Panamá e o Comércio Internacional
00:00 - 00:18 | Floriano Filho: Olá, eu sou Floriano Filho e começa aqui o Ordem Global. Nos próximos minutos, vamos apresentar notícias e debater questões estratégicas e contemporâneas sobre geopolítica e economia política internacional.
00:19 - 00:26 | Vinheta: Ordem Global: fatos e análises da economia política e geopolítica internacional.
00:27 - 00:44 | Floriano Filho: A União Europeia é o principal bloco com relações comerciais e de investimentos do Mercosul. Em junho de 2019, os dois blocos regionais chegaram a um acordo comercial após quase 20 anos de negociações.
00:45 - 01:05 | Floriano Filho: Representantes da indústria argumentaram que a liberalização das tarifas resultaria no aumento das relações comerciais e as empresas teriam melhores oportunidades em áreas como compras públicas e subsídios, o que levaria a uma igualdade de condições. Também havia expectativa de maior integração nas cadeias internacionais de valor.
01:06 - 01:30 | Floriano Filho: Ainda assim, o acordo não foi adiante porque países europeus, como a França, e deputados do Parlamento Europeu alegaram que o desmatamento na floresta amazônica seria uma ameaça ambiental global. Mas o impasse com a União Europeia não é o único desafio no caminho do Mercosul.
01:31 - 01:50 | Floriano Filho: Eleições históricas na Argentina e insatisfações por parte do governo uruguaio, que gostaria de maior independência para negociar diretamente com a China, são outras dificuldades enfrentadas pelo bloco sul-americano. A perspectiva de adesão da Bolívia cria oportunidades, mas também gera preocupações.
01:51 - 02:12 | Floriano Filho: País com 12 milhões de habitantes e um produto interno bruto equivalente a 41 bilhões de dólares, a Bolívia tem uma fronteira de 3.400 quilômetros com o Brasil. Os bolivianos fazem parte das bacias andina, amazônica e platina, além de terem grandes reservas de gás, de lítio e de outros minerais estratégicos.
02:13 - 02:26 | Chico Rodrigues (Senador): Não menos importante é a abertura ou ampliação de mercados para empresas brasileiras, com a possibilidade de uso de energia mais barata. A lembrar que Brasil e Argentina já são os principais parceiros comerciais da Bolívia.
02:27 - 02:40 | Sérgio Moro (Senador): Um assunto muito grave, muito sério, né? A perspectiva de nós acolhermos no Mercosul um país que tem denúncias de manter presos políticos. E a cláusula democrática, inclusive, já foi invocada anteriormente em governos anteriores para suspender a condição do Paraguai de membro do bloco.
02:41 - 03:00 | Floriano Filho: Outros países bem menores da América Latina demonstram que é possível enriquecer e progredir apostando no comércio internacional, na educação e no equilíbrio entre desenvolvimento econômico e social, fazendo investimentos que geram retorno efetivo para o país. É o caso do Panamá.
03:01 - 03:26 | Floriano Filho: O Ordem Global conversou com Miguel Lecaro, embaixador do Panamá no Brasil, sobre a importância da localização geográfica panamenha para o desenvolvimento econômico. Formado em Relações Internacionais pela Universidade do Panamá, escreveu sobre o princípio de autodeterminação dos povos, investigando casos na África e na Europa.
03:27 - 03:41 | Floriano Filho: Além de ter sido embaixador na Nicarágua e na Rússia, participou das cúpulas do Mercosul em Ouro Preto e em Assunção, no Paraguai. Olá, embaixador! Bem-vindo ao programa Ordem Global. Qual é a importância histórica do Canal do Panamá e, levando em conta o contexto da geopolítica e economia global contemporânea?
03:42 - 04:12 | Miguel Lecaro (Embaixador): Bom, bom dia, Floriano. Fico muito honrado com esse convite. É uma ótima oportunidade de falar diretamente com o povo do Brasil. Respeito muito o Senado, o Congresso, as instituições parlamentares. São os verdadeiros representantes do povo. São eles que são escolhidos, eleitos para representar o povo. Então, quando alguém está em contato com o Senado, está em contato com as pessoas perante as quais representa seu país e, neste caso, o Panamá.
