Wagner William - O Soldado Absoluto – uma biografia do marechal Henrique Lott

00:00 - Locutor da Rádio Senado: Passamos a apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica semanal sobre o mundo literário.

00:15 - Anderson Mendanha (Apresentador): Olá pessoal, começa agora mais um Autores e Livros Dose Extra, o espaço onde a gente conversa com quem faz literatura. Hoje o convidado é o jornalista e escritor Wagner William, pra gente falar aqui do livro "O Soldado Absoluto: Uma Biografia do Marechal Henrique Lott", uma publicação da Editora Record. Com mais de 500 páginas, Wagner reconstrói a tr

01:09 - Wagner William (Convidado):Eu que agradeço o convite, Anderson, obrigado.

01:12 - Anderson Mendanha:E vamos falar um pouquinho do Marechal Lott, Henrique Lott. Esse livro, essa biografia, já tem umas duas décadas, mas que agora está de volta às prateleiras lá em nova edição.

01:25 - Wagner William: Vou começar contando essa curiosidade: em 2005 foi lançado, fez segunda edição em seguida, foi finalista do Jabuti. Em 2010 praticamente era só matéria de referência para acadêmicos, um livro de referência para acadêmicos. A partir de 2016, muitos artigos começaram a resgatar a história do Lott e a falar do livro — artigos de acadêmicos e artigos de jornalistas. O que aconteceu foi que de 2016 até hoje, praticamente é uma edição por ano, uma nova edição por ano, principalmente porque há muitas semelhanças do que ocorreu em 55 com o que estava ocorrendo em 2016, 18, 23. E hoje, e agora no dia 11 de novembro, completou-se 70 anos do movimento e houve uma sessão solene na Câmara. Quer dizer, é a história, né, que fica. Um movimento que ocorre em 55 e que é festejado na Câmara 70 anos depois tem seu valor, sua importância.

02:32 - Anderson Mendanha: E aí eu começo por uma palavra que eu citei na abertura, que é a seguinte: o Marechal Lott está lá nos livros de história, às vezes com um parágrafo, dois parágrafos, muito rapidamente, e ele se tornou um personagem esquecido, apesar da sua participação fundamental naquele momento 70 anos atrás e tudo mais. Por que que ele se tornou esquecido?

02:53 - Wagner William:Pérgola

03:58 - Anderson Mendanha: E aí ele foi sendo deixado de lado, porque ele continuou sendo militar, né? E aí ele vai sendo deixado de lado e aí quem escreve os livros deixa de fora.

04:07 - Wagner William: Exato. Em alguns livros, até o movimento do 11 de novembro é meio relegado a, como você falou, dois parágrafos, né? Mas eu... eu estou fazendo outro trabalho agora para lançar outro livro e eu reparo o quê: depois da desclassificação dos documentos da Dilma Rousseff e para a CNV (Comissão Nacional da Verdade), há uma nova geração aí de acadêmicos... nova geração, eles devem... devem ter por volta de uns 40 anos cada um, mas... que pegou esse... esse fato e está... está colocando no devido lugar. Então, nos últimos 10 anos, há uma... uma mudança nisso. Mas para 10 anos na história não é nada, né? Para chegar realmente para ficar marcante, ainda vai levar muito tempo.

04:56 - Anderson Mendanha: E a nossa história tem esse costume, né? Não só a nossa história brasileira, mas a história em geral. Com o passar das décadas, com o passar às vezes dos séculos, personagens importantes vão desaparecendo, vão desaparecendo... E aí agora a pergunta: o que que te levou a escrever a biografia do Lott?

05:16 - Wagner William: É, essa pergunta é uma... uma pergunta que eu... recorrente, né?

05:20 - Anderson Mendanha: Tem que perguntar.

05:21 - Wagner William: É engraçado porque é desde... desde os bancos escolares que eu ouvia que o Lott garantiu a posse do Juscelino, impediu um golpe e tal, tal, tal. Aí a gente vê que depois ele perdeu uma eleição presidencial para o Jânio Quadros. Então nasceu mais de curiosidade: de como que alguém se torna um líder nacional democraticamente e depois vai na eleição e perde para o Jânio Quadros? Aí eu quis entender isso.

