Ordenamento Mundial e a Ásia

00:00 [Florian Filho]: Olá, eu sou Florian Filho e começa aqui o Ordem Global. Nos próximos minutos vamos apresentar notícias e debater questões estratégicas e contemporâneas sobre geopolítica e economia política internacional.

00:17 [Vinheta]: Ordem Global: fatos e análises da economia política e geopolítica internacional.

00:25 [Florian Filho]: O conflito no Oriente Médio entre Israel e o Hamas continua crescendo e envolvendo novos atores sem uma solução à vista. Os países integrantes do Conselho de Segurança das Nações Unidas não conseguiram sequer chegar a um consenso sobre uma resolução a respeito da guerra. Em meio a outras crises, como a guerra na Ucrânia e diferentes conflitos humanitários, especialistas consideram que o mundo está enfrentando uma situação extremamente complexa e delicada, na qual as duas maiores economias do mundo, Estados Unidos e China, também têm intensificado ameaças e sanções recíprocas. Quando esteve na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional no Senado, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, fez um apelo pela busca da paz no Oriente Médio.

01:23 [Mauro Vieira]: Defendemos que o Hamas liberte as crianças israelenses que foram sequestradas de suas famílias. Pedimos a Israel cessar o bombardeio para que as crianças palestinas e suas mães deixem a Faixa de Gaza através da fronteira com o Egito. E exortamos as partes a respeitarem o direito humanitário internacional. É inadmissível a continuidade desse conflito e os ataques a infraestrutura civil, tal como verificado no Hospital Batista de Gaza, que segundo apurações iniciais resultou na morte em torno de 500 pessoas.

01:57 [Florian Filho]: O Ordem Global conversou com Marcos Troyjo sobre as transformações no tradicional ordenamento mundial em meio aos conflitos e novas tendências internacionais, como o papel da Ásia no século XXI. Ele foi presidente do Novo Banco de Desenvolvimento em Xangai, na China, e secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia. Atualmente, o professor, diplomata e cientista político Marcos Troyjo é pesquisador na Universidade de Oxford e no Instituto Europeu de Administração de Empresas, além de conselheiro no Fórum Econômico Mundial. Ele fundou e dirigiu o laboratório de estudos sobre os BRICS na Universidade de Columbia, em Nova York. Olá, Marcos. Bem-vindo ao programa Ordem Global. O atual estágio da globalização vai muito além das chamadas cadeias globais de valor?

02:57 [Marcos Troyjo]: Antes de mais nada, Florian, é um prazer falar contigo e com os ouvintes da Rádio Senado. É fato: eu acho que a globalização está passando por um processo de mudança. Há um ciclo que se fecha e há um ciclo que se abre. Se nós voltássemos numa espécie de máquina do tempo até 1993, as principais características da globalização eram o desmantelamento da União Soviética, a chamada cortina de ferro, a ideia de que o mundo caminhava para um norte organizado sobretudo a partir das noções de economia de mercado, estado de direito, democracia representativa. E parece que a globalização mudou de uma maneira muito significativa, não é? Hoje nós temos uma força protecionista no comércio mundial que faz com que o aumento do PIB global em taxas percentuais seja superior ao aumento das transações comerciais. Há mais restrições para o fluxo de investimentos, mesmo países que durante muito tempo foram líderes, né, da discussão sobre abertura de mercados, como é o caso dos Estados Unidos ou do Reino Unido, hoje revisam as suas estratégias, estão adotando políticas industriais voltadas para dentro, muitas restrições também à participação das empresas dos nacionais dos seus países em mercados externos, como é o caso do mercado da China. E, claro, há um momento muito conturbado por essa convergência entre pandemia e pós-pandemia. Muita gente imaginando que nós não estamos num mundo pós-covid, mas num mundo com covid. E se não for a Covid-19, será algum tipo de variável, né, de um vírus que vai continuar afetando a maneira pela qual nós pensamos saúde pública e também o mundo dos negócios. E uma série de conflitos armados, seja no coração da Europa, né, o conflito na Ucrânia, ou agora mais recentemente a eclosão desse potencial destrutivo tão grande no Oriente Médio, iniciado por essas atrocidades absolutamente inescusáveis cometidas contra o povo israelense pelo Hamas. Então, um cenário muito conturbado. É um cenário que alguns analistas da cena mundial chamam de policrise, né, uma convergência, uma confluência entre crise geopolítica, crise sanitária e crise econômica. Agora, é um cenário também, Florian, que cria janelas de oportunidade para o Brasil. E é necessário muita sabedoria, muita estratégia, muita habilidade para que a gente possa, mais uma vez, em meio a esse palco bastante complicado que nós temos no mundo, extrair o máximo de vantagens para o Brasil e para a nossa população.