04:13 - 04:41 | Miguel Lecaro: Então, obrigado. Continuando com sua pergunta, o Canal do Panamá marcou a história do Panamá. Devo dizer que, em nossos estudos desde pequenos, conversamos sobre o canal. Até mesmo as nossas relações, por exemplo, com a Colômbia foram marcadas pelo canal, porque o Panamá tornou-se independente devido à necessidade de construção do Canal do Panamá.
04:42 - 05:07 | Miguel Lecaro: No início do século passado, os Estados Unidos tentaram negociar com a Colômbia para construir o canal. Havia dois caminhos possíveis: a rota da Nicarágua, pelos grandes lagos da Nicarágua, e pela rota do Panamá. E você pode comprovar que tudo foi decidido por um selo postal, por um selo cartão postal de cinco centavos.
05:08 - 05:32 | Miguel Lecaro: Porque no Senado dos Estados Unidos apresentaram um selo postal da Nicarágua, no qual aparecem três vulcões em erupção ao redor do grande lago da Nicarágua. Aqui fará parte do percurso do canal. E apresentaram um desenho do Panamá, uma ilustração de um arco da época colonial, à direita.
05:33 - 05:54 | Miguel Lecaro: E esse arco estava lá desde 1671, o que significava que o Panamá era geologicamente muito estável. E a Nicarágua é conhecida como terra dos vulcões. Então, muito vulcão na Nicarágua. E o Panamá não tem vulcões. Então o Congresso dos Estados Unidos decidiu construir o canal no Panamá, negociando com a Colômbia.
05:55 - 06:06 | Miguel Lecaro: O Senado, o Congresso da Colômbia rejeitou, não aceitou o tratado com os Estados Unidos. E os Estados Unidos ajudaram então os panamenhos, que queriam lutar pela independência do Panamá.
06:07 - 06:13 | Floriano Filho: Para quem não conhece a história da região, por que a Colômbia se envolveu com esses acontecimentos?
06:14 - 06:34 | Miguel Lecaro: Sim, quando o Panamá alcançou a sua independência da Espanha, em 1821, passou a fazer parte da Grã-Colômbia. Gostávamos de dizer que não era Colômbia, mas a Grã-Colômbia. Grã-Colômbia era a área de Simón Bolívar, o Libertador. Ele queria uma união de repúblicas, ex-colônias espanholas.
06:35 - 07:02 | Miguel Lecaro: A Grã-Colômbia era composta pela Colômbia, Venezuela, Equador, Panamá e Costa Rica. Era uma região única. Mas então, devido a conflitos políticos internos, diferenças entre os vários países, foi desmembrada. E o Panamá ficou como estado federal da Colômbia.
07:03 - 07:22 | Miguel Lecaro: Deve-se lembrar que entre Colômbia e Panamá temos uma floresta muito densa, chamada Selva de Darien, onde hoje temos uma situação de migração irregular muito delicada. Portanto, não havia ligação terrestre entre Colômbia e Panamá.
07:23 - 07:42 | Miguel Lecaro: Houve cerca de seis tentativas diferentes de separar o Panamá da Colômbia. Até 1903, o Congresso colombiano rejeitou o tratado dos Estados Unidos e os Estados Unidos colaboraram para ajudar na independência do Panamá. E no dia 3 de novembro comemoramos a independência ou a separação do Panamá da Colômbia.
07:43 - 08:12 | Miguel Lecaro: E no dia 18 de novembro, um francês, e não um panamenho, assina um tratado com os Estados Unidos para a construção de um canal no Panamá. E a partir daí começou a construção do canal até 1914, quando foi inaugurado. Mas a luta dos panamenhos para recuperar a soberania, porque esse francês entregou aos Estados Unidos para sempre todo o terreno necessário para a construção do canal.
08:13 - 08:31 | Miguel Lecaro: E o Panamá era um país com cinco fronteiras: norte, sul, leste, oeste e no meio, no meio com o canal. Algo absurdo.
