão sujeitos à degradação do solo, principalmente por meio da erosão causada pela água e pela salinidade. Os efeitos adversos das alterações climáticas também são um contribuinte emergente para a insegurança alimentar, com padrões climáticos desiguais e secas crescentes, responsáveis pelo crescimento e produção desiguais de reservas alimentares. O mais recente Índice Global da Fome classifica a Índia no topo da categoria grave, uma vez que a Índia continua a ter um fraco desempenho no combate à fome e à subnutrição. Muitos na Índia também sofrem de fome oculta. A fome oculta refere-se a uma situação de deficiência crônica de micronutrientes, em que uma pessoa pode ter acesso a calorias suficientes, mas carece dos micronutrientes adequados. A fome oculta pode ter efeitos duradouros na saúde e no bem-estar, e é especialmente problemática para as crianças. Aproximadamente 74,1% da população não tem condições financeiras de adquirir alimentos saudáveis. Isso significa que mais de 100 milhões de pessoas na Índia são obrigadas a consumir alimentos com nutrição insuficiente. O governo da Índia adotou uma série de políticas nos últimos 60 anos na tentativa de fortalecer a segurança alimentar. Uma das principais respostas à insegurança alimentar e à fome no país é a distribuição de grãos alimentares através do sistema de distribuição pública controlado pelo governo, através de uma parceria entre os governos federal e estaduais. O programa da rede de segurança alimentar visa complementar os abastecimentos domésticos essenciais, incluindo trigo, arroz, açúcar e querosene. No entanto, tal como outras soluções para a escassez de alimentos, este programa não se destina a fornecer todos os alimentos necessários às famílias, mas sim a fornecer bens para complementar os bens adquiridos ou cultivados. Para facilitar a distribuição, a Food Corporation of India (FCI) atua como uma agência central responsável pela aquisição de grãos alimentares dos agricultores a um preço que é muitas vezes superior ao preço de mercado. Os governos estaduais individuais adquirem então os grãos alimentares a um preço subsidiado, conhecido como Preço de Emissão Central da FCI. Estes bens são então distribuídos aos consumidores por meio de preços justos ou lojas de racionamento. 75% da população rural da Índia e 50% da população urbana são elegíveis para a redistribuição subsidiada de alimentos.

20:12 - 20:21 Floriano Filho: Com mais de 60% da população vivendo em áreas rurais, você considera que o grau de desenvolvimento da Índia é bem inferior ao da China?

20:21 - 22:49 Enock Gabriel Mandelbaum: Sim. A comunidade internacional celebrou o milagre antipobreza da China, que essencialmente eliminou a pobreza abjeta. Em contraste, a Índia continua a ter elevados níveis de pobreza e desnutrição. Em 1980, 90% dos 1 bilhão de cidadãos chineses tinham rendimentos abaixo do limiar de pobreza extrema do Banco Mundial. Hoje esse número é aproximadamente zero. No entanto, mais de 10% da população da Índia, de 1,4 bilhão de habitantes, continua a viver abaixo do limiar de pobreza extrema do Banco Mundial de 2 dólares por dia. No entanto, 16,3% da população da Índia ainda estava subnutrida no período entre 2019 e 2021, em comparação com menos de 2,5% da população da China, de acordo com o mais recente relatório das Nações Unidas sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo. A Índia também tem uma das piores taxas de desnutrição infantil no mundo. Outro fator é que a economia da Índia continua a ser muito menor que a da China. No início da década de 2020, a produção, as exportações e o PIB da China é cerca de cinco vezes maior, com PIB de 17,7 trilhões de dólares contra o PIB da Índia de 3,2 trilhões de dólares. Além disso, a Índia tem ficado para trás na corrida para desenvolver a ciência e a tecnologia para impulsionar o crescimento econômico. A China forma quase o dobro de estudantes nas áreas de STEM, que é relativas à engenharia, matemática, ciência e tecnologia, do que a Índia. A China gasta 2% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento, enquanto a Índia gasta 0,7%. Quatro das 20 maiores empresas de tecnologia do mundo em receita são chinesas, mas nenhuma está sediada na Índia. A China produz mais da metade da infraestrutura 5G do mundo, e a Índia apenas 1%. O TikTok e aplicativos similares criados na China são agora líderes globais, mas a Índia ainda não criou nenhum produto tecnológico que se tornasse global. Quando se trata de produção de inteligência artificial, a China é o único rival global dos Estados Unidos. O modelo Sensetime AI da China superou recentemente o ChatGPT da OpenAI nas principais medidas de desempenho técnico. A Índia não tem entrada nesta corrida. A China detém 65% das patentes mundiais de inteligência artificial em comparação com os 3% da Índia.