05:52 - Anderson Mendanha: E sendo apoiado pelo Juscelino!

05:53 - Wagner William: E como é, e naquela bagunça que foi aquela eleição de 1960, né? Que o candidato... o candidato da direita era... o candidato o Lott, né, que era um candidato conservador e católico, era apoiado pelo... pelo pessoal da esquerda. E o Jânio, que não tinha, era mais da direita... E foi uma campanha presidencial, eu acho, uma das mais inacreditáveis que teve. Porque o Lott, ele era tudo menos um bom candidato. Não era, era um desastre. A gente faz biografia, não pode ser laudatório...

06:36 - Anderson Mendanha: Exatamente.

06:37 - Wagner William: Então é, realmente, ele se autossabotava a cada... a cada comício. E houve uma declaração do Jânio Quadros muito boa perguntando: "Candidato, o senhor não vai a tal lugar?". Aí ele falou assim: "Não, não, lá eu não vou porque o Lott já foi". Que era um tal de... apontava para... Há uma passagem no livro famosíssima com o Nereu Ramos fazendo a campanha presidencial, né? Chegaram para ele e falaram assim: "Olha, Marechal, não cita o... o grande... o seu grande projeto que é todas as escolas serem do governo... todas as escolas serem gratuitas".

07:11 - Anderson Mendanha: Públicas, né?

07:12 - Wagner William: Públicas e gratuitas. O que em Santa Catarina era muito ruim porque havia muitos... muitos colégios particulares, uma força muito grande. "Então não cite isso". Então ele faz o discurso dele com uma di... uma voz que não inflamava milhões, com uma... um texto também que não... não contagiava... No fim do discurso ele: "E me pediram para não falar, mas eu vou falar que vou... vou tornar todas as escolas públicas, tal, tal..." Quer dizer, ele não tinha compromisso com nenhum conchavo, com nenhum acordo. E isso aí numa campanha presidencial...

07:47 - Anderson Mendanha: Terrível. E aí agora, a gente... vamos falar um pouquinho mais do Lott. O senhor falou que ele é militar, de direita, conservador, católico. Como é que o Marechal Lott chegou até onde chegou? Como que ele tomou as decisões que tomou em 1955?

08:04 - Wagner William: É, Anderson, só completando, até aí... e já respondendo a essa, se dizia do Lott assim: "seria um ótimo presidente, mas é um péssimo candidato", né? Então, o que houve em 55 foi que... bom, aí a gente tem que retroceder até o momento-chave do século, que é o suicídio do Getúlio.

08:29 - Anderson Mendanha:54.

08:30 - Wagner William: Agosto de 54. Ele é escolhido Ministro da Guerra, que era o... viria a ser Ministro do Exército, né, depois, justamente por manter... por ter uma neutralidade política. E essa neutralidade política para acalmar todos os lados naquele Brasil pós... pós-suicídio de Getúlio, todo... altamente inflamável aquele país, né? E ele tenta manter a ordem. Ele faz um... um... ele faz um ministério muito interessante, muito interessante. Ele é o primeiro ministro a promover um general negro na história. O segundo general negro seria feito... seria promovido durante o governo Fernando Henrique. Quer dizer, todo o período ditatorial não se pro... Então... e ele abria o gabinete dele aos... aos cabos e sargentos. Quer dizer, isso provocou... já provocava uma certa desconfiança dos generais que estavam lá. A eleição: o candidato Juarez Távora... General Juarez Távora, né, e o... contra o Juscelino. Juscelino vence por 36%, se não estou... 36% da... Assim que sai o resultado das urnas, começam as reclamações da... da direita militar, dos movimentos anticomunistas, dos movimentos mais radicais, que o Juscelino não teve a maioria absoluta.

09:58 - Anderson Mendanha: E que aí a eleição não valia, tinha que fazer outra.