08:32 - 08:37 | Floriano Filho: Por que os Estados Unidos estavam tão interessados nesta relação com o Panamá?
08:38 - 09:12 | Miguel Lecaro: Se você lembra daqueles filmes americanos sobre a conquista do oeste, os cowboys indo todos para a Califórnia. Por quê? Porque havia a febre do ouro. O nome vem daquela famosa corrida da costa leste para a oeste, procurando ouro na Califórnia. Isso influenciou o Panamá. Os filmes mostram a primeira ferrovia transcontinental do Atlântico para o Pacífico, como nos Estados Unidos, mas não foi assim.
09:13 - 09:37 | Miguel Lecaro: A primeira ferrovia foi construída no Panamá pelos americanos, em 1850 a 55. Quando descobrem ouro na Califórnia, não havia ferrovia para ir de Nova York a Los Angeles, por exemplo. Além do mais, Los Angeles era uma cidade pequena, uma pequena localidade.
09:38 - 09:59 | Miguel Lecaro: Então, o que ocorria? Os navios vinham de Nova York para o Panamá, cruzavam a ferrovia de 80 quilômetros até o Pacífico e outro navio os levava para a Califórnia. A corrida do ouro desenvolveu-se inicialmente através do Panamá, porque o Panamá tem o istmo. Parte da América Central termina no istmo de 80 quilômetros.
10:00 - 10:30 | Miguel Lecaro: Você pode ir ao Panamá, Floriano, e colocar a mão direita no Atlântico e, em 30 minutos, colocar a mão esquerda no Pacífico. É muito perto, bem pertinho de você. Então, essa é a posição geográfica de Panamá, que é o seu principal recurso natural. E esse era o interesse dos Estados Unidos. Primeiro, um interesse comercial: comércio, intercâmbio comercial com a Ásia da costa leste e com a Europa da costa oeste.
10:31 - 10:52 | Miguel Lecaro: Mas depois foi uma importância geoestratégica. E o Panamá teve o seu desenvolvimento histórico, cultural, político baseado nessa situação e nessa relação, especialmente com os Estados Unidos. Temos, por exemplo, uma economia muito estável. Por quê? Porque em 1904 os Estados Unidos assinaram um tratado com o Panamá para impor o dólar como principal moeda de circulação.
10:53 - 11:15 | Miguel Lecaro: Todas as transações no Panamá, há mais de um século, são expressas em dólares americanos, inclusive hoje. Hoje temos uma moeda nacional, o Balboa, mas realmente na carteira, na bolsa, o panamenho não carrega o Balboa. O panamenho carrega dólares. E isso garantiu uma estabilidade que nos permitiu desenvolver um centro financeiro internacional, um centro bancário.
11:16 - 11:35 | Miguel Lecaro: Mais de 100 marcas ou nomes diferentes de bancos de todo o mundo estão sediados no Panamá. Muitos dizem que somos um paraíso fiscal. Bem, temos boas notícias que eu vou compartilhar com você: na semana passada, o GAFI retirou o Panamá da lista cinzenta de países paraísos fiscais.
11:36 - 11:39 | Floriano Filho: O GAFI tem relação com o Conselho Andino?
11:40 - 11:55 | Miguel Lecaro: Não, não. O GAFI é o Grupo de Ação Financeira Internacional, aquele que decide a economia do mundo. E a OCDE decidiram que o Panamá não é mais um paraíso fiscal. Nós somos um paraíso, mas não mais fiscal.
11:56 - 12:02 | Floriano Filho: Já que estamos falando de dolarização, no caso da Argentina, o senhor acha que é o melhor caminho?
12:03 - 12:35 | Miguel Lecaro: Bem, na verdade, o dólar beneficiou muito o Panamá em termos de estabilidade, mas também distorceu a economia. O Panamá não é um país industrial, não é um país produtor. Bem, eles sabem: entre os três setores da economia — extração, processamento, serviços — a economia do Panamá é baseada em serviços. Então não temos uma indústria forte e pesada para apoiar a moeda do Panamá. Portanto, usamos o dólar.
