Rafael Sento Sé – A poeta da cidade maravilhosa
00:00 - Locutora (Vinheta): Passamos a apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica semanal sobre o mundo literário.
00:13 - Anderson Mendanha: Olá pessoal, começa agora mais um Autores e Livros Dose Extra, o podcast da Rádio Senado que toda semana traz um conteúdo exclusivo do mundo da literatura. Sou Anderson Mendanha e hoje vamos conversar com o jornalista e pesquisador Rafael Sento-Sé, autor do livro "A Poeta da Cidade Maravilhosa", lançado agora pela Autêntica Editora. A obra resgata a história da francesa Jane Catulle-Mendès, a mulher que encantada pelo pôr do sol sobre a Baía de Guanabara em 1911, chamou o Rio de Janeiro de Cidade Maravilhosa, expressão que atravessou o tempo e se tornou símbolo da capital fluminense. Fruto de uma pesquisa de 13 anos, o livro revela não apenas a trajetória dessa figura fascinante, esquecida pela história, mas também o ambiente cultural e político de um Brasil que começava a ver as mulheres se afirmarem na vida pública. Com base em arquivos, jornais de época e documentos inéditos, Rafael reconstrói a passagem da poeta pelo país e sua ligação com outras intelectuais brasileiras que lutaram por espaço e reconhecimento. Então eu recebo aqui no Autores e Livros agora, Rafael Sento-Sé, pra gente conversar sobre esse livro, "A Poeta da Cidade Maravilhosa". Rafael, seja muito bem-vindo aqui à Rádio Senado, obrigado pela disponibilidade em conversar com a gente.
01:43 - Rafael Sento-Sé: Anderson, é um prazer enorme estar aqui com você e conversar com toda a audiência aí da Rádio Senado e do podcast.
01:54 - Anderson Mendanha: Uma coisa que me interessou já de cara foi descobrir que foi uma mulher que criou o termo "Cidade Maravilhosa". Às vezes a gente tem esses títulos, esses apelidos para a cidade, São Paulo "Cidade da Garoa", né? E o Rio de Janeiro "A Cidade Maravilhosa". Como foi que você descobriu isso? Qual foi o ponto de partida para começar a escrever esse livro?
02:32 - Rafael Sento-Sé: Então, Anderson, eu tive um blog sobre memória e patrimônio do Rio de Janeiro que eu criei... esse blog, é um tema que sempre me interessou, né? O patrimônio histórico do Rio de Janeiro. Eu trabalhava em revista de comportamento com o tema do Rio de Janeiro, a Veja Rio, enfim. E em algum momento eu criei esse blog para fazer a contagem regressiva para os 450 anos do Rio de Janeiro. Isso foi lá em 2012 e naquele momento falava-se muito, né, da Copa do Mundo que seria realizada em 2014, da Olimpíada em 2016 e ninguém tava falando ainda sobre o aniversário da cidade que seria em 2015. Então eu criei esse blog com esse mote de fazer uma contagem regressiva e a ideia era falar sobre um personagem, um episódio que tivesse ficado esquecido ou um novo enfoque sobre episódios já conhecidos, sobre personagens já conhecidos. Então eu tinha uma rotina, né, diária de pesquisar histórias e postava diariamente alguma história sobre o Rio de Janeiro antigo, enfim, sobre os séculos passados, né? E um belo dia resolvi: vou escrever sobre a origem da expressão "Cidade Maravilhosa". E foi assim que... joguei... meu primeiro passo era sempre assim: vou jogar no Google, né, para fazer uma pesquisa inicial. E aí no Google veio duas versões, né? Uma atribuindo ao Coelho Neto, que hoje em dia as pessoas já entenderam que é uma... um pouco forçação de barra assim atribuir a ele isso. E uma outra atribuindo a essa poeta e a minha ideia inicial era reproduzir alguns desses poemas, né? Porque a Jane Catulle-Mendès, né, ela veio ao Rio de Janeiro em 1911, quando voltou para Paris ela lançou um livro, né, dois anos mais tarde com 33 poemas falando do que ela viu. Era uma espécie de diário poético e tinha o nome de "La Ville Merveilleuse" que em português é "A Cidade Maravilhosa". Então eu me deparei com essa versão e fui atrás dela com a intenção de reproduzir algum desses versos do livro no meu blog, nessa postagem. E eu não encontrei nada traduzido para o português e fiquei assim: nossa, um livro tão... de um valor simbólico tão grande para a cidade, como, né, ninguém nunca traduziu isso para o português? E aí eu... e aí como eu descobri que os direitos ainda estavam válidos, né, ainda não tinha caído em domínio público, eu falei: ah, vou procurar alguém que tenha os direitos para eu poder pedir autorização para reproduzir. E aí foi assim que eu comecei a pesquisar sobre ela, né, e me deparar com materiais assim impressionantes assim. E o livro ele traz, resgata, né, muitos