10:01 - Wagner William: Mas a maioria absoluta não era requisito na época! Não era, não estava na Constituição! Então, me desculpe, a maioria absoluta era o voto impresso da época. E com esse argumento começa-se o... o Lacerda, a UDN batendo forte também. O Lacerda re... reaproveita o que ele disse sobre o Getúlio: "Juscelino e Jango não podem tomar posse, não tomarão posse, se tomarem posse não podem governar, se governarem não... não chegarão... precisarão ser tirados do poder". E assim vai até que, a crise só escalando, e o Lott garantindo sempre, seguido por todos os repórteres e toda vez falando assim: "O resultado das urnas será mantido, a Constituição é inatacável, o resultado das urnas será mantido", até que, no enterro de um general, um coronel se pronun... Coronel Jurandir Bizarria Mamede se pronuncia e faz um discurso contra a posse em um... enterro de um general, um coronel. Aí o Lott quer punir esse por... basicamente o RDE, o regulamento disciplinar do exército foi... foi... foi atacado. Ele quer punir esse coronel e não consegue. Nisso, o Café Filho, que era o presidente, o vice do Getúlio, tem uma... passa mal... Há registros que ele realmente passou mal, mas num... não num estado que precisasse ser internado. O Carlos Luz, que é o... era o presidente da Câmara, assume. E... e ignora totalmente o Lott, né? Até que tem uma reunião depois de um chá de cadeira do Lott, que era famoso pela pontualidade. Esse chá de cadeira tem um... um aspecto simbólico muito forte, muito forte, porque o Carlos Luz, com a Rádio Nacional transmitindo a espera do... do Lott, quer dizer, o Carlos Luz quis mostrar que, além de tudo, estava tripudiando do general. Aí o Lott exige a punição do coronel, o Carlos Luz falou que não ia punir. Aí o Lott fala que "não serve, não servirei a um presidente golpista". O Carlos Luz: "Ah, não, pois não. O General Fiúza de Castro assu... assumirá no seu lugar". Quer dizer, já estava tudo certo. E essa conversa, que foi por volta das 8 da noite do dia 10 de novembro, o Diário Oficial já rodava com a exoneração do Lott. Houve um teatro, simplesmente. Aí o Lott vai para casa na Vila Militar, há um movimento de generais, o Lott resiste a princípio, mas depois ele já... ele vai para o Ministério da Guerra e, importante, o Lott e seus assessores... O Lott já havia ordenado a todos que preparassem quatro tipos de planos de resistência. Se o exército sair... É muito claro, Anderson, isso aí é indiscutível: haveria um golpe. Tanto é que o Lott, que não... nunca foi alarmista nem... já tinha se... quatro contra-golpes preparados. Se o exército se insubordinasse sozinho, se exército e marinha se insubordinarem, o que fazer, tal. Aí coloca os tanques na rua e há um momento dramático nesses fatos históricos que é: Carlos Luz, Carlos Lacerda, Almirante Penna Boto, no comando do... comandados pelo Sílvio Heck, partem no Cruzador Tamandaré para Santos, onde o Jânio Quadros, que era o governador de São Paulo à época, teria deixado aberto um apoio para eles. E aí uma reação que não é típica de brasileiro, o Lott fala assim, dá a ordem para o Forte de Copacabana e para o Forte Duque de Caxias: "atirem na linha d'água, atirem para afundar". Quer dizer, os dois comandos fazem uma vista grossa e uma operação tartaruga, mas... e também havia um cargueiro italiano que atrapalhou e um nevoeiro... Então essa passagem é bem curiosa e bem polêmica. Aí o cruzador segue para... para Santos, mas no meio do caminho o Lott já tinha tudo: as unidades vão fechando com o Lott, o Brasil inteiro. O Jânio Quadros, sabendo disso, desiste de dar o apoio. Aí eles retornam, são presos. O Lacerda vai para a Cuba de Fulgêncio Batista — antes de Fidel, claro, né?

14:38 - Anderson Mendanha:Sim, um filhote

14:40 - Wagner William: É a Cuba de... dos... dos cassinos e da máfia americana. E aí toma posse. O golpe é desmantelado, mas o Lott exige que o Congresso vote o impeachment do Carlos Luz antes de se proceder a posse do Nereu Ramos, que era o próximo na linha sucessória, vice-presidente do Senado, né, que na época o presidente do Senado era o vice-presidente do Brasil, mas na linha sucessória era o Nereu Ramos. Nereu Ramos toma posse e tudo perfeitamente. Só que aí continuamos com dois presidentes, porque o Café Filho está no hospital. É um roteiro de um filme de Hollywood, né?

