João Melo

[00:00] Narrador: Passamos a apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica semanal sobre o mundo literário.

[00:13] Anderson Mendanha: Olá pessoal, começa agora o Autores e Livros Dose Extra, o seu podcast de literatura. Seja muito bem-vindo. Sou Anderson Mendanha e no programa de hoje a gente conversa com o escritor, jornalista e político angolano João Melo, figura destaque da literatura africana contemporânea que tem contribuído de forma significativa para o panorama cultural e político do seu país. Sua obra se insere no contexto da literatura pós-colonial africana de língua portuguesa. Atuando principalmente como poeta e contista, a escrita de Melo é marcada por um olhar crítico e irônico sobre a sociedade angolana e africana, tratando de temas como identidade, política, desigualdade e herança colonial. E João Melo está lançando mais uma obra: “Os sonhos nunca são velhos”. João Melo, obrigado pela sua presença aqui no Autores e Livros. A gente vai conversar um pouquinho sobre a sua literatura e sobre esse novo livro, “Os sonhos nunca são velhos”.

[01:13] João Melo: Bem, antes de mais, obrigado pelo convite para esta conversa. Este livro, na verdade, é o meu quarto livro publicado aqui no Brasil, não é? Saiu por uma editora independente chamada Imensa Editorial na sua coleção Infame Ruído, né? Eu gosto do nome dessa coleção, né? Porque ela diz tudo sobre o projeto, né? E por isso foi com muito gosto que publiquei esse livro com eles, né? Trata-se de um livro de poesia. Eu sou, além de poeta, contista, romancista, etc., mas esse é um livro de poesia com poemas até aqui inéditos, que na verdade fazem parte de um volume maior que eu tenciono publicar em Angola e Portugal com o meu editor habitual, né? A Caminho, do qual eu selecionei um conjunto de poemas mais de cariz histórico, político, social, etc., para ser publicado então nessa coleção da Imensa Editorial. É um livro que me deu muito prazer escrever, mas também muita dor, porque é um livro que fala dos tempos difíceis, complexos e conturbados que nós vivemos. Eu acho que a poesia, a arte, não pode abdicar de uma componente ética, né? Que é fundamental para a nossa vida como seres humanos, né?

[03:22] Anderson Mendanha: O título fala de sonhos, mas o senhor disse também que o livro traz dores. Que sonhos e que dores o senhor tratou especificamente nesse livro?

[03:33] João Melo: Bom, começo pelas dores, né? As dores, né, de muitos de nós ao constatarmos que certas utopias, certos sonhos que tínhamos foram desvirtuados, né? E também as dores pelos acontecimentos a que assistimos hoje em dia: guerras, o genocídio na Palestina, né? O livro tem cerca de 10 a 12 poemas sobre a Palestina que me saíram assim das entranhas, né? Porque o que se passa naquela região do mundo é realmente horrível, né? E ao mesmo tempo da necessidade de lutarmos para preservar os melhores sonhos de que a humanidade também é capaz, né?

[04:50] Anderson Mendanha: O senhor, a sua escrita é marcada por crítica social, por ironia, e acredito que nesse livro esses temas voltam a estar presentes pelo que o senhor já começou a contar. O senhor falou um pouco das dores. E os sonhos? Que sonhos o senhor vê mesmo nesse mundo conturbado de hoje em dia? Temos sonhos bons ou temos apenas sonhos ruins que chamamos de pesadelos?

[05:16] João Melo: O sonho pode ser definido aqui, eu posso definir aqui, esse é o espírito do livro, pode ser definido como esperança, né? Digamos, apesar de tudo, nós temos de seguir em frente e para seguir em frente temos de denunciar, temos de lutar contra a degradação que vivemos. Enfim, não temos bem a certeza do que é que poderá acontecer amanhã, mas temos que ter, pelo menos como indivíduos, como seres humanos, uma certeza: a de que não devemos desistir das nossas lutas, né?

[06:06] Anderson Mendanha: A realidade angolana se modificou muito nos últimos 50 anos, né? Nós tivemos ali guerra civil, tivemos conflitos, tivemos uma situação econômica complicada. E eu acredito que o senhor, como escritor, jornalista e também político, a literatura tem um papel importante no processo de não só de formação de povo, não só formação da cultura, mas também como símbolo de reconstrução. Posso dizer isso?