dos episódios assim dela no Rio de Janeiro, da Jane Catulle-Mendès no Rio de Janeiro, e também da vida dela em Paris. Mas foi pelo Rio de Janeiro que eu comecei. E aí tinha fotos dela caminhando na Avenida Central, as matérias que os jornalistas escreveram naquele momento falando sobre a vinda dela. Era uma coisa assim que eu: gente, que mulher é essa, né, que tava sendo aguardada assim com uma expectativa enorme? E aí eu comecei a encontrar muitas pecinhas desse quebra-cabeça e eu falei: gente, esse post vai ter que esperar porque senão eu vou dar a dica para alguém ir atrás dela e eu não queria... eu falei: eu que vou escrever esse livro. Então comecei essa pesquisa portanto aí em 2012 e aí é isso, né? Pesquisava, enfim, aí parava, aí tentei escrever umas duas vezes assim... não foram 13 anos ininterruptos pesquisando, mas a história... eu me deparei com essa história há 13 anos em 2012 quando criei esse blog para fazer a contagem regressiva para os 450 anos do Rio de Janeiro.
05:54 - Anderson Mendanha: Antes da gente falar de detalhes da pesquisa, da escrita do livro, chamou a atenção que você já comentou aí que a Jane quando chegou ao Brasil foi um rebu no Rio de Janeiro, né? A imprensa deu destaque, a sociedade reagiu à presença dela. E hoje, 100 anos depois, a gente não sabe quem era a Jane, né? Fala um pouquinho dessa realidade da sociedade do Rio de Janeiro daquela época e por que que a Jane era tão assim celebrada quando ela chegou aqui?
06:33 - Rafael Sento-Sé: Ela era uma grande celebridade naquele momento, né, ali de Paris. E o Rio de Janeiro a gente precisa lembrar que queria, né, emular Paris, né? Queria competir até com Buenos Aires pelo título de Paris dos Trópicos, né? Então tinha essa sociedade sedenta assim por um reconhecimento também, né? O Rio de Janeiro, até no livro, né, o primeiro capítulo do "A Poeta da Cidade Maravilhosa" chama-se "Túmulo dos Estrangeiros", que era o apelido pelo qual o Rio de Janeiro era conhecido até pouco tempo antes da Jane chegar. Porque o porto do Rio de Janeiro, ele tinha... era muito inóspito, né? E era famoso assim por os viajantes, os navegantes que chegavam serem infectados assim pela febre amarela, né, e algumas outras doenças infecciosas ali daquele momento. Então o Rio de Janeiro tinha uma péssima fama. E foi nesse contexto assim, principalmente da modernização do porto do Rio de Janeiro, que surgiu, né, a reforma ali daquela área central ali, que é a antiga Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco. Então o Rio de Janeiro queria imitar Paris, né? O Pereira Passos foi o prefeito ali do... acabou com o morro do Castelo... um pedaço ali, né, que depois o arrasamento definitivo veio um pouco mais tarde com o Carlos Sampaio. Mas o Pereira Passos começou, né, esse movimento. E aí é isso, né? Aquela coisa: o "bota-abaixo" que desabrigou um monte de gente, que foi uma parte... é uma parte bem complexa aí dessa história toda. Mas a Jane ela foi recebida pela elite intelectual e política ali daquela época, né? E era uma elite intelectual e política que queria emular Paris. E quando a Jane chega, é como se tivesse a Paris em carne e osso ali, né, encarnada, né? A cidade de Paris, ela era um símbolo da cidade de Paris. Ela circulava muito assim naquelas estreias do teatro, nos salões parisienses. Então... que ela foi casada com um poeta do qual ela tomou emprestado esse sobrenome, Catulle-Mendès, que era um parnasiano. Até ele criou uma revista que deu origem ao parnasianismo, né? Esse estilo literário. Ele participou ativamente disso. E nesse momento que a Jane veio, o Olavo Bilac era um grande expoente desse gênero literário, né? Então ela era conhecida aqui. Os livros dela não circulavam aqui, mas ela escrevia para algumas revistas que chegavam aqui e ela era muito citada pelos jornais franceses que a elite intelectual daquele momento aqui no Rio de Janeiro, né, lia. Então as pessoas sabiam. A Júlia Lopes de Almeida conhecia a história dela. Uma outra cronista do jornal O País que morreu um pouco antes da chegada da Jane, que é a Carmen Dolores, cita a Jane em 1910 numa crônica que ela escreveu respondendo, enfim, a um outro cronista, enfim. Então tinha esse momento assim de querer ser Paris. Então um belo dia quando ela anuncia que vem ao Rio de Janeiro, é como se Paris tivesse chegando ao Rio de Janeiro. Então... e quando ela chega aqui e se encanta, aquilo foi muito bem recebido, né, pelas elites que estavam sedentas por esse reconhecimento.
