Autores falam da Flip - Festa Literária Internacional de Paraty 2024

[00:00] Locutor: Passamos a apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica semanal sobre o mundo literário.

[00:14] Anderson Mendanha: Olá pessoal, começa agora mais um Autores e Livros, a revista literária da Rádio Senado. Hoje, um programa especial dedicado à FLIP, Festa Literária Internacional de Paraty, com a participação de autores como Hermes Coelho, Kiuzam de Oliveira, Cláudio Fragata, entre outros. Sou Anderson Mendanha e vamos juntos.

A FLIP 2024, realizada entre 9 e 13 de outubro, reuniu cerca de 27 mil pessoas pelas ruas de Paraty, com muita literatura, debates, entrevistas, bate-papos e sessões de autógrafos, além de pocket shows e lançamentos de livros. A FLIP registrou a presença de escritores como Carla Madeira, Jasmila Barreira, Juan Cardenas, Aleph Abdu Saef, Mohamed Mugar Sah, Mary Scott, Kala Gerson, Jeferson Tenório, entre outros, incluindo artistas, celebridades, políticos e formadores de opinião. Além dos debates entre autores, a programação oficial deste ano homenageou o escritor carioca João do Rio, pseudônimo literário do escritor, jornalista e dramaturgo Paulo Barreto, um dos mais importantes do início do século XX.

E quem esteve na FLIP foi o poeta Hermes Coelho, autor dos livros Nu e Violado, que lançou em Paraty seu terceiro livro de poesias, Eclipse. A obra, publicada pela editora Patuá, reúne poemas que abordam a força do que não parece visível, mas se faz presente ainda assim, para abordar o trauma da descoberta de que foi contaminado pelo vírus HIV e seus desdobramentos. Na entrevista da semana, Hermes Coelho fala pra gente desse livro e de como foi participar da FLIP.

[02:04] Vinheta: Entrevista.

[02:11] Anderson Mendanha: Hermes Coelho, bem-vindo mais uma vez aqui ao Autores e Livros. Você que esteve na FLIP lançando seu terceiro livro, Eclipse. Vamos falar um pouquinho da festa? Como é que foi por lá? Cinco dias de festa, conta pra gente.

[02:27] Hermes Coelho: Anderson, primeiro muito obrigado por me receber mais uma vez, é sempre uma alegria participar do Autores e Livros aqui na Rádio Senado. A gente chegou à FLIP... dos cinco dias eu consegui participar de três, os três dias cheios que a gente chama, né? Que foi quinta, sexta e sábado.

A FLIP, só para ficar bem claro para quem está em casa, é a Festa Literária Internacional de Paraty, que é o maior evento literário do Brasil. As pessoas pensam muito nas Bienais de São Paulo e Rio, mas a FLIP atrai autores do Brasil e do mundo, né? Essa é a marca da FLIP e é muito interessante como vai muito estrangeiro lá. O evento esse ano foi aquele caos de sempre, essa foi a segunda FLIP que eu participei como autor, né? Lancei meu terceiro livro lá, o Eclipse.

E assim, são muitos eventos paralelos. Então tem a programação principal e você quer acompanhar tudo, mas ao mesmo tempo tem as casas das editoras com muitos eventos paralelos muito interessantes. E inclusive a própria FLIP também faz programações paralelas. Então você fica tentando organizar... enquanto você quer ver o Édouard Louis, que foi a principal atração, né? Um dos grandes expoentes da autoficção, você quer ver, aí ao mesmo tempo você quer ir para outra mesa para ver o João Silvério Trevisan, que já é vencedor do Jabuti, agora está finalista do Oceanos, que é um dos grandes escritores contemporâneos, né? Também autor LGBTQIA+. E aí você quer ver as escritoras, as mesas temáticas relacionadas à questão racial... enfim, você quer ver um pouco de tudo, não dá tempo. Chove também nessa época, chove mais do que o normal. A FLIP antigamente acontecia em julho, até poucos anos atrás. Então a gente tenta se organizar, mas é aquele caos saboroso, porque mesmo que você não consiga fazer metade do que você se propôs, você ainda sai com muito, né? Com muito conhecimento, descobrindo coisas novas e disposto a voltar no ano que vem. Não só como autor, tá? Qualquer pessoa que vai... eu vi tantas pessoas que vão anualmente, tiram as férias para ir nessa época porque realmente é encantador. Para quem gosta de literatura, não tem evento igual.