05:22 [Florian Filho]: Então como ficam as cadeias globais de valor nesse contexto?

05:26 [Marcos Troyjo]: É um dos fenômenos que a gente vem observando há algum tempo, mas que ganhou bastante tração, digamos, de 2020 para cá, é uma espécie de reconfiguração das chamadas cadeias globais de valor. Nós nos acostumamos com um mundo em que uma bola de vôlei é desenhada por uma empresa na Alemanha, seu couro sintético é feito por uma empresa na Malásia, a sua cola é feita na Tailândia, a bola é montada na China, essa bola é transportada até o seu mercado destino por uma empresa de logística norueguesa, a contabilidade desse fluxo todo é feita a partir de uma firma sediada na Irlanda, a agência de publicidade que coordena a campanha global do produto é uma agência de publicidade brasileira... Então, nesse mundo, até que nominalmente nós podemos ler na bola "made in China", mas na realidade essa é uma bola "made in the world". É uma cadeia não apenas profunda, mas também bastante extensa do ponto de vista da divisão internacional das contribuições que se fazem até a montagem do produto final. Isso está mudando. Tá mudando por razões geopolíticas, ou seja, há uma percepção de que países que transferiram uma porção significativa da sua atividade manufatureira para economias na Ásia, sobretudo na China, agora têm de voltar para mais para perto dos seus principais mercados. Há razões de natureza de de-risking, né, ou seja, diminuição de riscos associados a potenciais fechamentos dessas cadeias globais de valor. Eu acho que esse foi muito o caso de gente que precisava de insumos vindos, por exemplo, da China durante o período mais fechado da Covid-19 e acabaram vendo a sua produção interrompida ou então diminuída em termos de escala e velocidade. Mas tem outra razão também que eu acho que talvez seja a mais poderosa dessas todas: é que a própria economia chinesa ou outras economias do Sudeste Asiático estão mudando de patamar. Por exemplo, a China não é mais uma economia de baixo custo. Em inglês se fala "low cost country". A China não é mais um "low cost country".

07:22 [Florian Filho]: Inclusive com relação à renda per capita, não é?

07:24 [Marcos Troyjo]: Hoje a renda per capita na China é cerca de 40, 50% maior do que a renda per capita no Brasil. Então aquilo que era anteriormente visto como uma grande vantagem de se produzir na China, que era supostamente a baixa remuneração do fator trabalho, naqueles setores em que o fator do trabalho ainda ocupa uma parcela importante na definição dos custos finais, a China não tem mais esse diferencial. Então hoje nós observamos uma migração muito curiosa de atividade manufatureira saindo do território chinês e migrando para outras partes do mundo. É um fenômeno que contribui também para que a China passe por um processo de desindustrialização. No Brasil e em outras economias esse debate de desindustrialização já ocorre há algum tempo. Ele agora vem ocorrendo na China também, porque a China está se desindustrializando. Uma parte significativa desses capitais migra para as vizinhanças geoeconômicas da China, vai para países como o Vietnã, vai para países como Myanmar, vai para países como a Índia, vai para países como Bangladesh. Aliás, Florian, hoje não apenas a Ásia é a região que mais cresce no mundo, mas Bangladesh é a economia que mais cresce na Ásia. Fenômeno muito interessante de país que vem absorvendo, por exemplo, no setor têxtil, no setor de moda, no setor de tecelagem, atividades que anteriormente estavam localizadas na China. E, claro, uma parcela também muito robusta dessa atividade manufatureira indo para países como o México. Não apenas porque o México, digamos assim, tem proximidade com grandes economias, como é o caso da economia dos Estados Unidos e do Canadá, mas também porque ao longo dos últimos 30 anos o México conseguiu construir um enxoval de acordo de comércio e investimento que fazem com que a produção no México possa atingir, por exemplo, o mercado europeu em condições bastante favoráveis. E além disso, o México tem utilizado uma estratégia muito fina, que contribui para essa atratividade do seu parque produtivo como novo destino de manufaturas e cadeias globais de valor, porque hoje, Florian, formam-se mais engenheiros no México a cada ano do que nos Estados Unidos. Então a engenharia, que é uma habilidade tão especial para o desenvolvimento industrial, encontra no México um país em que há um estoque de talentos disponíveis e que faz a diferença no final. Ou seja, essa reconfiguração de cadeias globais está acontecendo e ela me parece ser mais acentuada do que a gente poderia supor.