15:17 - Anderson Mendanha:E

16:30 - Wagner William: Sim, não há... 37 a 45 não... não há dúvida que foi uma ditadura e ditadura violenta.

16:37 - Anderson Mendanha:Violenta, né? Que idéias contrárias... a gente lembrando de Olga, né, só pra citar um nome.

16:44 - Wagner William:Sim, para Olga e... e assim como todos os i

17:02 - Anderson Mendanha: E Getúlio alcança o patamar histórico que ele tem porque ele se matou e morreu, porque se, né...

17:08 - Wagner William: É, o segundo governo já pode dizer que foi um governo democrático, né, mas... E aí toda essa história, mas finalmente Juscelino toma posse. E pelo que você conta, o Lott tinha o apoio das forças, porque se ele não tivesse o apoio das forças, não teria conseguido impedir aquela situação.

17:33 - Wagner William: Eu vou dizer que ele tinha o apoio das classes, da classe. Porque apesar de tudo, no mundo militar... posso não concordar com nada, posso ser seu inimigo, mas se você é um general e eu sou um general também, e há um sentimento de classe também muito forte nas Forças Armadas. Anderson, se me permite, eu vou contar só um... rapidamente.

17:55 - Anderson Mendanha: Pode!

17:56 - Wagner William: O Juscelino toma posse dia 31 de janeiro. Uma semana depois, no sábado de Carnaval, uma semana depois — qualquer semelhança não é... — os militares tomam as bases de Jacareacanga e fogem de avião para Jacareacanga para montar um golpe para derrubar o Juscelino. Primeira revolta que tem: Jacareacanga. Juscelino anistia esse pessoal. Eles voltam a tentar em 59, só que em vez de Jacareacanga, vão para a base de Aragarças, do mesmo... basicamente os mesmos militares, as mesmas pessoas. Aí o Juscelino: "Opa, agora não, né?". Não anistia esse pessoal, são presos ou fogem do Brasil. Jânio Quadros anistia esse pessoal, que são os mesmos que em 61 vão impedir... vão tentar impedir a posse do João Goulart, que vão ser os mesmos que em 64 vão ter sucesso e tomar o poder.

18:50 - Anderson Mendanha: Recorrente. É inacreditável. Juscelino toma posse e aí, com a posse de Juscelino, qual é o papel de Lott no governo de Juscelino?

18:57 - Wagner William: Então, ele fica como fiador mesmo.

19:00 - Anderson Mendanha: Continua como... continua como Ministro da Guerra?

19:03 - Wagner William:Continua

19:42 - Anderson Mendanha: Com tanta coisa, né? Construção de Brasília, com as denúncias de corrupção, com Carlos Lacerda sempre na cola, né, com a UDN sempre fazendo oposição, com CPI... e tudo mais, né, que a maior parte das pessoas não sabe, mas houve uma CPI da construção de Brasília extremamente ferrenha contra Juscelino. E aí, então, nesses cinco anos de Juscelino, Lott estava sempre ali como fiador e tudo. E aí para continuar com a história de Lott, Jânio Quadros é eleito em 61. E aí, o que é feito do Marechal?

20:18 - Wagner William:Não, aí ele se recolhe. Ele falou sim que... ele se recolhe, dá entrevista para O Cruzeiro, para a revista

20:33 - Anderson Mendanha: Não durou.

20:34 - Wagner William: E acertou lamentavelmente para o Brasil conseguir uma estabilidade, porque era raríssimo o presidente eleito anterior passar a faixa para o presidente eleito na eleição seguinte. O livro não traz somente essa parte pública do Lott, né? O livro fala um pouquinho da pessoa também, da família. Conta um pouquinho desse trecho.

21:00 - Wagner William: Ah, o Lott era um militar dentro e fora da caserna, né? Ele acordava todo dia 5 da manhã para fazer exercício. A própria campanha... a campanha política dava 8, 9 da noite, ele falava assim: "Não, agora eu tenho que dormir porque eu preciso acordar às 4 da manhã para fazer exercício e fazer ginástica e tal". Ele continuou militar no mundo político e não ia dar certo. Não ia dar certo. Eu não sei... eu não sei o que aconteceria se ele ganhasse, mas que ia ser aspas "divertido" ia, o que que... o que que ele iria fazer.