09:58 - Anderson Mendanha: E como é que foi esse trabalho de pesquisa ao longo desses treze anos? Imagino que muito tempo de biblioteca, consulta de jornais, revistas da época, a busca por fontes. Chegou a ir a Paris alguma vez para poder complementar as pesquisas? Conta um pouquinho como foi esse processo.
10:18 - Rafael Sento-Sé: Ah, o início da pesquisa foi na Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Até coloco no agradecimento do meu livro, né, o trabalho assim relevantíssimo assim, muito relevante para a memória nacional, né, que é ter essa coleção de jornais digitalizada na Biblioteca Nacional. Então o meu início mesmo da pesquisa foi aí. E tem muita coisa, né? Hoje em dia é uma facilidade muito grande. Imagina antigamente você tinha que ficar ali naqueles microfilmes lendo edição por edição para catar, né, uma coisinha, enfim. E talvez por isso, né, ninguém nunca tenha escrito nada sobre ela até hoje. E então essa ferramenta, né, os jornais digitalizados da Biblioteca Nacional do Brasil foram muito importantes e o início, né, dessa pesquisa. Então hoje em dia você consegue jogar um termo, né, na busca da Hemeroteca e vem... então eu comecei a ler a história da Jane por ali. Mas em algum momento realmente eu senti falta assim... ela tava sendo aguardada no Rio de Janeiro com muita expectativa, a Jane. Então por que, né? Então para explicar o porquê dela estar sendo aguardada com tanta expectativa eu fui pesquisar na coleção de jornais antigos da Biblioteca Nacional da França que também tá digitalizada, né? Isso facilita muito, né? Nossa, assim, grande, grande, grande parte da pesquisa eu fiz de casa, sem sair de casa. Muitos materiais hoje estão disponíveis. É claro que tem algum em algum momento da pesquisa que eu falei: gente, tem alguma força me guiando por aqui, porque a Jane escreveu para uma revista de comportamento feminina de Paris chamado "Femina". E eu tinha que ler essas revistas, né, para poder contar essa história com mais propriedade, né, e explicar é isso: por que que ela tava sendo aguardada aqui com tanta expectativa. Então eu encontrei uma boa parte dessa coleção dessa revista num acervo que tá numa biblioteca de Barcelona. E aí depois que eu tava lendo, enfim, e fiquei mergulhado nisso, eu falei: gente, mas como que eu cheguei até aqui, né? Poxa, procurando no Google, mas eu não lembro assim o que que eu coloquei na para buscar na palavra-chave nem consigo mais lembrar. Agora eu sei o caminho, sei que tá lá. Então... mas eu fui a Paris realmente duas vezes. Uma dessas vezes foi logo no início da pesquisa e eu acho que eu ainda não tava tão preparado assim e eu encontrei o sobrinho-bisneto da Jane, que era um pianista e morava num apartamento enorme cheio de quinquilharia, enfim. Era um senhor que morava sozinho e o meu francês tava um pouco enferrujado naquele momento, então não foi uma coisa que tenha acrescentado muito à pesquisa, mas foi bem emocionante para mim naquele momento, né, encontrar esse senhor, que era o Daniel Boussac. E depois eu voltei no ano passado em 2024 para complementar essa pesquisa no acervo que tem... existe uma biblioteca em Paris do município de Paris, né, que é a Biblioteca Marguerite Durand, que é uma biblioteca especializada em assuntos feministas. A Marguerite Durand, ela foi uma líder feminista parisiense muito importante e ela criou um jornal que foi o jornal que deu a primeira oportunidade para a Jane se expressar literariamente, chamado "La Fronde", que é "A Atiradeira", né, que também tem o sentido de insubmissa, né? A insubmissão tem esse sentido assim de revolta, de rebeldia, insubmissa. E a Jane começou escrevendo para esse jornal "La Fronde" e lá eu encontrei realmente... eu sabia que existia, né, porque consegui pesquisar pela base que tava disponível digitalmente, mas não conseguia acessar os documentos, né, do Brasil, né? Então tive que ir lá e aí encontrei cartas, cartões e alguns recortes de jornais e alguns materiais que foram imprescindíveis assim para poder contar a história da Jane em Paris, que foi uma vida assim mirabolante assim. Parece... a cada coisa que eu ia encontrando, né, ao longo da pesquisa eu falava: não, não é possível assim, porque no livro eu não... eu simplesmente contei com as minhas palavras aquilo que eu encontrei nos jornais e encontrei coisas completamente inusitadas, espetaculares, e que eu falava: não, não é possível que tenha acontecido isso na vida dela, enfim. E isso tá tudo nos jornais e eu coloco no livro e quem tiver a oportunidade de ler vai se surpreender também.