09:32 [Florian Filho]: A Ásia vai continuar dominando as cadeias de valor globais ou haverá um espaço cada vez maior para outros países?

09:41 [Marcos Troyjo]: Florian, a Ásia como região tem muitas credenciais para que se fortaleça a percepção de que o "Greenwich" econômico, que o meridiano geoeconômico do mundo passa por lá. Veja: hoje do ponto de vista do cálculo do Produto Interno Bruto medido pela paridade do poder de compra, a China já é a maior economia do mundo. De cada três países, dois têm a China como seu principal parceiro comercial. Do ponto de vista do PIB nominal, hoje a China é uma economia de mais ou menos 19 trilhões de dólares. Se o crescimento do PIB chinês estaciona em 4% ao ano durante a próxima década, 4% sobre 19 trilhões de dólares correspondem a 760 bilhões de dólares acrescidos ao PIB chinês, a formação da demanda global a cada ano. Ou seja, é o equivalente à China acrescentar uma Argentina ao seu perfil econômico a cada nove meses. Isso faz com que daqui a 10 anos, se a gente fizesse uma projeção razoavelmente simples, nós estivéssemos autorizados a supor de que a maior economia do mundo mesmo do ponto de vista do PIB medido pelo dólar corrente será a China, a segunda maior economia será os Estados Unidos e a terceira maior economia do mundo será uma China que não existe, mas que resultará do crescimento marginal da economia daquele país nos próximos 10 anos. Porque o acumulado do crescimento incremental será superior ao que hoje é o PIB nominal do Japão, a terceira maior economia do mundo. E se nós aumentarmos um pouco o compasso da nossa análise, Florian, eu acho que não há nenhuma instituição no mundo que não veja que as três maiores economias do mundo a partir do ano de 2040 serão China, Estados Unidos e Índia. Então os dois países mais populosos do mundo, a Índia hoje com 1,5 bilhão de pessoas, os chineses com 1,450 bilhão, farão com que a escala que combina demografia e economia continue a fazer da Ásia um epicentro muito importante da economia global.

11:39 [Florian Filho]: Qual é a perspectiva da atual disputa na área dos semicondutores e da indústria automobilística com o crescimento dos veículos elétricos?

11:47 [Marcos Troyjo]: Você menciona duas áreas que são áreas de ponta, onde talvez essa relação seja bastante delicada. Uma é o caso dos veículos elétricos, onde me parece que isso vai depender muito da relação do avanço tecnológico com o avanço de renda da população e, claro, também com as fontes multimatrizes de energia. Por exemplo, os indianos vêm estocando em grande medida petróleo, obtêm relações privilegiadas junto aos principais atores do setor de combustíveis fósseis nesse período que, por exemplo, vai do agravamento da crise da Ucrânia até agora. Então, naturalmente isso vai exercer um papel na maneira pela qual a velocidade se dará para a expansão de veículos elétricos na Índia. É natural que isso aconteça em outros mercados também, de modo que talvez aquilo que nós supúnhamos até muito recentemente era um caminho único, enxergar os veículos elétricos como o principal formato do transporte de passageiros, tenha mais matizes do que aquilo que a gente poderia imaginar. E no caso dos semicondutores, Florian, eu, pelo que eu tenho estudado do assunto e sobretudo as reflexões do Chris Miller, que é o autor do livro "Chip Wars", né, Guerra dos Chips, que ganhou o prêmio de livro do ano do Financial Times, me parece que essa é uma cadeia de valor muito oligopolizada. As empresas de software que desenham esse tipo de semicondutores são duas ou três, a maioria delas essencialmente nos Estados Unidos. As empresas que têm a capacidade de gerar o tipo de luz necessário para o que aparentemente chama-se luz ultravioleta extrema, é essencialmente uma única empresa na Holanda, nos Países Baixos. Os materiais químicos utilizados nessa fase da produção são feitos por uma ou duas empresas no Japão e na Alemanha. E 90% dessa montagem final é feita pela TSMC, que é aquela empresa que nós todos conhecemos que fica em Taiwan. Então provavelmente a possibilidade de você penetrar nessa cadeia ou alterá-la de maneira significativa é pequena, pelo menos tendo um horizonte de tempo de 15, 20 anos. Então eu acho que são dois casos, eu não diria que são casos excêntricos, né, ou casos excepcionais, mas que têm as suas lógicas próprias e que num certo sentido não que estejam na contramão, mas eles obedecem a uma dinâmica diferente do que a gente vê, por exemplo, em outros setores, como o setor de calçados, o mesmo setor de automóveis mais amplo, o setor têxtil, onde é muito visível essa reorientação das cadeias globais de valor distanciando-se de hubs de produção onde elas estiveram concentradas durante tanto tempo, como foi o caso da China.