21:40 - Anderson Mendanha: É, podia às vezes não ser divertido para as pessoas da época, mas pra gente hoje...

21:44 - Wagner William: Não, ia ser interessante... ia ser interessante saber as histórias, do "e se", né? É o "e se" que a história não perdoa, né?

21:52 - Anderson Mendanha:E depois que ele se recolhe, como foi o fim da carreira?

21:55 - Wagner William: Tem uma passa... tem duas passagens históricas. A primeira é que no governo... o Jânio renuncia e todo mundo que havia criticado a campanha do Lott vai para o apartamento do Lott, mas é coisa de ficar... ter que ficar com a porta aberta porque já não cabia gente. E ele telefona para o Brizola e dá as orientações de que generais ele tinha que procurar para montar a rede de legalidade. Isso é muito importante. O Lott fala: "Olha, procure esse general, esse não, esse sim". E essa movimentação. Aí ele redige, a equipe dele redige uma nota fortíssima a favor da posse do João Goulart, a favor do... do cumprimento da Constituição. "Presidente renunciou, assume o vice", né? Só que os militares... o trio militar não estava querendo, os trio de ministros militares do Jânio Quadros, que a rigor não... como Gustavo Capanema ensinou, a renúncia é um ato unilateral: renunciou, não tenho que aceitar ou não, renunciou está renunciado, né? E aí o Odílio Denys, o antigo segundo homem do Lott, o ex-segundo homem do Lott, manda prender o Lott. E é engraçado que primeiro vai um coronel, né? Aí ele fecha a porta na cara do coronel, fala assim: "Não, aí é o fim, né? Um coronel prender um marechal? Isso aí..." Aí tem que buscar o Marechal Sucupira, que já estava na reserva, arrumar uma farda para ele, que ele era mais antigo que o Lott, para dar a voz de prisão. E tem um detalhe meio cruel aí que você percebe que há uma mudança no trato dos militares: o Denys manda o Lott para a Fortaleza da Laje, na Baía de Guanabara, que era um presídio escavado na pedra, era uma ilha que era um presídio escavado na pedra. Ele fica lá por um bom tempo até o... quando o Jango consegue a posse, ele é libertado. Mas esse... esse momento é meio chocante.

23:51 - Anderson Mendanha:Porque tr

23:55 - Wagner William: Exatamente. E é o seguinte: todas as prisões... até o próprio Lott quando prendeu o Amorim do Vale, o Ministro Amorim do Vale, prendeu o Golbery, prendeu nos gabinetes. "Ah, está preso no gabinete com um cafezinho sendo servido", né? Está preso no gabinete, depois vai ser preso numa unidade militar com toda a... só não pode sair da unidade militar, a sela nem existe, né? A pessoa fica lá dentro circulando. E é bem cruel... é uma mudança importante, porque... como assim? Vai prender o seu ex-... o seu ex-comandante, você manda... e manda para a Fortaleza da Laje? É meio chocante isso. E a outra coisa é... o Lott a partir daí toma posse, tudo bem, segue o governo João Goulart tranquilo, recolhe-se, vai para Teresópolis. É importante isso: vai para Teresópolis numa... numa casa... vai cuidar das flores dele, uma casa... não era uma casa de campo, era uma casa que ele morava lá, mas fica da missa para casa, da casa para a missa e é isso, aquela vida já de aposentado. Ocorre 64, ele se manifesta contra 64, mas não... isso aí não... manifesto numa... não atinge repercussão alguma. Só que tem eleição para governador depois, na sequência. E ele se candidata e candidata a... Pelo que eu entrevistei dos... dos parentes e da equipe até que... dos publicitários que iam fazer a campanha, havia um novo... ele estava disposto a aceitar novas visões e estava mais já afastado, tal. Homologada pelo partido, oficializada pelo partido, né, ele ia sair pelo PTB, candidato a governador da Guanabara, mas morava em Teresópolis. Aí...