15:01 - Anderson Mendanha: Então a Jane chega aqui no Brasil, se encanta com o Rio de Janeiro, é muito bem recebida, né, pela sociedade da época. E aí você vai contar um pouco dessa trajetória dela por aqui pelo Rio, um pouquinho da história dela. Mas tem uma coisa na quarta capa que chama a atenção, que aí a gente tem que perguntar. Abre aspas: "Este é um livro que revela os pormenores de um triângulo amoroso concretizado em verso de poema formado por uma poeta, pelo Rio de Janeiro e por Paris." A princípio a gente imagina que é um triângulo amoroso entre três pessoas, mas não, é o encantamento pelas cidades, pela Paris e pelo Rio de Janeiro. A gente sabe agora, né, da frase dela "Cidade Maravilhosa", mas qual é o relato que você encontrou dela, o motivo do encantamento pelo Rio de Janeiro?
15:58 - Rafael Sento-Sé: Ela quando veio ao Rio de Janeiro, era uma turnê, né, pela América do Sul. Na verdade ela veio a Buenos Aires e Rio de Janeiro, né? Num primeiro momento ela até falou que iria a São Paulo porque ela veio para fazer algumas conferências. Ela vinha passar três semanas e acabou ficando aqui três meses. Então dá para ter uma noção assim, isso está falado assim, logo que ela chega ela fala: vou ficar três semanas. Mas acaba ficando três meses. E esse encantamento foi assim um amor à primeira vista pelo Rio de Janeiro, com certeza. Porque o que aconteceu? Ela veio primeiro para ir a Buenos Aires e depois ela ia voltar para o Rio de Janeiro. Então... mas o navio fazia uma escala na Baía de Guanabara antes de seguir para Buenos Aires. E aí ela fez essa escala e enquanto o navio ainda estava aqui, um jornalista do jornal O País foi a bordo do navio para apresentar as credenciais do jornal O País, né? Tinha toda uma... tinha todo um cerimonial ali, né, uma solenidade, né? Então o jornalista do jornal O País, é até a primeira parte assim da história, eu começo contando como é que foi essa ida, né, desse jornalista a bordo do navio que trouxe a Jane para a América do Sul. Então nessa escala antes de chegar a Buenos Aires, ela presenciou um pôr do sol na baía e o navio naquela época ele não ancorava, ele não atracava na beira, né, ele ficava ancorado no meio do mar, né? E aí tinha que pegar um botinho, né, e aí esse jornalista ele vai a bordo para conversar com a Jane e esse texto que eu me baseio para contar essa história é uma preciosidade jornalística assim, porque tem tantos elementos assim de uma coisa que no jargão do jornalismo, enfim, quem estuda comunicação, enfim, jornalismo, sabe que é aquilo que chama de "New Journalism", que tinha o Truman Capote e o Joel Silveira aqui no Brasil, enfim, tantos outros gênios aí do jornalismo eram expoentes assim desse estilo que é uma matéria jornalística que tem ritmo, que tem... você fica esperando, né, vai acontecer alguma coisa e conta isso de uma forma muito... é isso, literária, né? Por isso que é o jornalismo literário, é também a expressão usada para se referir ao New Journalism, né? É o jornalismo literário. Então essa matéria o repórter do jornal O País ele vai a bordo e ele conta que tava procurando por ela, aí perguntou para a tripulação, né, um sujeito magro que não sabia, aí perguntou para um, um outro que tinha visto ela, mas que ela tinha ido embora, enfim, tinha ido à terra firme, né? Então ele fica e conta que tava quase desistindo e tava quase voltando quando ele vê um bote vindo. E aí tava a Madame Catulle-Mendès e a sua assistente, que era Mathilde Grimmou. E isso é uma coisa curiosa também, né, que era muito raro uma mulher viajar assim, né, atravessar o oceano sem que fosse na companhia de um homem. E a Jane ela vem na companhia dessa assistente. Então esse jornalista do jornal O País ele relata isso, como é que foi o retorno dela