22:49 - 22:58 Floriano Filho: Isso inviabiliza uma possível substituição da China pela Índia em cadeias globais de valores como no caso de equipamentos sofisticados de telecomunicações?

22:58 - 25:21 Enock Gabriel Mandelbaum: Não necessariamente. Como já mencionado, o PIB chinês é consideravelmente maior que o da Índia. Além disso, a China historicamente teve uma população maior e, na década anterior, o crescimento real do PIB da China ultrapassou o da Índia em mais de 1,5 pontos percentuais anualmente. No entanto, a situação deverá ser pelo menos parcialmente invertida nos próximos anos. De acordo com dados do FMI, a população da China está agora em declínio. Até o final do horizonte de previsão, em 2027, a China terá perdido 8 milhões de pessoas. Em contraste, a Índia terá ganho mais de 75 milhões e terá se tornado o país mais populoso do mundo. Além disso, o crescimento real do PIB da Índia será superior em mais de dois pontos percentuais ao da China todos os anos ao longo do atual horizonte de previsão. A demografia mais favorável é um fator importante, pois, enquanto a população da China irá diminuir e envelhecer, a da Índia é relativamente jovem e está crescendo rapidamente. Além disso, o rendimento per capita muito mais baixo da Índia significa que há mais potencial para recuperar o crescimento do que na China de rendimento médio. Além disso, as empresas estatais, cada vez mais hegemônicas na China, irão provavelmente atenuar o dinamismo do setor privado nos próximos anos. Por último, o crescente isolamento internacional da China, como resultado das sanções dos Estados Unidos, as fricções com o Ocidente e as restrições fronteiriças, já está levando as empresas a diversificarem as cadeias de abastecimento fora do país. Uma tendência que provavelmente continuará. A Índia deverá adquirir alguns negócios industriais que se afastarão da China. A Apple iniciou recentemente a produção do iPhone 14 na Índia, por exemplo. Além disso, o salário médio de um trabalhador indiano é 3,5 vezes menor que o do trabalhador chinês e tem um mercado consumidor doméstico crescente, o que também são fatores atraentes para o estabelecimento da indústria estrangeira no país. Contudo, a Índia ainda carece de grande desenvolvimento de sua base industrial e infraestrutura logística para ser capaz de fazer frente à China como polo de atração das cadeias de valor.

25:21 - 25:30 Floriano Filho: Que tipo de potencial tem a relação entre Brasil e Índia e em que setores ela pode se desenvolver mais rapidamente?