25:41 - Anderson Mendanha:Só para o ouvinte mais novo saber, naquela época a Guanabara se restringia praticamente à cidade do Rio de Janeiro. É o Grande Rio àquele estado. E o estado e Petrópolis fazia p

25:54 - Wagner William: Perfeito. É verdade. Bem lembrado, que às vezes a pessoa não... os mais novos não vão saber. Perfeito. O Lott, ele sai fazendo uma campanha boa e as pesquisas indicam uma vitória disparada. Porque ele já tinha tido uma... uma votação fortíssima no Rio — no Rio e na Guanabara para presidente fazendo uma campanha péssima, né? Então para governador ia ser... ele iria vencer. Isso aí não é... não é palavra de biógrafo otimista não, ele iria vencer. Só que, Anderson, a lei do domicílio eleitoral é criada para impedir...

26:30 - Anderson Mendanha: Justamente para isso?

26:31 - Wagner William: Para impedir a campanha do Lott. Hoje, a mesma lei do domicílio eleitoral de hoje foi criada de forma retroativa. Estou dizendo, como eu falei antes, o Brasil não é para amadores, né? Pra gente encerrar nosso bate-papo, né, senão a gente ficava aqui o tempo todo falando de história do Brasil, de curiosidades... Aí eu queria encerrar com uma curiosidade: na sua longa pesquisa para escrever o livro, né, se não me engano aqui nos meus papéis mais de 100 entrevistas, né?

27:01 - Wagner William: Sim, mais de 100.

27:03 - Anderson Mendanha: Que você fez ao longo desses 20 anos depois que o livro já foi publicado... Qual o fato curioso assim da vida do Lott, além desses que você contou, mas aquele que te chamou mais atenção, que você olhou e disse: "Nossa, isso aqui vale a pena estar no livro"?

27:23 - Wagner William: Você vai até rir, mas eu acho que a maneira como ele fez a campanha. A gente comenta assim: "Ai, que absurdo fazer essa campanha!", mas espera aí. Ser brutalmente honesto e verdadeiro é o erro? Vamos pensar... a gente tem que pensar isso aí. De repente não... não seria o ideal se todos fossem assim? Falar assim: "Olha, não adianta, eu vou priva..." A mesma coisa é um comício no Brás — um comício no Brás com várias bandeiras comunistas. Ele: "Agradeço o apoio, mas queria dizer que sou contra o comunismo".

27:59 - Anderson Mendanha (Rindo): Uau.

28:01 - Wagner William: E aí, e aí por sorte também na época da entrevista, havia muitas pessoas que estavam naquele caminhão, entrevistadas separadamente, que confirmam essa história. O pessoal abaixava a bandeira das costas e ia embora, né? Ele jogava esses... esses eleitores no colo do Jânio Quadros, né, que falava qualquer... falava ó o que interessa para... se falava com pescador, falava o discurso que o pescador queria ouvir; se falava com motorista, falava o discurso que o motorista queria ouvir, e assim vai, né? E, Anderson, ainda há mais um momento dramático também, mas acho que não vai dar pra gente conversar, mas que é o neto dele é preso na luta armada, preso e brutalmente torturado. Mas agora essa fica para o leitor.

28:46 - Anderson Mendanha: Essa fica para o leitor então. Wagner, muito obrigado aqui pela conversa, obrigado por estar presente aqui no estúdio da Rádio Senado pra gente falar um pouco dessas histórias do Brasil que ficam ali meio esquecidas. Parabéns por tantas edições do livro e o livro está aí de volta, né, nas livrarias, nos portais da internet. E se alguém quiser te encontrar nas redes sociais, como é que faz?

29:10 - Wagner William:É o Instagram, é Wagner William tudo junto com "m" de Maria no final.

29:16 - Anderson Mendanha: Muito bem então. Wagner, obrigado pela sua presença e até uma próxima oportunidade.

29:20 - Wagner William:Eu que agradeço, muito obrigado.

29:22 - Anderson Mendanha: Essa então foi a conversa com Wagner William sobre o livro "O Soldado Absoluto: Uma Biografia do Marechal Henrique Lott". Uma leitura essencial para quem quer entender os bastidores da política e da história do Brasil. Eu sou Anderson Mendanha e o Autores e Livros Dose Extra vai ficando por aqui. O programa de hoje contou com trabalhos técnicos de João Lira e Josevaldo Souza. Um grande abraço e até a semana que vem. Boa leitura!

29:53 - Locutor da Rádio Senado: Acabamos de apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica sobre o mundo literário.