da terra firme, ela... o mar balançando, elas conseguindo subir e aí ele se apresenta a ela e ela convida ele para tomar um chá no navio. Então nessa conversa ela fala desse pôr do sol que ela tinha presenciado na véspera. Então era uma recordação assim de uma pôr do sol que tava muito fresco na cabeça dela e aí ela fala que ficou encantadíssima e até depois ela faz um poema que eu coloco um trechinho aqui que chama "A Chegada à Baía de Guanabara", que é o primeiro poema do livro, né, do "La Ville Merveilleuse" que ela escreveu depois que ela voltou para Paris. E então tem esse momento assim de amor à primeira vista e quando ela chega em Buenos Aires finalmente ela ainda fala lá com o jornalista em Buenos Aires do pôr do sol do Rio de Janeiro. Então é uma coisa que ficou muito marcada na cabeça dela e ela fala nessa primeira entrevista, por exemplo, que era ia ficar três semanas, que ela tinha intenção de ir a São Paulo, uma coisa que nunca se concretizou, ela não saiu do Rio de Janeiro. Não há relatos, por exemplo, de que ela tenha ido a Petrópolis, que era uma coisa muito comum naquele momento, né? Mas assim ela não diz nada sobre Petrópolis, ela não escreve nesse diário poético, no "La Ville Merveilleuse" nada sobre Petrópolis. Então acho que ela ficou no Rio de Janeiro esse tempo todo e encantadíssima e aí no livro realmente eu conto os bastidores assim desse passeio que ela fez pelo Rio de Janeiro, que ela veio para fazer três conferências sobre a mulher francesa, mas ficou muito tempo também, né, circulando e conhecendo os lugares. Ela foi à Praia Vermelha, foi ao Leme, Copacabana, ao Alto da Boa Vista, que era um lugar que os turistas iam muito naquele momento, né? Então eu mostro esse encantamento no livro.
21:18 - Anderson Mendanha: E uma coisa interessante é que a viagem dela tem essa pegada feminista, de valorização da mulher, e no livro você também resgata figuras históricas, mulheres históricas que de uma forma ou de outra ficaram apagadas da nossa cultura, da nossa memória, da nossa literatura. Fala um pouquinho dessas outras mulheres que fazem parte desse contexto também.
21:44 - Rafael Sento-Sé: Essa foi uma parte bem surpreendente pra mim, Anderson, porque num primeiro momento eu achava que o meu livro seria um livro, é isso, uma crônica histórica sobre aquele Rio de Janeiro ali da Belle Époque. E quando eu fui pesquisar sobre a vida da Jane em Paris para contar, né, sobre aquela expectativa que cercava, né, a vinda dela, e aí eu me deparei com escritoras, outras escritoras francesas que faziam sucesso, que lançavam livros, que tinham um público assim, que tinham leitoras, né, leitores e leitoras. E aí me surpreendeu essa encontrar essas mulheres todas escrevendo. Então a Jane ela integrou assim uma geração de escritoras que acreditava na literatura como uma arma feminista assim, né? Era um feminismo diferente das sufragistas inglesas, e que tinha essa figura da Marguerite Durand, que dá nome a essa biblioteca, né, que eu fui fazer a pesquisa. Então essa Marguerite era uma espécie de liderança, porque ela ofereceu oportunidade para muitas dessas escritoras que eu me deparei, né, para elas iniciarem as suas carreiras nesse jornal que ela fundou. E esse jornal para você ter uma ideia, o "La Fronde", era um jornal muito inovador porque toda a equipe do jornal era de mulheres. Não podia homem. Então assim, as repórteres eram todas mulheres. Então quem cobria economia era uma repórter mulher. E naquele momento a Bolsa de Valores de Paris não permitia a entrada de mulheres. Aí por conta da Marguerite, que tinha conhecimento assim, muito bem relacionada politicamente, ela conseguiu liberar a entrada da mulher do jornal, né, dessa repórter, para ir lá cobrir a Bolsa de Valores. Então