[06:40] João Melo: Pode, pode sim. Quer dizer, a literatura angolana desde os seus primórdios, sobretudo desde a formação da chamada literatura angolana moderna em meados do século XX, anos 50, 60, sempre teve uma componente além de estética, uma componente ética muito forte e um compromisso com primeiro com a luta pela independência do país e depois pela construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária, etc. É claro que nem todos esses sonhos foram alcançados, né? O país tornou-se independente e isto não é questionável, né? Por mais problemas que o país tenha hoje, ser independente é uma coisa boa, porque todo o colonialismo é mau, né? Não há colonialismo bom, né? Portanto, nós somos independentes e estamos na véspera agora de comemorar 50 anos de independência. Mas a verdade é que nesses 50 anos muitos daqueles sonhos primordiais, fundamentais que muitos de nós tínhamos não se concretizaram, né? E o país vive um momento difícil, complexo, né? Uma crise econômica séria, né? Há um processo de reconciliação interna nacional que avançou muito, mas que no meu entender pode avançar, pode e deve avançar mais ainda, né? Portanto, em suma, conquistamos a independência, mas há um combate, há uma luta para tornar realmente o nosso país um país bom para todos e não apenas para alguns, né? E os escritores angolanos sempre tiveram uma participação através da sua escrita, uma participação no processo histórico de Angola, né? E muitos de nós inclusive também estivemos ligados à política orgânica e exercemos cargos aqui e ali. Mas enquanto escritores, o que caracteriza a literatura angolana é que ela é profundamente crítica do ponto de vista social, político, cultural, etc. E esse viés, essa característica mantém-se nos dias de hoje, né? Fazemos aquilo que nos compete fazer não apenas como cidadãos, mas como escritores mesmo, né? Como eu disse há pouco, toda arte precisa de ser ao mesmo tempo uma realização, uma atividade estética, mas também tem que ter na minha opinião um compromisso ético e histórico, sobretudo com a sociedade e com o mundo a que pertence, né?

[10:16] Anderson Mendanha: Interessante o que o senhor disse, porque eu vejo que tempos difíceis motivam obras mais complexas, seja na arte, na pintura, na música e, claro, na literatura. Sem esse elemento crítico reflexivo onde se olha para a realidade e se comenta a realidade com uma visão ou pessimista ou otimista, a gente não tem uma literatura de peso. O senhor já começou a falar que a literatura contemporânea angolana vem nesse sentido. A sua escrita se modificou nessas últimas décadas? O senhor se sente mais otimista com o futuro do que em tempos passados?

[11:03] João Melo: Não, eu estou mais pessimista, né? Acho que, enfim, não será novidade, né? Os tempos que vivemos em todo o mundo não estão para grandes otimismos dramaticamente, né?

[11:22] Anderson Mendanha: A gente, eu vou usar aqui uma frase que o Papa Francisco, para relembrar ele agora, usou em algumas ocasiões: que nós estamos vivendo uma terceira guerra mundial fragmentada. Não só guerras, vamos dizer assim, físicas, de combates, mas também guerras psicológicas, guerras econômicas. E aí o senhor fala que a visão de futuro é um pouco pessimista. Que caminhos que a gente pode seguir para motivar, aí vou pegar um ponto específico, para motivar nossos jovens para que eles tenham um futuro mais equilibrado do que o nosso?

[12:02] João Melo: Não sei, não sei a não ser que temos que lutar e resistir a um certo projeto mundial, um certo projeto universal de instaurar uma ordem universal tecnofascista. Eu acho que está em curso no mundo inteiro um projeto de construção de uma ordem tecnofascista, né? Ultraliberal, né? Que em nome da tecnologia, em nome da possibilidade individual de cada um de ter sucesso, né? Tende a criar realmente uma sociedade hiperindividualista, super egoísta, atomizada, fragmentada, né? O que só beneficia, digamos assim, as grandes oligarquias tecnofinanceiras que comandam o mundo, né? E portanto acho que o que é preciso fazer é resistir contra esse projeto.

[13:38] Anderson Mendanha: Voltando a falar com João Melo poeta, e a poesia como é que ela se encaixa nessa realidade? Qual o papel da poesia nesse mundo de hoje?