[04:41] Anderson Mendanha: Segundo os números, a cidade recebeu cerca de 27 mil pessoas, ocupação de quase 100% dos hotéis e pousadas da região. Eram 29 casas literárias, mais a principal, a programação principal. Muita gente, muitos autores do Brasil e do exterior, autores internacionais, muita gente famosa e, principalmente, muita gente independente por lá. Como é que você viu essa programação independente, esses autores que estão lá batendo perna, que nem você, para lançar o livro, para fazer a publicidade? Porque eu sei que o autor de verdade, ele não quer vender o livro, ele quer que as pessoas leiam o livro. Fala um pouquinho dessa realidade.

[05:32] Hermes Coelho: E essa é a principal realidade, né? Assim, a gente tem o evento principal, a gente tem os nomes consagrados, né? Mas a maior parte das casas está recebendo autores independentes, né? Que são os autores que ainda não chegaram no mainstream, não estão nesse espaço já consagrado das grandes editoras. Eu sou um deles, participei de uma casa exatamente de autores independentes, que é a Casa Gueto, que é organizada pela editora Patuá, que é uma das principais hoje, talvez a principal editora independente do país, com autores que ganham prêmios reconhecidos nacionalmente e internacionalmente, né?

Esse cenário é muito rico porque o que é que acontece? É como você disse, o autor ele quer ser lido, né? Ótimo se você for um Itamar Vieira Junior, que você é lido e você vende bem, né? Mais de um milhão de cópias, olha que maravilha. Mas o autor, antes de chegar num patamar desse, se é que um dia vai chegar num patamar desse, ele quer que a obra dele seja lida. Então é uma oportunidade para o autor independente de levar a obra dele para outros autores, outros editores e encontrar leitores. Na FLIP que eu fui no ano passado, eu fiz essa troca com editores e autores, mas esse ano teve gente que leu a sinopse do meu livro e foi atrás para comprar. E isso é muito rico, né? É um momento que você não consegue esquecer. Pessoas: "Ah, eu li a sinopse do teu livro, eu quero comprar teu livro". E não era autor, não era editor, era um leitor. Eu acho que essa é a alegria de todo mundo que escreve e que publica. Hoje a FLIP, ela movimenta um mercado independente gigantesco e a tendência é crescer cada vez mais. E que bom, né? Porque a gente vai tentando diversificar a literatura brasileira, literatura contemporânea e chegar a todos os públicos.

[07:33] Anderson Mendanha: E rapidamente, vamos falar do Eclipse. Fala um pouquinho desse livro.

[07:39] Hermes Coelho: O Eclipse é o terceiro livro da minha trilogia do trauma, né? Quem lê minha poesia sabe que ela bebe da dor. Então, o primeiro livro é o Nu, que eu brinco que é vestido (risos), ele não é nu de verdade, eu era muito jovem quando escrevi, ganhei um concurso e publiquei, o prêmio era a publicação do livro. Ele traz o trauma de ser poeta num mundo cada vez menos lírico. O segundo é o Violado, que fala do trauma do abuso infantil e a ressignificação diante disso. E o Eclipse é o terceiro, que traz o trauma mais recente, já homem maduro, homem vivido, descobrindo que vive com HIV e lidando com isso. Então são três traumas, né? E fechando essa trilogia.

[08:22] Anderson Mendanha: E como é que foi a recepção do livro lá em Paraty?

