O Globo, n 32.365, 18/03/2022. Mundo, p. 17
'ESCÓRIA E TRAIDORES'
Filipe Barini
PUTIN ENDURECE DISCURSO E SINALIZA , AUMENTO DA REPRESSÃO
Com a guerra na Ucrânia entrando na sua quarta semana, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, elevou drasticamente o tom de seu discurso e, além de direcionar seus ataques às lideranças de Kiev, também atacou setores da população rus saque chamou de “falsos patriotas” e “escória ”. A fala ocorre em meio ao aumento da repressão interna àqueles que discordam da guerra iniciada em 24 de fevereiro contra a Ucrânia —segundo lei aprovada na semana passada, quem usar a palavra “guerra” em vez de “operação militar especial ”, nome oficial da invasão, está sujeito a multa e prisão por até 15 anos.
— Qualquer povo, e ainda mais o povo russo, sempre será capaz de distinguir verdadeiros patriotas da escória e dos traidores, e simplesmente cuspi-los como uma mosca que acidentalmente entrou em suas bocas — disse Putin, em uma reunião, na noite de quarta-feira, para discutir apoio econômico às regiões. — Estou convencido de que uma autopurificação tão natural e necessária da sociedade só fortalecerá nosso país, nossa solidariedade, coesão e prontidão para responder aos desafios.
15 MIL PRESOS ATÉ AGORA
Desde o início da invasão, cerca de 15 mil pessoas foram presas em protestos antiguerra, e um número ainda desconhecido de russos deixou o país rumo à Europa, aos EUA e a outras nações da ex-URSS, como o Quirguistão e o Cazaquistão. Além do medo da repressão, muitos tentam escapar do impacto das sanções impostas pelo Ocidente, que já começam a afetar a economia, em especial na inflação.
No discurso, Putin voltou a atacar os países do Ocidente, como fizera mais cedo, dizendo que eles “simplesmente não precisam de uma Rússia forte e soberana” eque não perdoarão o país por “defender seus interesses nacionais”.
— Lembramos como eles apoiaram o separatismo, o terrorismo, encorajando terroristas e bandidos no Norte do Cáucaso. Como nos anos 1990, início dos anos 2000, eles agora novamente, mais uma vez, querem repetir sua tentativa de nos pressionar, nos transformar em algo fraco, dependente, violar a nossa integridade territorial, desmembrar a Rússia da melhor maneira possível para eles. Não deu certo naquela época, e não vai dar agora —disse Putin.
‘QUINTA COLUNA’
O presidente destinou ataques aos milionários russos que, hoje, vivem no exterior—alguns deles vêm se afastando do Kremlin e até criticando a forma como Putin vem conduzindo a invasão da Ucrânia. Para o presidente, eles são uma espécie de “quinta coluna”, ou “traidores nacionais”, que ganham dinheiro na Rússia e gastam suas fortunas em outros países, além de acharem que “pertencem a uma casta superior, a uma raça superior”.
Ontem, ao ser questionado sobre as declarações do presidente, o secretário de Imprensa do Kremlin, Dmitry Peskov, confirmou que essa é mesmo a linha atual do governo russo.
— Em momentos difíceis, muitas pessoas mostram suas verdadeiras cores. Muitas pessoas estão se revelando, como dizemos em russo, traidores — disse Peskov, em entrevista coletiva.
Em seus 22 anos à frente da Rússia, seja como presidente ou como um poderoso primeiro-ministro, foram raras as vezes em que Putin usou um tom tão agressivo em seus discursos ao falar dos próprios russos: um dos poucos exemplos foi visto em 2014, em meio à anexação da Crimeia e aos efeitos da Euromaidan, que derrubou um governo pró-Moscou em Kiev.
Como mencionou, em 2015, a jornalista russa Maria Lipman, o termo “quinta coluna” chegou a ser usado para descrever todos aqueles que atacavam a anexação da península e a participação de Moscou no conflito entre separatistas pró-Rússia e o Exército ucraniano na região de Donbass, no Leste da Ucrânia.
Naquele época, menciona Lipman, um cartaz localizado a poucas quadras do Kremlin mostrava imagens de políticos considerados “traidores” e integrantes de uma “quinta coluna”: entre eles, Boris Nemtsov, morto em 2015; Ilya Ponomarev, ex-deputado que deixou a Rússia em 2016; e Alexei Navalny, hoje preso e prestes a receber uma sentença por suposta fraude que pode ampliar sua pena em 13 anos.
SEM OPOSIÇÃO PARLAMENTAR
Na atual ofensiva contra seus críticos, Putin, com o respaldo oficial do Parlamento — hoje virtualmente sem presença da oposição — sancionou medidas para restringir o já restrito espaço para protestos não aprovados pelas autoridades. Quem sair às ruas contra a guerra está sujeito a uma pena de até cinco anos de prisão.
Para quem espalhar notícias consideradas falsas ou que sejam consideradas nocivas às Forças Armadas, a punição pode chegar a até 15 anos em regime fechado. Mesmo quem não participa de protestos está sendo atingido pelas novas leis, que também são aplicadas a publicações em redes sociais — pessoas que deixam a Rússia afirmam que os agentes de fronteira estão vistoriando seus aplicativos de mensagens em busca de declarações vistas como nocivas.
Em publicação no Telegram, o advogado especializado em direitos humanos Da niilBerman disse, citando fontes nos serviços de segurança, que os agentes estão recebendo a orientação de acelerar a conclusão de processos de crimes econômicos porque, segundo ele, “em abril eles (os investigadores) serão sobrecarregados com casos criminais de ‘traidores do Estado’ e ‘traidores da nação’”.
Empresas alinhadas ao governo, como a gigante do setor de gás, a Gazprom, também promovem a ideia de união em torno de Vladimir Putin: no começo do mês, o chefe da companhia, Alexei Miller, próximo ao Kremlin, enviou uma carta aos seus 500 mil funcionários afirmando que eles devem estar atentos a tentativas de “semear a discórdia que pode dividir o povo russo ”. Para ele, apoiar Putin vai“ preservar a Rússia como nós conhecemos e amamos ”.