14:15 [Florian Filho]: Você diria que nós já estamos vivendo uma nova ordem global em ritmo acelerado?

14:21 [Marcos Troyjo]: Veja, Florian, há autores de relações internacionais, política internacional, que utilizam os termos "ordem" e "sistema" como se fossem sinônimos. Eu entendo que uma das maneiras, pelo menos a que eu prefiro, de definir o termo ordem global é imaginar a ordem global como se fosse uma radiografia da maneira pela qual se encontram distribuídos pelo mundo os fluxos de poder, de riqueza e de influência. Então, se nós fizéssemos uma radiografia da ordem mundial, digamos, em 1945, nós veríamos essencialmente 50% do PIB global representado pela economia dos Estados Unidos. Veríamos os Estados Unidos como potência dominante no setor de defesa, seja na ótica das forças convencionais, seja como potência nuclear. De longe o país mais influente do mundo. Se você faz essa mesma radiografia hoje, esses fluxos estão redistribuídos. Hoje os Estados Unidos, apesar de maior economia do mundo do ponto de vista do PIB nominal, significam um quinto, um pouco mais de um quinto do PIB global, 22% é até hoje a fatia da economia norte-americana no PIB global. Claro, os Estados Unidos sem dúvida continuam extraordinariamente importantes nas forças convencionais, mas há um aumento muito expressivo das capacidades de outros países. Por exemplo, hoje a Marinha chinesa tem mais barcos em operação, embora eles não sejam tão sofisticados quanto os americanos, do que a Marinha dos Estados Unidos.

15:45 [Florian Filho]: E diante disso, quais são as principais incertezas que você vê no mundo hoje?

15:50 [Marcos Troyjo]: Em termos nucleares, houve uma proliferação que nós não podemos deixar de reconhecer. Hoje países, né, que têm poderio nuclear incluem, além de Estados Unidos e Rússia, a França, o Reino Unido, a Índia, o Paquistão, a China, Israel. Muitos acreditam que a Coreia do Norte já completou o ciclo completo. Então houve uma, mais uma vez, uma redistribuição do poder de dissuasão, do poder nuclear. Do ponto de vista da influência também, há uma grande competição por prestígio e influência no mundo. Alguns acreditam que há um declínio, por exemplo, do soft power americano, há um aumento da influência de países como a China ou de uma nova atratividade representada pelo sucesso econômico de alguns países do Oriente Médio, como é o caso dos Emirados Árabes Unidos. E aí eu faço essa distinção, Florian, porque da mesma maneira que uma ordem em que os Estados Unidos foram protagonistas gerou instituições como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a Organização das Nações Unidas, o mais tarde o Banco Interamericano de Desenvolvimento, essa nova configuração da distribuição de poder, riqueza e influência no mundo também gerará o seu sistema, ou seja, o sistema de instituições de certa forma repercutirá essas novas realidades. E daí o aparecimento de novas instituições, como o Banco Asiático de Infraestrutura e Investimento, o Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco dos BRICS, a Organização de Xangai de Cooperação e Segurança, ou seja, há uma espécie de influência bastante clara entre o sistema internacional que se cria ou recria e a maneira pela qual a ordem está configurada. Então nesse sentido sim, há uma nova ordem global. No entanto, há uma transição entre aquilo que provavelmente foi o principal parâmetro nos últimos 70, 75 anos e aquilo que está se construindo agora. E o que está se construindo é uma construção em aberto. Pode ter a direção de, digamos, um multilateralismo mais abrangente, em que o peso de cada país esteja representado de forma mais atualizada, ou também pode gerar um quadro diferente, que é uma espécie de competição entre multilateralismo, ou seja, uma balcanização das instituições multilaterais. De um lado você tem o Banco Mundial como pertencente a um campo, de outro você tem, digamos, o Banco Asiático de Infraestrutura e Investimento pertencente a outro e, em vez de cooperarem entre si para solucionar desafios como a erradicação da pobreza ou diminuição do gap infraestrutural, essas instituições tentam criar as suas próprias esferas de influência. Sim, há uma nova ordem. Sim, há novos fluxos de poder, riqueza e prestígio distribuídos no mundo. E há um sistema internacional que vai refletir essas novas realidades.