[08:26] Hermes Coelho: Impressionante, foi muito positiva. Eu pensei que o livro fosse sofrer algum tipo de preconceito, muito pelo contrário. Pela temática e pela coragem, as pessoas ficavam mais curiosas e interessadas, né? Eu pensei que as pessoas... porque essa palavra é uma palavra maldita ainda, né? HIV, ninguém fala. A gente, até por falta de informação... eu me infectei por falta de informação. E aí, quando você faz um livro de poesia que tem como tema principal, que é o mote... o livro não é só sobre isso, mas ele bebe dessa fonte inicial... e você pensa que as pessoas vão rejeitar, vão rechaçar, e elas acolhem e elas querem ler e elas gostam do livro, que é o mais impressionante também. Porque assim, como o tema é maldito, você acha que a pessoa não vai ter uma predisposição para ler aquele livro de maneira aberta. E não, até poetas que eu reconheço já viraram e disseram: "Olha, é seu melhor livro". E isso me deixa muito feliz.

[09:28] Anderson Mendanha: Hermes Coelho, eu vou encerrar nosso bate-papo aqui te convidando para voltar para a gente conversar com mais calma sobre Eclipse e sobre sua poesia. Já fica o convite.

[09:37] Hermes Coelho: Já está aceito o convite, vai ser uma honra, Anderson.

[09:40] Anderson Mendanha: Eclipse, de Hermes Coelho, está disponível no site da editora: editorapatua.com.br. E convido você a acompanhar o trabalho do Hermes no Instagram em @hermescoelho.

Todo ano a FLIP recebe um grande número de autores que participam das atividades promovendo seus livros e falando sobre temas e interesses que motivam sua escrita. Eu trago agora a participação de alguns desses autores e autoras que estiveram em Paraty na festa deste ano. A gente começa com Marcelo Maluf, que conta um pouquinho do seu mais recente livro: Você Já Olhou Para o Céu?.

[10:21] Marcelo Maluf: Olá, meu nome é Marcelo Maluf, sou escritor, me dedico bastante à literatura infantil, infantojuvenil e juvenil. Tenho mais de dez livros publicados nessa área e estou aqui hoje para falar do Você Já Olhou Para o Céu?, da Elo Editora. Esse livro conta a história do Érico, um garoto de 11 anos que é apaixonado por olhar para o céu e isso cria alguns problemas na vida dele, porque ele olha muito para o céu e olha menos para o chão, para a frente. Então todo mundo diz: "Érico, para com isso, para de olhar tanto para o céu". Mas a tia Luce, que é uma tia que compreende bastante o Érico, ela ama poesia, ela diz: "Para, deixa, a tia Luce gosta do que você faz, está certo você olhar para o céu". Só que tem uma coisa, a tia Luce não está bem, ela está um pouco mal de saúde e ele tem que lidar com a possibilidade da perda então dessa tia. Outras coisas acontecem nesse livro, como por exemplo ele se apaixona por uma menina da escola chamada Fernanda, que também gosta das coisas que ele gosta, e a tia Luce acaba ajudando ele a escrever uma carta para ela. Mas eu quero então convidar vocês a conhecerem o livro Você Já Olhou Para o Céu?, Editora Elo. E ah, um detalhe: esse livro recebeu o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional de Literatura Infantil e Juvenil agora, esse ano. Estou muito feliz com isso.

[11:47] Anderson Mendanha: Esse livro é lindo demais, traz uma história que emociona e sensibiliza. Além disso, as ilustrações da Naty Grego são simplesmente maravilhosas. É um livro que realmente merece o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Quem também esteve na FLIP foi Socorro Acioli para o lançamento do livro Tudo o Que Existe é Palavra, obra que fala do poder das palavras. Todas as coisas que existem, ou não, são feitas de palavras, sejam elas inventadas, invertidas ou não ditas. Reconhecer sua importância e onipresença é o fio condutor dos seis contos que compõem Tudo o Que Existe é Palavra, um lançamento da Pera Book Editora. Com um tom poético e reflexivo, Socorro Acioli estimula a imaginação das crianças e conduz o leitor a diferentes situações que envolvem a linguagem, seja aprender a gostar do próprio nome, encontrar um lugar onde se sinta bem, ou se atrapalhar ao conhecer alguém encantador. E as colagens de Elo Babi complementam o tom poético da escrita. Seus personagens interagem com a narrativa e ajudam a visualizar e a entender melhor as metáforas e comparações do texto.