eu conto muito, o livro acabou se tornando também um livro sobre a representatividade, né, da mulher na literatura e no jornalismo. E quando eu cheguei para contar a história no Rio de Janeiro, já tinha contado a vida da Jane em Paris, aí eu falei: pô, seria interessante se eu conseguisse, né, fazer algo parecido no Rio de Janeiro. E eu falei: ah, tinha a Júlia Lopes de Almeida, né, que hoje em dia dessas que estavam ali ativas era talvez uma das mais conhecidas. E mas eu não... eu falei... eu tava meio assim desesperançoso de que conseguiria, né, fazer esse espelho assim, né, de contar também a história do Rio de Janeiro naquele momento de um ponto de vista mais feminino. E aí eu me enganei porque tinha outras mulheres que hoje em dia também estão completamente desconhecidas, né, apagadas, e que eu consegui encontrar esse recorte. Então eu acho que a Belle Époque é um período, a Belle Époque no Rio de Janeiro sobre o qual já se escreveu bastante, mas eu encontrei esse recorte, esse olhar feminino para esse momento. Então eu conto sobre aquela cidade do Pereira Passos sob o olhar da Júlia Lopes de Almeida, que escrevia crônicas para o jornal O País, da Carmen Dolores, que é o pseudônimo da Emília Moncorvo Bandeira de Melo, e ela também escrevia crônicas para o jornal O País. E a editora aqui do Senado relançou um livro dela recentemente na Coleção Escritoras do Brasil, né, que acho que é "Caminho da Roça", uma coisa assim, né? É uma preciosidade, encontrei esse livro na Bienal do Rio esse ano e eu falei: gente, tenho que comprar. E era assim um valor super acessível, eu falei: nossa, é uma pérola assim. Parabenizo aí a Editora do Senado porque realmente um resgate super importante. Mas também encontrei a Leolinda Daltro, que era uma professora e que eu de alguma maneira entendo que ela exerceu uma liderança semelhante àquela liderança que a Marguerite Durand exerceu em Paris. A Leolinda ela também exerceu aqui porque naquele momento que a Jane veio ao Rio em 1911 tinha pouquíssimo tempo que as mulheres foram às ruas do Catete para celebrar a homologação do Partido Republicano Feminino, que é óbvio que tinha um valor muito mais simbólico ali, mas era uma agremiação que reuniu mulheres ali que estavam interessadas em quererem votar, queriam se expressar, né, de uma forma que não fosse à sombra dos homens. E esse Partido Republicano Feminino tinha a oradora oficial que era uma jovem de 17 anos chamada Gilka da Costa, porque ela ainda não tinha se casado e não tinha assumido o sobrenome pelo qual ela se tornou famosa, que é a poeta Gilka Machado. Essa poeta ela surgiu para as letras ali em 1911, assim de uma forma mais no mesmo ano que a Jane veio. Ela ganhou um concurso promovido pelo jornal A Imprensa e ela se inscreveu nesse concurso com pseudônimo e com o nome próprio dela. E aí o poema que ela inscreveu com o pseudônimo ganhou o primeiro lugar no concurso e o poema que ela inscreveu com o nome próprio ficou em segundo. Então ela ganhou o primeiro e o segundo lugar e ela era a autora do manifesto do Partido Republicano Feminino que eu reproduzo assim. É um texto inédito que nunca tinha lido em lugar nenhum. Conversei com algumas pessoas que pesquisam a vida da Gilka Machado e eles também... essa pessoa não tinha conhecimento desse texto. Então é uma contribuição que o livro traz também para o estudo das questões feministas porque é um texto assim emocionante e que mostra como alguma coisa já avançou, mas como as reivindicações ainda são tão parecidas com aquelas de 1911. É assim... dá um certo alento quando você vê que alguma coisa avançou, mas também você fica assim: gente, mas ainda se reivindica algumas coisas como se reivindicava em 1911 e esse texto é uma coisa assim que é de arrepiar assim.