18:19 [Florian Filho]: Qual é a probabilidade de caminharmos no sentido da balcanização?

18:24 [Marcos Troyjo]: Florian, vai depender muito. É como se fosse uma peça de teatro em que, quando os atores começam a encenar, o enredo como um todo ainda não se concluiu. Ou seja, vai depender muito de como os atores se relacionam, que o playwright, né, ou seja, o teatrólogo, aquele que está fazendo a trama final, desenha os seus próximos capítulos. Por exemplo, num cenário de balcanização, a ONU é tornada cada vez mais irrelevante, o Conselho de Segurança se torna cada vez mais inoperante, o Fundo Monetário Internacional observa uma distância entre o que é a sua capacidade de socorrer crises de liquidez e aquilo que os países estão dispostos a contribuir na forma de capital para a solução dessas dificuldades, o Banco Mundial vê quase que desaparecer o seu poderio econômico e passa apenas a ser uma espécie de instituição voltada ao que ele considera boas práticas, e automaticamente você vê outras realidades surgindo. Agora, num cenário de multilateralismo cooperativo ou neomultilateralismo, por exemplo, o Conselho de Segurança da ONU ser renovado, o Fundo Monetário, o Banco Mundial e outras instituições multilaterais terem uma nova injeção de capital, o G20, né, tão importante naquele pós-crise de 2007, 2008, revigorado... Mais uma vez, essa me parece uma tensão entre multilateralismo cooperativo e esse cenário mais balcanizado que ainda não se resolveu, que portanto é um jogo em aberto.

19:49 [Florian Filho]: A recente expansão dos BRICS seria uma articulação antiocidente?

19:54 [Marcos Troyjo]: Florian, os BRICS estão entrando na sua terceira fase. Você tem uma primeira fase do conceito que foi muito definida pelo trabalho do Banco de Investimento Goldman Sachs, capitaneado pelo Jim O'Neill, e que nada mais era do que uma bola de cristal sobre o futuro da economia global. Essa projeção da bola de cristal mostrava que cada vez mais Brasil, Rússia, Índia e China ocupariam pedaços, né, do bolo econômico global. Isso se cumpriu ou tem se cumprido em grande medida pelo desempenho de China e Índia, menos com Brasil e Rússia. Só que depois de alguns anos do aparecimento desse conceito, representantes desses quatro países e depois também da África do Sul, decidiram utilizar todo o comentário, a atenção que esse acrônimo gerou para realizar encontros em nível de chefes de governo, ministros da área econômica. E aí iniciou-se um processo de consultas, de troca de pontos de vista, de intercâmbio, que é o que eu gosto de chamar de BRICS 2.0. E dessa plataforma, entre outras coisas, surgiu o Novo Banco de Desenvolvimento, que começou a operar em 2015. Agora me parece que os BRICS estão entrando numa terceira fase, resultado muito daquilo que emergiu da cúpula da África do Sul realizada há alguns meses. Houve uma expansão que eu entendo ali parece ter algum tipo de critério regional, ou seja, a Argentina foi chamada na América Latina, você tem Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes no Oriente Médio, há economias como a do Egito e da Etiópia, né, que são evidentemente africanos. Então há uma expansão que parece orientada a aumentar a voz do grupo, aumentar a sua representatividade regional, aumentar o seu peso relativo. E eu acho que o seu futuro é um ponto de interrogação. Não sabemos se ela vai a partir de agora adquirir tons antiocidentais, mesmo porque vamos aqui refletir, Florian: um país como a China tem gigantescos interesses econômicos numa economia como a economia da União Europeia.