12:36 - 13:06 | Miguel Lecaro: O caso argentino é diferente, é muito diferente. É um país maior do que o Panamá. O Panamá é um país pequeno, com 75 mil quilômetros quadrados. Goiás tem território maior do que o Panamá. Mas esta deformação da economia no sentido de serviços é muito importante. O setor bancário, financeiro, de seguros, resseguro internacional.
13:07 - 13:30 | Miguel Lecaro: O Panamá também baseia sua economia na maior renda marítima do mundo. Nossa frota mercante é a maior do mundo. Mas é quase um tema de fantasia, porque não são navios panamenhos; são navios gregos, são navios chineses, são navios japoneses, são navios europeus. Mas eles usam a bandeira do Panamá.
13:31 - 14:02 | Miguel Lecaro: E o Panamá, logicamente, cobra pela utilização da bandeira panamenha no comércio mundial e que gera divisas para o país. O Panamá mantém o crescimento anual em torno de 6%, o que é muito alto para a América Latina. E os panamenhos não sabem o que é uma desvalorização, uma queda da moeda. Mas para isso tem que ser produzido renda que mantenha o dólar no país.
14:03 - 14:14 | Miguel Lecaro: E no caso da Argentina, não é dolarizar por dolarizar. Em que se baseará essa dolarização? Então eles são processos diferentes e respeitamos muito a situação na Argentina. Esperamos que alcancem uma estabilidade econômica que evite esta atual situação de desvalorização galopante que impede aquele país irmão de se desenvolver como todos gostaríamos.
14:15 - 14:24 | Floriano Filho: Como a competição entre a China e os Estados Unidos influencia disputas locais ou regionais na América Latina?
14:25 - 14:59 | Miguel Lecaro: Bem, a geopolítica influencia muito a geoeconomia na globalização. Há 50 anos, o Panamá manteve relações com Taiwan, com a província rebelde. Há 10 anos, o Panamá estabeleceu relações diplomáticas com a China continental. E muitas pessoas ficaram preocupadas. Por exemplo, abrimos um concurso internacional para a gestão de um dos terminais portuários do Canal do Panamá e a melhor oferta para o Panamá como soberano do território foi de uma empresa chinesa.
15:00 - 15:32 | Miguel Lecaro: Mas hoje nada é completamente americano, nada é completamente russo, nada é completamente chinês. A empresa que administra um dos portos do canal é a Hutchison Whampoa. A Whampoa é chinesa e administra o porto de Hong Kong. Mas Hutchison é uma empresa inglesa que gere, por exemplo, o porto de Felixstowe. Felixstowe, na Inglaterra, é um porto muito importante.
15:33 - 16:02 | Miguel Lecaro: Então, quando nós assinamos o acordo com a Hutchison Whampoa, os Estados Unidos, a extrema direita, o Congresso falou: "Ah, o Panamá entregou o canal à China". E não é assim, não. Não é o canal, não é a operação do canal; é a administração de um porto, de um dos portos do Canal do Panamá. Então, muitas vezes, usam a situação econômica para fazer política.
16:03 - 16:05 | Floriano Filho: Ainda mais em um mundo crescentemente polarizado.
16:06 - 16:36 | Miguel Lecaro: Além disso, as pessoas às vezes não entendem: o canal é neutro, está ao serviço do mundo, do comércio mundial. Os Estados Unidos já não tinham qualquer participação na administração ou na operação do Canal do Panamá. Em 1999, 31 de dezembro, nós arriamos pela última vez a bandeira dos Estados Unidos no território do Panamá. E o Canal do Panamá hoje é totalmente administrado e operado por panamenhos.
16:37 - 17:02 | Miguel Lecaro: Além disso, não apenas mantivemos a operação do canal, como também melhoramos: fizemos a ampliação do Canal do Panamá, que opera em uma escala maior do que na época em que os Estados Unidos o administravam. Por quê? Porque cada vez que um navio passava pelo Canal do Panamá, 200 milhões de litros de água doce eram perdidos no mar.