[13:49] João Melo: Bom, a poesia nós temos que fazê-la, né? Como há dias eu vi um meme nas redes sociais, agora chama-se meme, né? Eu vi um meme em que duas personagens se fazem essa pergunta, né? Quer dizer, diante do panorama que vivemos o que fazer, né? E a outra responde: poesia. Os canalhas não gostam de poesia, né? E portanto eu acho que poesia nós temos de fazê-la sempre, temos de insistir nela. Afinal de contas a poesia como a música são duas talvez duas das manifestações artísticas do ser humano mais essenciais, né? Mais realmente ligadas, vinculadas à própria sobrevivência e à própria afirmação do ser humano, né?

[15:02] Anderson Mendanha: E que poesia, eu vou perguntar assim, os jovens em Angola têm produzido? Ou os jovens não se interessam por poesia em Angola?

[15:11] João Melo: Não, há quem se interesse, claro, né? Bom, também há aqueles que querem ficar milionários aos 15 anos fazendo uns TikToks, né? Apenas, né? Sem qualquer preocupação com a cultura humanista, etc., né? Mas há também quem se interesse pela poesia, pela literatura, pela música, que é uma manifestação artística em Angola muito forte, pelas artes plásticas, etc. A arte continua viva, né? E o que se produz nesse momento em Angola pelos autores mais jovens é um pouco de tudo, né? Desde poesia íntima, poesia amorosa, até poesia social, etc. As pessoas felizmente continuam a escrever, né? Embora, enfim, haja problemas outros que têm a ver mais com o mercado, digamos, problemas de edição, de circulação do livro, mas as pessoas estão a escrever, né? E muito jovens também, né?

[16:26] Anderson Mendanha: E pra gente encerrar nosso bate-papo aqui, o senhor fala que é o seu quarto livro que o senhor publica no Brasil, entre esses tantos livros que o senhor já escreveu ao longo da sua carreira. Como é que o senhor vê a relação da literatura angolana com a literatura brasileira?

[16:42] João Melo: Bom, de fato há mais relações entre as duas literaturas do que suponho, do que imaginam o entendimento comum, né? Mesmo o entendimento especializado, né? Ao nível da crítica, da mídia, existe um desconhecimento sobre essas relações que são relações históricas, né? A literatura angolana moderna deve muito a certas correntes literárias brasileiras, nomeadamente ao modernismo brasileiro e ao romance nordestino, né? Foram autores como Graciliano, José Lins do Rego, Bandeira, Jorge de Lima, etc., influenciaram muito os autores angolanos dos anos 50, 60 do século XX, que são os responsáveis pelo surgimento da chamada literatura angolana moderna, né? O que é que os autores angolanos beberam nesses autores? Sobretudo o uso da linguagem simples, da linguagem simples do povo, como dizia um poeta brasileiro, etc., um certo idioleto, né? Que nós reconhecemos em alguma literatura brasileira e que influenciou aqueles autores angolanos fundamentais, né? É claro que essa história vai ainda mais longe, né? Porque a pergunta que se faz agora ou que se pode fazer é de onde vem afinal de contas esse idioleto, né? E eu para responder acho que, e essa é a minha hipótese, acho que esse idioleto brasileiro na verdade nós angolanos é que o trouxemos para cá, né? Daí essas afinidades e essa facilidade de contato que existe, né?

[19:07] Anderson Mendanha: Muito bem então João Melo, obrigado pela sua presença aqui no Autores e Livros e parabéns por mais esse livro.

[19:14] João Melo: De nada, eu é que agradeço esta oportunidade para conversar e para falar um pouco também por vosso intermédio com os vossos ouvintes e leitores, né?

[19:26] Anderson Mendanha: Essa então foi a conversa com o escritor, jornalista e político angolano João Melo. Ele conversou com a gente sobre literatura e sobre o seu mais recente livro: “Os sonhos nunca são velhos”, publicado pela Imensa Editorial. “Os sonhos nunca são velhos” está disponível na Amazon. E o Autores e Livros Dose Extra vai ficando por aqui. Sou Anderson Mendanha e obrigado pela sua companhia. O programa de hoje contou com trabalhos técnicos de Pedro Henrique Vasconcelos. A gente volta a semana que vem com mais literatura para você. Até lá. Boa leitura.

[20:03] Narrador: Acabamos de apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica sobre o mundo literário.