21:58 [Florian Filho]: Após a expansão, como fica a relação da China com os Estados Unidos?

22:03 [Marcos Troyjo]: A China tem interesses econômicos muito concretos na sua relação com os Estados Unidos. Nos últimos 20 anos, o principal destino de investimento estrangeiro direto chinês foi os Estados Unidos. Nos últimos 20 anos, o principal destino de investimento estrangeiro direto norte-americano foi a China. Então me parece que nós devemos evitar a ideia de que automaticamente esse BRICS 3.0 se transformará numa ferramenta antiocidente. Mais uma vez, isso vai depender do jogo jogado e vai depender muito daquilo que é o resultado das ambições individuais de cada um dos seus sócios no que diz respeito ao futuro do grupo. Por exemplo, se o objetivo for sobretudo mobilizar capitais de longo prazo para endereçar o problema do déficit infraestrutural, essa é uma boa notícia. Agora, se por outro lado a plataforma se tornar mais um instrumento de balcanização da ordem global, me parece que essa é uma má notícia. Então, mais uma vez, tudo em aberto. Muito disso vai depender sobretudo da maneira pela qual se concretiza a política externa, a política de desenvolvimento de atores como China, Índia, o Brasil também em grande medida, que é um país extraordinariamente relevante, mas eu realmente torço para que seja mais uma ferramenta de cooperação, de construção de diálogo, do que uma ferramenta de exclusão de uma parte importante do mundo.

23:23 [Florian Filho]: Como a América Latina e o Brasil podem aproveitar melhor esse atual contexto mundial?

23:29 [Marcos Troyjo]: Florian, nos últimos 18 meses estive por duas vezes no Fórum Econômico de Davos, estive em reuniões de primavera e outono do Fundo Monetário, do Banco Mundial, estive na COP, Conferência do Clima em Glasgow, estive o ano passado em Sharm el-Sheikh no Egito. E eu fiquei muito impressionado como nesses diferentes fóruns cada vez mais se torna onipresente a discussão sobre segurança energética, segurança alimentar, segurança nas cadeias globais de valor, nas cadeias de suprimento e também o tema da transição a uma economia verde. Então, vamos dizer, houve uma emergência da ideia de segurança econômica, que é alguma coisa que naqueles momentos de globalização mais profunda, né, por exemplo, do início dos anos 2000, eram vistos como algo do passado, que a globalização profunda resolveria ou teria menos contradições porque todos os países estavam voltados a uma situação de mais eficiência. Agora, nesse contexto, digamos assim, de segurança, por exemplo, da produção de insumos para o setor de infraestrutura ou de energia verde, claro, nós vamos ver situações que a gente vê em outras áreas, que é um tratamento diferenciado, por exemplo, com relação a terras raras ou acesso a determinados minerais considerados de natureza estratégica. Mas veja: num mundo em que tem crescimento da sua economia realizado sobretudo pela expansão de países emergentes de grande contingente populacional, isso vai significar um choque pela demanda. Eu diria que mais até do que um choque, uma mudança estrutural no mapa de demanda. Por exemplo, minério de ferro ou cobre, que se tornam tão ou mais importante para a economia toda que um ou outro mineral que pode ser utilizado, por exemplo, para a produção de baterias de longa duração. Veja que coisa curiosa. Pegar o exemplo da Índia aqui. A Índia é um país que cresceu nesses últimos 10 anos a uma taxa média anual, do ponto de vista econômico, de 7%. O que significa que a Índia dobrou a sua renda per capita em uma década. As projeções que estão aí diante da gente são também de expansão econômica muito robusta. E a gente sabe que quando países crescem de uma maneira tão veloz num espaço tão curto de tempo e a partir de rendas per capita tão baixas como é o caso da Índia – ou seja, mesmo com toda essa performance da última década hoje a renda per capita na Índia é de cerca de 3 mil dólares – o destino da renda incremental, o destino dos excedentes, é sobretudo para o consumo de alimentos. Ou seja, há um aumento muito expressivo do consumo de calorias, do consumo de nutrientes, e um aumento muito expressivo também daqueles materiais necessários para fortalecer a infraestrutura do país. Então eu vejo aí uma oportunidade muito significativa para que os países da América Latina, que têm vantagens comparativas ricardianas nesse universo da produção de alimentos e também de minerais, para que eles possam construir os excedentes necessários e investir em outras áreas intensivas em tecnologia e que vão permitir aumentar a produtividade e, portanto, a renda da região.