17:03 - 17:38 | Miguel Lecaro: Porque o canal funciona com água doce, não é água do mar, é água de lagos e rios. Então agora nos tornamos um novo canal, maior, ampliado, com capacidade para navios 30% maior. Antes disso, os navios construídos em todo o mundo eram chamados Panamax, porque era o tamanho máximo que cabia no canal. Você podia ir ao canal e ver os navios que passavam a meio metro das paredes das eclusas do canal. Hoje em dia já constroem navios 30% maiores.
17:39 - 18:02 | Miguel Lecaro: Então, portanto, um melhor serviço é oferecido ao comércio global. E o Panamá é neutro. Por exemplo, na guerra entre a Rússia e a Ucrânia: nós, que fomos um país invadido pelos Estados Unidos em 1989, não podemos aceitar invasores. Então nós condenamos a invasão da Ucrânia pela Rússia, mas se os navios russos precisarem transitar pelo Canal do Panamá, podem fazê-lo, porque o canal é neutro.
18:03 - 18:06 | Floriano Filho: Como se compara o Canal do Panamá com o Canal de Suez?
18:07 - 18:31 | Miguel Lecaro: Bem, nós temos uma relação histórica com o Canal de Suez. A primeira tentativa de construção do Canal do Panamá foi feita pelo conde Ferdinand de Lesseps, engenheiro francês, foi quem construiu o Canal de Suez. Mas a primeira diferença é que o Canal de Suez é um canal nivelado. O Canal do Panamá é um canal escalonado, com sistema de eclusas.
18:32 - 18:48 | Miguel Lecaro: Porque as montanhas continentais do centro do Panamá eram altas demais para serem escavadas até atingir o nível do mar. Portanto, é um canal escalonado. Essa é a primeira diferença. O que os canais tanto de Suez como do Panamá fazem é encurtar distâncias.
18:49 - 19:15 | Miguel Lecaro: Se o Canal de Suez não existisse, teríamos de contornar toda a África do Sul, Cabo da Boa Esperança, uma viagem muito longa. Se o Canal do Panamá não existisse, teria de contornar toda a América do Sul, indo até a Terra do Fogo e circunavegar todo o continente sul-americano, o que não é apenas longo, mas é perigoso. É uma rota muito perigosa e muito tempestuosa.
19:16 - 19:49 | Miguel Lecaro: O Canal de Suez e o Canal do Panamá não competem; complementam-se e são diferentes rotas marítimas que atendem ao comércio global. O Canal do Panamá fica no Panamá, mas não oferece apenas serviços para os Estados Unidos; oferece serviços para a Europa. É mais fácil ir de um porto de Amsterdã, na Holanda, por exemplo, para o Japão, para a China, através do Canal do Panamá, do que dar a volta completa pelo outro lado. Então, enquanto houver comércio, troca entre países, os canais são válidos.
19:50 - 19:55 | Floriano Filho: E como o Panamá virou um hub aeroportuário, de turismo e financeiro?
19:56 - 20:28 | Miguel Lecaro: Como já falamos, Floriano, o principal recurso natural do Panamá é a sua posição geográfica, a sua posição geoestratégica. E no setor de serviços, continuamos complementando e desenvolvendo um modelo logístico multimodal. Não temos o Canal do Panamá, que é o principal recurso, mas também uma zona franca muito importante. Diz-se que é a segunda do mundo, onde recebemos mercadorias, produtos de todo o mundo e redistribuímos.
20:29 - 20:44 | Miguel Lecaro: Se você comprar um item japonês na Guatemala, provavelmente ele veio do Japão para o Panamá, cruzou o canal e foi para Guatemala e México. Um perfume francês... E isto influenciou muito o desenvolvimento econômico do Panamá.
20:45 - 21:13 | Miguel Lecaro: O Panamá é um paraíso de compras. Também desenvolvemos um centro financeiro com muitos bancos. É muito fácil fazer negócios no Panamá. Temos uma legislação especial para promover investimentos estrangeiros. Na zona franca de Colón, você pode instalar uma empresa que traz mercadorias de qualquer parte do mundo e envia para o outro lado do mundo sem pagar um centavo de imposto no Panamá.
