Correio Braziliense, n. 22740, 24/06/2025. Política, p. 3
Do susto à revolta pelo dinheiro retirado
Vanilson Oliveira
Vítima de desconto não autorizado em seu benefício previdenciário, a aposentada Nores Maria Pinto Lima, 78 anos, denuncia que a Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec) vinha retirando, mensalmente, valores de seus vencimentos sem autorização. O caso se soma ao de milhares de denúncias que estão no centro de uma investigação sobre as fraudes nos descontos.
O problema foi identificado quando a aposentada começou a perceber uma redução constante nos valores creditados mensalmente.
“Notava aquela deficiência no valor da pensão. Todo mês menos dinheiro. Me sinto vilipendiada.
O que estão fazendo com os velhos deste país é uma vergonha. O Brasil não merecia tratar os idosos desse jeito”, desabafa Nores.
Na tentativa de entender a origem dos descontos, ela procurou ajuda no Procon de Brasília, que recusou a denúncia alegando que não poderia intervir em casos relacionados ao INSS. Foi então que procurou a Defensoria Pública da União (DPU), que aceitou ingressar com uma ação contra a associação responsável pelo desconto. “O INSS me garantiu que ia tirar.
E, realmente, dos três últimos meses, eles retiraram esse desconto da Ambec. Mas quero o ressarcimento de tudo que foi cobrado, porque nunca autorizei isso”, afirma.
A indignação aumentou quando, ao acessar o aplicativo Meu INSS, encontrou um suposto termo de autorização anexado ao seu cadastro.
“Quando entrei no aplicativo, estava lá um relatório com perguntas que nunca respondi, e uma gravação que não é minha. Uma voz que não é minha dizendo um ‘sim’, que nem dá para entender. Isso é fraude”, observa.
A aposentada, que recentemente passou por uma intervenção cirúrgica no coração, afirma que o episódio tem afetado a saúde. “A raiva que eu tive quase me matou.
Sou uma pessoa cardiopata. Não posso aceitar ser enganada desse jeito”, protesta.
Investigação
O caso de Nores não é isolado. A Ambec está no centro de uma investigação conduzida pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União (CGU), no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura o esquema de descontos não autorizados em aposentadorias e pensões de milhares de segurados do INSS.
Segundo os dados obtidos nas investigações, a Ambec apresentou um crescimento vertiginoso no número de filiados, passando de apenas três associados, em 2021, para mais de 569 mil, em março de 2024.
Só no primeiro trimestre de 2024, a entidade arrecadou mais de R$ 71 milhões e, ao longo do ano passado, o total chegou a R$ 231 milhões, tornando-se uma das maiores arrecadadoras entre as associações investigadas.
Após escândalo de corrupção, a Corregedoria-Geral do INSS abriu Processo Administrativo de Responsabilização (PAR) contra 12 entidades suspeitas de desconto indevido na folha de pagamento de aposentados e pensionistas beneficiários do órgão. São alvos dos processos a Ambec, CBPA, Caap, APDAP Prev, Asabasp, AAPEN, AAPPS, AAPB, ASBrapi, Cebap, Unaspub e APBrasil. Dessas, Ambec, AAPEN, Unaspub e Caap também são investigadas pela PF.
O Correio tentou contato com a Ambec por e-mail, mas não obteve retorno. Por telefone, uma gravação diz que “por determinação do despacho decisório de número 65, todas as cobranças de mensalidades estão suspensas.
Dessa forma, você não receberá novas cobranças em seu benefício até que nova determinação seja dada pelo INSS”.