Autores e Livros de volta, sou Anderson Mendanha e obrigado sempre pela sua companhia. A gente destaca agora também a participação de Kiuzam de Oliveira, autora de A Coragem de Danço. Ela também esteve na FLIP deste ano e fala um pouquinho desse livro pra gente.

[13:27] Kiuzam de Oliveira: Salve salve pessoal, sou Kiuzam de Oliveira, escritora. Esse livro traz a mensagem do quanto que os bebês de três anos buscam a sua autonomia, se firmarem no mundo, explorando o universo onde moram, e o quanto isso é necessário. E o quanto é necessária uma mãe abrir mão de todo o amor, de todo o seu cuidado e necessidade de proteção do bebê para deixá-lo simplesmente ser. Claro que também com um amor, mas não um amor ocidentalizado. Talvez um amor afro-referenciado, como eu tento trazer em minha literatura, em meu fazer acadêmico e enquanto profissional da educação. Esse livro foi ilustrado por Paulica Santos, tem uma ilustração que coloca o livro em explosão de cores e amores e sabores e cheiros. Esse bebê junto com essa mãe acaba sendo marcado por ilustrações extremamente afetuosas e que trazem à memória situações vividas por nós mesmos, como triciclo, capoeira, o samba... então são situações afro-referenciadas extremamente comuns no Brasil e que estão presentes nesse livro.

[15:05] Anderson Mendanha: Kiuzam de Oliveira é conhecida pela força e representatividade de suas obras, com histórias que trazem uma abordagem extraordinária de questões étnico-raciais e diversidade de gênero. Se você quer livros que realmente trabalham questões urgentes e necessárias para o nosso tempo, recomendo enfaticamente as obras da Kiuzam. Você pode conhecer mais do seu trabalho lá no Instagram no perfil @mskiuzam, com K. Outra autora que esteve na FLIP foi Angela Pappiani, autora de A Jornada de Ero-Eon. Angela Pappiani é jornalista, escritora e produtora cultural. Ela tem uma trajetória muito interessante dedicada à promoção da cultura dos povos originários. Trabalha desde a década de 1980 em parcerias com povos e organizações indígenas em projetos que têm a proposta de valorizar, proteger, afirmar e divulgar a tradição, a arte, a cultura e o pensamento dos povos originários. Vamos ouvir Angela Pappiani falando um pouquinho desse livro.

[16:13] Angela Pappiani: Meu nome é Angela Pappiani e eu sou autora do livro A Jornada de Ero-Eon, que é uma história que se passa no cerrado brasileiro, no Centro-Oeste, bem no coração do país, com o povo Xavante. E é uma história que me toca muito de uma menina que tem uma tentativa de levá-la para a cidade para ela ser criada por uma família na cidade grande e ela se rebela, ela não quer, ela tem um afeto muito grande por suas raízes e pelo lugar onde ela nasceu e viveu e ela volta sozinha para casa. É um desafio, são três dias sozinha cruzando o cerrado até chegar em casa. E eu acho que o livro traz isso, traz essa ligação profunda da pessoa indígena com o lugar onde nasceu, o conhecimento que uma criança tem do seu território e a sua capacidade de sobreviver nesse lugar e os afetos todos, né? Então é isso, é uma aventura de uma menina do povo Xavante no cerrado brasileiro. E essa história foi ilustrada lindamente pelo Maurício Negro, que é um ilustrador incrível, um autor incrível, e eu tenho uma alegria muito grande de tê-lo junto, né, nessa parceria. E isso tornou o livro um objeto maravilhoso. E eu convido todo mundo a conhecer A Jornada de Ero-Eon.