21:14 - 21:30 | Miguel Lecaro: Porque é uma área geograficamente separada e diferenciada, mas fiscalmente também. Uma verdadeira zona franca que não paga impostos. O que o Panamá ganha? O Panamá vende serviços relacionados: transporte terrestre, ferrovia, e gera emprego e trabalho para os panamenhos.
21:31 - 21:50 | Miguel Lecaro: Então muitas vezes não é a arrecadação direta de impostos; é a arrecadação do que está em torno dos serviços. E, como você menciona com razão, desenvolvemos um hub, um hub de aviação precisamente por causa da posição geográfica. Você pode ir ao Panamá e conectar-se com mais de 100 destinos no mundo.
21:51 - 22:20 | Miguel Lecaro: Temos uma companhia aérea nacional, a Copa, uma empresa de aviação panamenha que não é do governo, não é do país. É uma empresa privada, mas usa o Panamá como um hub das Américas e está conectado a 97 destinos todos os dias. As principais capitais são atendidas pela Copa, mas você pode chegar pela Copa no Panamá e pegar a KLM para Amsterdã, a British Airways para Londres, Iberia para Espanha, Qatar Airways e muitas conexões com todos.
22:21 - 22:40 | Miguel Lecaro: Cada vez que falo com um brasileiro aqui e digo que sou embaixador do Panamá, ele me diz: "Ah, Panamá, eu estive no Panamá". E eu digo: "Sim, mas só de passagem". Ele me diz que sim. Mas você teve que ficar mais, tem que passar três dias, uma semana, conhecendo o Panamá.
22:41 - 23:04 | Miguel Lecaro: Eu lembro que comecei a vir para o Brasil há uns 20 anos. Para chegar aqui, eu tinha que viajar do Panamá para Miami e de Miami para São Paulo, para o Rio, para Brasília. Hoje temos voos diretos do Panamá para São Paulo, Belo Horizonte... Belo Horizonte acaba de completar 15 anos de viagens diretas e com a boa notícia de que passamos de sete voos por semana para dez. Dez voos por semana.
23:05 - 23:31 | Miguel Lecaro: Também estão trocando os equipamentos com mais frequência: aviões mais modernos, os MAX, que são aviões de última geração comercial para melhorar o atendimento. Muitos brasileiros, felizmente, passam pelo Panamá. Espero que as próximas viagens sejam para o Panamá, passando uma semana e gastando reais e dólares no Panamá. Aproveite o Panamá, que é um destino turístico, não só turismo natural, não só turismo de praia, não só a gastronomia do Panamá, mas a gastronomia mundial.
23:32 - 24:04 | Miguel Lecaro: Os melhores restaurantes chineses do mundo, por exemplo, estão localizados no Panamá. E há restaurantes na lista dos cem melhores do mundo no Panamá. Então, da próxima vez, eles poderão fazer uma escala gratuita no Panamá, sem pagamento extra. Cada vez que eles passam, quando vão para Cancún, quando vão para Miami, quando vão para o México, República Dominicana, Punta Cana, podem ficar gratuitamente no Panamá.
24:05 - 24:11 | Floriano Filho: Para tornar essa transformação em realidade, que prioridade se deu à educação no país?
24:12 - 24:39 | Miguel Lecaro: É muito importante, é uma prioridade. Prioridade, pois se você recebe uma empresa internacional que queira investir em um país e não tem trabalhadores que falam inglês, por exemplo, como instalar um call center se as pessoas não falam inglês? Faz parte da formação não só econômica e comercial, mas também educativa. O panamenho fala inglês, em grande quantidade e boa qualidade de inglês.
24:40 - 24:59 | Miguel Lecaro: Então trabalhamos com novas tecnologias. Temos uma universidade tecnológica no Panamá que é considerada uma das melhores universidades da América Latina em ensino de tecnologia. Mas temos muitos panamenhos que estudam no Brasil. Temos uma grande tradição de relacionamento educacional com o Brasil.
