O Globo, n 32.365, 18/03/2022. Economia, p. 12
Ações da Petrobras caem com risco de interferência da União
Vitor da Costa, Diogo Amaral e Manoel Ventura
No Flamengo, avaliação é que seria inviável conciliar presidência do clube e da estatal. Caso governo leve plano adiante, modelo seria igual ao usado com Castello Branco
A possibilidade de uma troca no comando da Petrobras por meio de mudança na lista de integrantes do conselho da estatal foi vista no mercado como um risco de ingerência do governo na companhia. As ações preferenciais (sem voto) da petroleira encerraram o pregão em baixa de 2,66%, a R $30,01, mesmo em dia de alta no preço do petróleo no mercado internacional. O barril do Brent fechou ontem em alta de 8,79%, a US$ 106,64.
Alexandre Brito, sócio da Finecap Investimentos, lembra que Bolsonaro já tinha dado declarações recentes de que ninguém é insubstituível em seu governo, o que foi visto como referência ao presidente da estatal, Joaquim Silva e Luna, após o reajuste de 18,77% na gasolina e de 24,9% no diesel na refinaria:
— A Petrobras sempre será esse tipo de ação que, por mais que tenha bons fundamentos, lucros recordes, e petróleo em alta, terá esse risco político e, até por isso, ela é negociada com desconto em relação aos seus pares. E o investidor estrangeiro faz a conta desse risco na empresa.
PROCESSO DE TRANSIÇÃO
No mercado financeiro e nos corredores do Flamengo, a reação foi de apreensão. Rodolfo Landim foi indicado para presidir o conselho da companhia, mas pode ser alçado ao comando da estatal, caso o governo resolva levar adiante o plano de substituição na Petrobras. Landim já tinha deixado claro para a diretoria do Flamengo que aceitaria chefiar o conselho sem deixar o comando do clube. Na última semana, indicou aos pares que ficassem tranquilos, uma vez que seria necessária participação em três ou quatro reuniões mensais da companhia.
Mas o quadro mudou com o risco de o executivo assumir o comando da Petrobras. O estatuto do clube não veda a possibilidade de o presidente comandar uma empresa. No entanto, o desafio de assumir a estatal é considerado impossível de conciliar. A opção seria Landim se licenciar do cargo ao menos até o fim do ano. Neste cenário, assumiria de forma interina o vice Rodrigo Dunshee. Mas não há qualquer passo nesse sentido no clube.
Até agora, Landim estava em processo de transição com o atual presidente do conselho, Eduardo Bacellar Leal Ferreira. Procurado, o presidente do Flamengo não comentou se aceitaria um convite para presidir a empresa.
Caso deixe a presidência do clube, Landim pode dar início a um racha no Flamengo. Sua reeleição, em dezembro, aconteceu em um momento conturbado, com questionamentos de outros vice-presidentes. E a presença dele atenuou maiores divergências.
Caso o governo, de fato, opte por destituir o presidente da Petrobras por meio de mudanças no Conselho de Administração, não estará recorrendo a uma estratégia nova. Foi esse o modelo seguido no governo Jair Bolsonaro para demitir Roberto Castello Branco, no ano passado. O motivo da insatisfação do presidente era o mesmo que tem agora em relação a Silva e Luna: o aumento dos combustíveis, em linha com a política de preços da estatal, que repassa ao consumidor flutuações nas cotações do petróleo e do dólar.
SEM SINAL DE QUERER SAIR
Para ser presidente da Petrobras, é necessário fazer parte do Conselho de Administração, conforme o estatuto da empresa. Por isso, retirar o nome de Silva e Luna da lista encaminhada de conselheiros da estatal pode ser uma saída para, na prática, demiti-lo da presidência.
O governo pode fazer qualquer alteração na lista de conselheiros até o dia 12 de abril, véspera da assembleia de acionistas. Por outro lado, o presidente do conselho não pode acumular o cargo com a função de CEO.
Integrantes do governo e auxiliares de Bolsonaro dizem que nada está definido e ressaltam o prazo de abril para uma tomada de decisão. Ministros e assessores presidenciais defendem a permanência de Silva e Luna, especialmente porque avaliam que a saída dele não teria efeitos sobre os preços de combustíveis e iria gerar impactos negativos sobre as ações da companhia.
Enquanto isso, Silva e Luna não dá sinais de que irá pedir demissão.