25:30 - 29:13 Enock Gabriel Mandelbaum: O Brasil e a Índia compartilham agendas comuns baseadas em semelhanças significativas entre os dois países, como instituições democráticas e sociedades caracterizadas pela diversidade, e também objetos e aspirações comuns no âmbito interno (desenvolvimento econômico com a promoção da justiça social) e no âmbito internacional (relativo a maior poder de decisão nos órgãos de governança global, como o Conselho de Segurança da ONU e FMI). No setor econômico, o Brasil e a Índia mantêm relações comerciais significativas. A Índia é o oitavo maior importador de produtos brasileiros e o 11º maior exportador de produtos para o Brasil. Em 2022, o fluxo comercial entre os dois países atingiu um recorde de 15,2 bilhões de dólares, representando um crescimento de 31,4% em relação ao ano anterior. Embora o valor tenha sido recorde, a Índia representa apenas 2% de nossas exportações e 3,3% das nossas importações. Isso se deve à alta concentração de produtos de baixo valor agregado, especialmente nas exportações brasileiras. As exportações brasileiras também enfrentam dificuldades para acessar o mercado indiano, como a carne que enfrenta tarifas ad valorem de 30% e 100% e muitas restrições sanitárias e culturais e o açúcar de cana, uma das mais importantes exportações brasileiras para a Índia, enfrenta 50% de tarifas ad valorem. Brasil e Índia têm trabalhado para expandir e diversificar o seu comércio por meio do Acordo Comercial Preferencial Índia-Mercosul, que foi assinado em 2004 e entrou em vigor em 2009. O PTA abrange 450 linhas tarifárias em ambos os lados, mas Brasília e Nova Deli pretendem ampliar a abrangência do acordo para 2.500 linhas tarifárias em ambos os lados. No que diz respeito ao fluxo de investimentos entre os dois países, o investimento estrangeiro direto do Brasil na Índia nos últimos anos chega a 1 bilhão de dólares, enquanto o investimento indiano no Brasil é de cerca de 6 bilhões. A maior parte dos investimentos brasileiros na Índia está concentrada em poucas empresas, como a Gerdau, uma siderúrgica, e a WEG, uma produtora de motores elétricos, além da Perto, uma empresa distribuidora de cédulas e a Marcopolo, empresa automobilística que possui uma joint venture com a Tata Motors para produção de ônibus. Por outro lado, o investimento indiano no Brasil abrange empresas de diversos setores da economia, especialmente do setor siderúrgico, automobilístico, farmacêutico, agrícola, pecuário, eletrônico e energético. Entre as empresas indianas que atuam no Brasil estão a automobilística Mahindra, a farmacêutica ACG Worldwide e a estatal indiana Oil and Natural Gas Corp. Brasil e Índia pretendem expandir o investimento bilateral por meio do Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos, o ACFI. O ACFI criará um quadro regulatório abrangente para facilitar a operação de empresas indianas no Brasil e de empresas brasileiras na Índia e colocará o Brasil entre os poucos países que possuem acordos de investimento com a Índia. Também deve-se frisar que há perspectiva de expansão de oportunidades para os segmentos industriais brasileiros, como produtos de defesa e aviação civil, agronegócio, químicos, peças para equipamentos de transporte, construção e setor automobilístico, além de biocombustíveis, especificamente o etanol.

29:13 - 29:18 Floriano Filho: Você entende que a recente visita do Presidente Lula à Índia trouxe resultados concretos para o Brasil?

29:18 - 30:54 Enock Gabriel Mandelbaum: Lula e Modi combinaram de manter reuniões bilaterais regulares para tratar da reforma do Conselho de Segurança da ONU, pois o Brasil e a Índia pleiteiam por assentos permanentes no órgão. O primeiro-ministro também saudou o apoio do presidente brasileiro à candidatura indiana para assento não permanente no órgão da ONU para 2028 e 2029. Além disso, ambos discutiram a urgência do mundo fazer uma transição energética justa e equitativa com o uso de biocombustíveis e veículos flex para descarbonização do setor de transportes. Com os Estados Unidos, Brasil e Índia lançaram no sábado a Aliança Global de Biocombustíveis. A iniciativa reunirá 19 países e 12 organizações internacionais. A medida visa aumentar a produção e o consumo, principalmente de etanol, no mundo. As três nações estão entre as cinco maiores produtoras de etanol no planeta, e a criação da aliança foi incluída na declaração final do encontro do G20. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu de Modi a presidência do G20 e apresentou as três prioridades da agenda brasileira no comando do grupo: o combate à desigualdade e à fome, combate às mudanças climáticas e a reforma das instituições de governança internacional. Assim, esse evento contribuiu para as intenções brasileiras de exercer papel de liderança no Sul Global e de projetar-se como o país que não só quer preservar, mas também liderar as reformas do sistema multilateral nos próximos anos.

30:54 - 31:18 Floriano Filho: Obrigado, Enock Gabriel Mandelbaum, que é mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Por hoje, o nosso podcast Ordem Global fica por aqui. A você que nos ouve, muito obrigado pela audiência e até o nosso próximo programa.