25:00 - 25:26 | Miguel Lecaro: Você não sabe, mas no Panamá, quando você percebe que vai ao dentista e pergunta onde ele estudou, ele diz que estudou no Brasil. Existe uma grande tradição. Hoje temos na Universidade de Patos de Minas 85 alunos com bolsas de estudo pagas pelo governo do Panamá estudando medicina veterinária, porque o Panamá reconhece os elevados padrões de genética da raça brasileira.
25:27 - 25:47 | Miguel Lecaro: Temos muito a aprender com o Brasil. Falei com o meu presidente uma vez e perguntei quanto leite de uma vaca leiteira produzia no Panamá. Ele respondeu que as campeãs produziam 18 litros. Aqui no Brasil tem vacas que produzem 60, 80 litros de leite por dia, porque a tecnologia brasileira é geneticamente melhorada.
25:48 - 26:14 | Miguel Lecaro: Eu lembro da raça Indu-Brasil, que veio da Índia, mas era uma raça resistente ao calor, ao clima quente. Então era ideal para o Panamá. Então estamos levando a genética brasileira para o Panamá. Mas não apenas genética; ou seja, não requer apenas o exemplar já melhorado do touro e da vaca. Você precisa ter gente preparada para inseminar a vaca, porque senão a taxa de sucesso é muito baixa.
26:15 - 26:34 | Miguel Lecaro: Hoje temos projetos em Uberaba. Neste momento, temos 24 alunos lá para aprender a inseminar aquele produto genético que vai do Brasil ao Panamá. Portanto, dentro de alguns anos, o Panamá vai melhorar tudo a nível nacional. Obrigado ao Brasil por isso.
26:35 - 26:42 | Floriano Filho: Qual é a sua expectativa em relação à coexistência entre os Estados Unidos e a China e os impactos aqui na região?
26:43 - 27:01 | Miguel Lecaro: Acredito que o Panamá seja o país mais adequado para esse relacionamento. Você sabe por quê? 6% da população do Panamá tem algum tipo de parentesco de sangue chinês. Esse é um estudo de genoma humano no Panamá e 6% estão relacionados com os chineses.
27:02 - 27:27 | Miguel Lecaro: Por quê? Porque os chineses foram para o Panamá primeiro para a construção da ferrovia e depois para a construção do Canal do Panamá. O Panamá é um caldeirão de raças, é multicultural. Nós temos tudo. Não existe um panamenho típico, não existe um panamenho normal; somos de várias raças. No Panamá, os chineses são muito importantes e o americano também pela relação histórica.
27:28 - 27:59 | Miguel Lecaro: Então o Panamá pode ser um ponto de encontro, um ponto de convergência para que esse relacionamento se desenvolva. Hoje em dia não se pode negar um país e ninguém pode negar um país como a China. É a maior população. Bem, já se tornou a segunda maior depois da Índia, mas é a segunda maior população do mundo. Hoje em dia você não precisa apenas saber inglês, mas também chinês: ni hao, ni hao ma, xie xie. Você tem que falar um pouco de chinês se quiser viver neste mundo globalizado.
28:00 - 28:25 | Miguel Lecaro: E é uma realidade na qual você não pode tomar partido: você tem que trabalhar com o mundo. Os Estados Unidos são a potência econômica comercial, nós reconhecemos isso. Temos um relacionamento especial. Esperamos, portanto, que essas duas grandes potências no mundo multipolar possam se entender. E se o Panamá, um país pequeno, puder contribuir para isso, estamos à disposição.
28:26 - 28:32 | Floriano Filho: Embaixador, muito obrigado pela entrevista e pela presença aqui em nossos estúdios.
28:33 - 28:47 | Miguel Lecaro: Estou muito grato pela oportunidade. Novamente reconheço o trabalho da Rádio Senado, da Televisão Senado e do Senado brasileiro em geral. É sempre bom vir aqui, nos sentimos em casa. Muito obrigado.
28:48 - 29:07 | Floriano Filho: Por hoje, o nosso podcast Ordem Global fica por aqui. A você que nos ouve, muito obrigado pela audiência e até o nosso próximo programa. Ordem Global: fatos e análises da economia política e geopolítica internacional.