27:48 - Anderson Mendanha: Muito bem. Pra gente encerrar o nosso bate-papo, o livro traz a tradução de alguns poemas, né? Fala um pouquinho desses poemas pra gente, o que que você tem aí no livro.
27:57 - Rafael Sento-Sé: É, tem esse texto, um trechinho desse poema "A Chegada à Baía de Guanabara", que eu acho que é bem bonito. Se eu puder ler, acho que podia ser interessante. E aí tem outros também, por exemplo, tem um poema que é um dos meus preferidos. Esses poemas, né, eles são... têm uma métrica, né, bem rigorosa, né, dodecassílabos que rimam, enfim. E aí você vê o talento, né, da Jane, né? Impressionante como ela conseguiu, né, descrever a cidade, os lugares que ela visitou de um jeito assim, né, e seguindo ali aquela métrica. Ela devia ficar, né, horas fazendo isso, né?
28:35 - Anderson Mendanha: E a tradução é sua?
28:37 - Rafael Sento-Sé: A tradução é minha assim e é isso, né? Eu fiz... eu não sou um tradutor profissional, mas eu acho que assim para o livro acho que ficaram interessantes assim, mais como uma curiosidade, né? E tem um poema sobre um passeio de uma borboleta pela Floresta da Tijuca, uma borboleta azul, lembrando que naquela época, né, um souvenir muito comum era a borboleta, né? Caçava-se borboleta e empalhava ela como um souvenir ou usava até às vezes as asas que eram azuis para fazer bandejas, né? Era um souvenir muito comum, enfim, uma coisa da época, né, mas que hoje em dia a gente olhando, né, bem cruel, né, com a borboleta. E a Jane ela percebe essa crueldade e ela narra assim o passeio de uma borboleta que tem como destino fatídico virar um souvenir. Então tem um poema narrando isso, que é um dos meus preferidos, que tá no livro também um trecho traduzido. Mas eu vou ler aqui o que ela falou sobre o que ela viu na Baía de Guanabara, que é um trecho do poema "A Chegada à Baía de Guanabara".
Sob as lácteas encruzadas em névoas leves,
Despertam a tremular em seus clarões breves.
Tudo ao redor da baía, aos pés da colina,
E até os altos montes o Rio se ilumina.
Reluzido em teus fachos a constelação,
Do maior dos cumes se juntará a Órion.
E a noite, e sob o charme de tuas mantilhas,
Não se vê além de ti, Rio feito de estrelas.
Veste-te nos céus um outro teu fundamento
E amanhã ousarei chegar ao teu firmamento.
30:15 - Anderson Mendanha: Muito bem então. Rafael, obrigado pelo bate-papo, obrigado pelos esclarecimentos, parabéns pelo livro, pela pesquisa. E a gente... o livro já foi lançado no Rio, tá sendo lançado em Brasília, tá chegando nas livrarias. Acredito que disponível também no site da Editora Autêntica e nos portais da internet como a Amazon e os demais. E se alguém que tá acompanhando a gente aqui, o nosso ouvinte, quiser saber mais sobre esse trabalho, conhecer mais o seu trabalho, você tá nas redes sociais também?
30:46 - Rafael Sento-Sé: Exatamente, Anderson. É só me procurar lá no Instagram @rafael_sentose, que é o meu sobrenome, S-E-N-T-O-S-E. Então pode me procurar, vou ter um prazer em responder dúvidas, perguntas. E o livro é isso, já está disponível e espero que os ouvintes tenham a oportunidade de ler, que é um trabalho assim de resgate, né, que eu faço com muito orgulho de levar a palavra de Jane Catulle-Mendès aí a novos leitores.
31:18 - Anderson Mendanha: Muito bem então. Obrigado Rafael e até a próxima.
31:22 - Rafael Sento-Sé: Até, Anderson.
31:23 - Anderson Mendanha: Então, com "A Poeta da Cidade Maravilhosa", Rafael Sento-Sé devolve à memória cultural brasileira o nome de uma mulher que ajudou a moldar a identidade do Rio e inspira novas leituras sobre o papel das escritoras na formação da nossa história. O Autores e Livros Dose Extra vai ficando por aqui. Obrigado pela sua companhia. Sou Anderson Mendanha e o programa de hoje contou com trabalhos técnicos de Pedro Henrique Vasconcelos. A gente volta semana que vem com mais literatura. Até lá, boa leitura.
32:00 - Locutora (Vinheta): Acabamos de apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica semanal sobre o mundo literário.