[17:59] Anderson Mendanha: Meu destaque agora é para o escritor Cláudio Fragata, autor de Dois Corações, uma publicação da Pera Book Editora. Cláudio Fragata é escritor de livros infantis e juvenis, jornalista, professor de escrita criativa, colaborou com importantes veículos de imprensa brasileiros, entre eles o jornal O Estado de S. Paulo e as revistas Globo Ciência, Galileu, Gula e Recreio. Ganhou o Prêmio Jabuti em 2014 com o livro Alfabeto Escalafobético. Para o Autores e Livros, Cláudio Fragata falou da importância dos livros e da literatura para a formação das crianças.

[18:37] Cláudio Fragata: E eu tô muito feliz porque eu tô vendo muita movimentação aqui em torno da literatura e a literatura, na minha opinião, ela é fundamental, principalmente para as crianças, né? Qual é a importância de um livro na vida de uma criança? É fundamental, é apenas isso, né? O livro, ele amplia o conhecimento do mundo, né? Ele estimula a imaginação, ele é um companheiro realmente da criança, do leitor. Isso vale inclusive para leitores adultos, né? É lazer, é divertimento, é um objeto assim que não pode faltar em nenhuma casa, em nenhum lugar e, sobretudo, na mão das crianças, né? Vale mais do que mil dias na escola, sabe? Uma boa leitura, a criança ser transportada para esses mundos que ela não conhece mas vai conhecer, vai viver, vai experimentar. E sim, você dar um livro de presente contribui demais para o desenvolvimento intelectual e emocional de uma criança. Tem que se transformar numa rotina ganhar livros. E eu tenho aqui minhas teses, né? Então, não adianta nada você comprar um livro e socar esse livro à força para a criança ler, né? Sobretudo se ela ainda não tem esse hábito. Porque a leitura é um hábito, é uma descoberta, eu prefiro dizer isso, que a leitura é uma descoberta. Quando a criança desvenda esse mundo da fantasia, da literatura, ela se transforma. Acho que ninguém é a mesma pessoa depois de ler um bom livro. Então o que eu recomendo é assim: você quer dar um livro de presente para uma criança que não tem ainda esse hábito de ler, compre, deixe por perto. É importante assim, que os livros fiquem ao redor dela e que há o momento em que ela vai descobrir, né? As crianças são curiosas, há aquele momento em que ela vai pegar esse livro, vai folhear, vai olhar as ilustrações, vai ler e ela vai se deslumbrar. Aí ela já estará adentrando esses mundos, né, da fantasia e do qual certamente ela nunca mais voltará.

[21:34] Anderson Mendanha: Dois Corações, escrito por Cláudio Fragata com ilustrações de Anita Prades, conta a história da pequena Maria Flor que vive na cidade de Dois Corações e que tem duas grandes paixões: o piano e as férias na praia com a sua prima. Ela já fazia a mala para a viagem tão esperada quando descobriu que o plano da família era outro. Com raiva e frustrada por não poder ir à praia, Maria Flor se vê diante da visita do seu avô, Miroslav. O que a menina não imaginava era que a presença do avô traria novas melodias à sua vida. Dois Corações nos convida a mergulhar em histórias de amor, encontros inesquecíveis e memórias que aquecem o coração.

E chegou a hora do Encantos de Versos, que hoje nos traz um pouco da poesia de Alberto da Costa e Silva.

[22:27] Vinheta: Encantos de Versos. Poemas que tocam.

[22:35] Marluci Ribeiro: Olá, hoje o Encantos de Versos traz para você obra do poeta paulistano Alberto da Costa e Silva, que viveu de 1931 a 2023. Ensaísta, diplomata e historiador, Alberto da Costa e Silva foi eleito para a Academia Brasileira de Letras no ano 2000 e presidiu a entidade no biênio 2002-2003. Em 2004, foi escolhido pela União Brasileira de Escritores e a Folha de S. Paulo como intelectual do ano. Dono de vasta produção literária, estreou na poesia em 1953 com o livro O Parque e Outros Poemas. Abrimos nossa homenagem com os versos de Respiro e Vejo, extraídos da obra premiada As Linhas da Mão, de 1978.

