O Globo, n 32.364, 17/03/2022. Mundo, p. 15

IMPULSO ÀS NEGOCIAÇÕES

André Duchiade


RÚSSIA INDICA ACEITAR UCRÂNIA NEUTRA E DIZ VER AVANÇO DIPLOMÁTICO PRÓXIMO

Após quase três semanas de guerra, autoridades russas indicaram, ontem, que Moscou está disposta a aceitar que a Ucrânia mantenha suas próprias Forças Armadas para autodefesa, contanto que se comprometa a desistir de entrar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), num detalhamento importante das condições de um possível acordo de paz para encerrar a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Segundo explicou o chanceler Sergei Lavrov, o modelo aceitável para Moscou seria comparável aos da Áustria e da Suécia. O país disporia de Forças Armadas para se defender de agressões, mas se declararia neutro em futuros conflitos, comprometendo-se a não se unir a nenhuma aliança militar e não sediar bases militares estrangeiras. De acordo com o jornal britânico Financial Times, o plano de paz em discussão entre os dois lados teria 15 pontos.

EUA E RÚSSIA CONVERSAM

Ainda não há informações sobre como uma possível redução das sanções impostas por países ocidentais contra a Rússia faria parte de um acordo, se é que faria. Ontem, autoridades de Moscou e Washington se falaram pela primeira vez, numa conversa entre o conselheiro de Segurança Nacional americano, Jake Sullivan, e Nikolai Patruchev, secretário do Conselho de Segurança russo. O lado russo não divulgou detalhes do diálogo. Já segundo o lado americano, Sullivan teria dito a seu colega que, se a Rússia está levando a diplomacia a sério, deveria parar os ataques.

—O status neutro agora está sendo seriamente discutido, junto, é claro, de garantias de segurança — disse Lavrov à BBC russa. —Agora isso está sob discussão nas negociações. Há formulações absolutamente específicas e, na minha opinião, um acordo sobre elas está próximo.

Lavrov disse que “o clima de diálogo que começou a surgir nos dá esperança de que possamos concordar especificamente sobre esse tópico”.

—Embora esteja claro que o problema é muito mais amplo, se pudermos proclamar neutralidade e declarar garantias, será um avanço significativo.

As informações mais específicas foram oferecidas por Vladimir Medinsky, o principal negociador da Rússia, que disse à TV estatal russa:

— A Ucrânia está oferecendo uma versão austríaca ou sueca de um Estado desmilitarizado neutro, mas ao mesmo tempo um Estado com seus próprios Exército e Marinha.

Desde o início da invasão, no dia 24 de fevereiro, a Rússia aponta a neutralidade e a desmilitarização da Ucrânia como condições para o fim da guerra. O termo neutralidade é muito abrangente e inclui desde países que não têm Forças Armadas, como a Costa Rica, a outros que têm Exército, como a Áustria e a Suécia. Agora, a Rússia indica estar disposta a aceitar que a Ucrânia mantenha seu Exército, entendendo a neutralidade armada como uma forma de desmilitarização.

Após a fala de Lavrov,o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que “esta é uma variante que está sendo discutida e que pode realmente ser vista como um compromisso”. Peskov disse que ainda é cedo para prever um acordo entre as partes.

—O trabalho é difícil e, na situação atual, o próprio fato de (as negociações) continuarem é provavelmente positivo.

A Ucrânia várias vezes indicou estar disposta a desistir da entrada da Otan, contanto que receba garantias de segurança. O presidente Volodymyr Zelensky — que, na terça-feira, deu um dos mais explícitos sinais de que pode desistir da intenção de se unir à aliança — também disse que as negociações avançam, mas um acordo ainda não é iminente:

—As reuniões continuam e, estou informado, as posições durante as negociações já parecem mais realistas. Mas ainda é necessário tempo para que as decisões sejam do interesse da Ucrânia — afirmou Zelensky.

O negociador-chefe ucraniano, Mykhailo Podolyak, disse que um modelo de garantias de segurança formalizadas, que ofereceriam proteção à Ucrânia por um grupo de aliados no caso de um ataque futuro, estava “na mesa de negociações”. Segundo ele, os signatários deveriam se comprometer com uma intervenção em caso de agressão à Ucrânia.

Podolyak evitou comparações com modelos de outros países. “A Ucrânia está em guerra direta com a Rússia. Portanto, o modelo só pode ser ‘ucraniano’ e apenas com base em garantias sólidas em termos de segurança”, afirmou.

A sugestão do negociador ucraniano evoca o Artigo 5 da Otan, que prevê a defesa mútua dos países-membros, e pode ser obstáculo à negociação.

3 MILHÕES DE REFUGIADOS

Além da neutralidade e da desmilitarização da Ucrânia, a Rússia apresentou outras condições, como o reconhecimento por Kiev da independência das províncias separatistas no Leste ucraniano e da soberania russa sobre a Península da Crimeia, anexada em 2014. Outra condição era a “desnazificação” da Ucrânia, em geral entendida com uma mudança de regime, com a substituição do atual governo por um aliado de Moscou, O governo russo desde a semana passada passou a afirmar não querer tirar Zelensky do poder.

A guerra faz três semanas hoje. Mais de três milhões de pessoas já fugiram da Ucrânia, segundo a ONU. As estimativas de mortos variam, mas chegam a oito mil, entre civis e militares, do lado ucraniano, e até seis mil do lado russo.