26:24 [Florian Filho]: O Brasil precisa escolher entre Estados Unidos e China ou pode conviver bem com ambos?

26:31 [Marcos Troyjo]: A bússola mais importante, Florian, para o Brasil seguir é o interesse nacional. É o interesse do Brasil. E se nós tivéssemos que filtrar o que isso significa em duas ou três diretrizes, isso significa aumentar a renda do brasileiro, aumentar a capacidade do Brasil atrair investimentos produtivos a longo prazo, aumentar a participação do comércio exterior brasileiro como fatia das trocas internacionais, significa abraçar mas também contribuir com o desenho desses novos padrões de propriedade intelectual, de legislação ambiental, de inteligência artificial que hoje estão em dinâmica no mundo. Esse é o interesse nacional. De modo que, para que isso possa acontecer de uma maneira plena, o Brasil deve rejeitar análise de cenário que tomam como um dado uma espécie de Guerra Fria 2.0 à qual o Brasil tem que automaticamente se alinhar a um campo ou outro. Mesmo porque às vezes eu gosto de descrever, como aliás eu não sou o único, outros analistas também o fazem, que a situação atual mais se assemelha a uma "paz quente" do que a uma "guerra fria". Porque sim, existe uma megacompetição entre, por exemplo, Estados Unidos e China, mas há também muita codependência e interdependência. Eu mencionei agora há pouco o fluxo de investimentos e o estoque que um país tem em relação ao outro nesses últimos 20 anos. Se nós formos para a balança comercial, para as trocas entre os dois países, elas são de centenas de bilhões de dólares. Outro dia eu estava conversando com o Raghuram Rajan, que foi economista-chefe do FMI, foi também presidente do Banco Central da Índia. E ele me dizia que tinha feito um cálculo de qual era o valor do comércio entre os Estados Unidos e a União Soviética no ano em que essa troca foi a mais expressiva. Aparentemente foi o ano de 1979, um ano antes das Olimpíadas de Moscou, que aliás foram boicotadas pelos Estados Unidos e por vários outros países. E aparentemente naquele ano de 79, a valor presente, o intercâmbio entre os dois países foi de 2 bilhões de dólares ao ano. Agora, só no setor de manufaturas, o comércio Estados Unidos-China é de quase 700 bilhões de dólares. Ou seja, há uma codependência, uma interdependência que é muito mais sofisticada e complexa do que aquela de um cenário de Guerra Fria. Então o Brasil, quando olha para a China, vê um mercado crescente para as suas exportações do agronegócio, da sua indústria alimentícia, da sua indústria mineral, possibilidades de parcerias tecnológicas importantes. Quando olha para os Estados Unidos, vê também chances enormes de joint ventures, de novos aportes de capital. Os Estados Unidos são uma das principais fontes irradiadoras de investimentos estrangeiros diretos no mundo, têm mercados de capitais profundos, de modo que nós não podemos nos ver vítimas de uma armadilha binária de ter que escolher entre um campo e outro. O Brasil é um "global player" e deve sim buscar as suas parcerias baseado naquilo que é mais importante, que é o interesse nacional.

29:18 [Florian Filho]: Obrigado, Marcos Troyjo, pesquisador na Universidade de Oxford e no Instituto Europeu de Administração de Empresas, além de conselheiro no Fórum Econômico Mundial. Por hoje, o nosso podcast Ordem Global fica por aqui. A você que nos ouve, muito obrigado pela audiência e até o nosso próximo programa.

29:44 [Vinheta]: Ordem Global: fatos e análises da economia política e geopolítica internacional.