[23:25] Alberto da Costa e Silva (Leitura): Respiro e vejo, a noite e cada sol vão rompendo de mim a todo instante, tarde e manhã, que são tecido tempo, chuva e colheita, o céu, repouso e vento. Vergel de aves, vou entre viveiros a caçar com o olhar, passarinhagem dos pequenos sóis e das estrelas que emigram neste céu de goiabeiras. Mas sigo a jardinagem, pó do tempo, o desgosto do espaço, a sombra e o fogo, as florações da luz e da cegueira. E no dia, suspensa a cachoeira, neste jogo sagrado, vivo e vejo o que veio em meus olhos desenhado.

[24:06] Marluci Ribeiro: Alberto da Costa e Silva foi ainda acadêmico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. No ano de 2014, recebeu o Prêmio Camões pelo conjunto de sua obra. Também selecionado do livro As Linhas da Mão, você ouve agora Uma Ausência de Mim.

[24:26] Alberto da Costa e Silva (Leitura): Uma ausência de mim por mim se afirma e partindo de mim na sombra sobre o chão que não foi meu, na relva simples, o outro ser que sonhei se deita e cisma. Sonhei-o ou me sonhou? Sonhou-me um outro e o mundo a circundar-me, o ar, as flores, os bichos sob o sol, a chuva e tudo, ou foi o sonho dos demais que sonha? A epiderme da vida me vestiu, ou breve imaginar de um ócio inútil ergueu da sombra minha carne? Ou sou um casulo de tempo, o centro e o sopro da cisma do outro ser que de mim fala e que sonhando o mundo em mim se acaba.

[25:10] Marluci Ribeiro: Para encerrar nossa homenagem ao poeta Alberto da Costa e Silva, ouça agora Despedida da Morte.

[25:18] Alberto da Costa e Silva (Leitura): Falo de mim porque bem sei que a vida lava o meu rosto com o suor dos outros que também sou, pois sou tudo o que posto ao meu redor se cala. E é pedra ou água, sicia apenas, o teu tempo é a trava que te impede de ter a calma clara do chão de lajes que o sol recobre. Este esperar por tudo o que não corre, nem para, e nem se apressa e é só estado e nem sequer murmura. O que te trazem é o riso e o lamento, o ser amado e o roçar cada dia a tua morte, que não repõe em ti o sem-passado, ficar no teu escuro, pois herdaste e legas um sussurro, um som de passos, uma sombra, um olhar sobre a paisagem. Memória, cálcio, húmus, eis que o mundo nada rejeita sendo pobre e triste no esplendor que nos dá a madrugada.

[26:15] Anderson Mendanha: Agora deixo você na companhia de Arnaldo Antunes interpretando canção dele, Termo Morte.

[26:21] Arnaldo Antunes (Música): Venha, sem aviso, invisível. E me leve o mais subitamente possível. Venha, de repente, imperceptível. E me leve o mais rapidamente possível. Esse é o nosso termo morte. Quando a vida está no fim e a gente já não sabe se a vida foi para mim ou se eu que fui para a vida. Venha, sem aviso, invisível. E me leve o mais subitamente possível. Venha, de repente, imperceptível. E me leve o mais rapidamente possível. Venha, sem aviso, invisível. E me leve o mais subitamente possível...

[27:24] Anderson Mendanha: Esse foi o Encantos de Versos, produzido e apresentado por Marluce Ribeiro. E o Autores e Livros vai ficando por aqui. Sou Anderson Mendanha e o Autores e Livros de hoje teve produção de Ana Beatriz Santos e Gabriela de Macedo, com trabalhos técnicos de Pedro Henrique Vasconcelos e Antônio Carlos Soares. Até a próxima, boa leitura.

[27:48] Locutor: Acabamos de apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica sobre o mundo literário.