O Globo, n 32.365, 18/03/2022. Brasil, p. 09
Agente da Funai arrendava área indígena, diz PF
Patrick Camporez
Nomeado em 2020, militar da reserva da Marinha é preso com policial e ex—PM em operação contra uso ilegal de áreas de terra xavante no Mato Grosso; suspeito de receber dinheiro de invasores, cacique é investigado
A Polícia Federal prendeu ontem o coordenador da Funai de Ribeirão Cascalheira, Jussielson Gonçalves Silva, suspeito de participar do arrendamento ilegal de terras indígenas no Mato Grosso, com a conivência de ao menos um cacique xavante. Fazendeiros também são investigados na operação Res Capta (”coisa tomada”, em latim), que prendeu ainda o sargento da Polícia Militar Gerrard Maxmiliano Rodrigues de Souza e o ex-PM do Amazonas Enoque Bento de Souza.
Segundo a PF, o arrendamento ilegal de fazendas começou a ser feito em 2017 na Terra Indígena Xavante Marãiwatsédé, nos municípios de Ribeirão Cascalheira e Barra do Garças. A investigação mostrou que fazendeiros cooptaram líderes indígenas para criar gado em parte do território protegido.
A mais de mil quilômetros de Cuiabá, a terra indígena Marãiwatsédé foi homologada por decreto presidencial em 1998. A região tem sido palco de conflitos depois que, sob influência de políticos locais, as terras passaram a ser invadidas.
A suspeita dos investigadores é de que o cacique Damião Paridzané, um dos líderes xavantes, estaria recebendo o equivalente a R$ 900 mil por mês por 15 arrendamentos. Militar da reserva da Marinha nomeado em 2020, já no governo Bolsonaro, Jussielson também receberia propina. A Funai informou que o coordenador será afastado da função e confirmou que o arrendamento é proibido.
A PF obteve uma determinação judicial para que 70 mil cabeças de gado sejam retiradas da área xavante em até 45 dias, sob pena de prisão, caso a ordem não seja cumprida. Apenas em quatro dos 15 arrendamentos ilegais, os peritos da PF estimaram em R$ 58 milhões o valor dos danos ambientais na terra invadida.
Para o Ministério Público Federal, não há dúvidas de que o dinheiro em contas do cacique é “oriundo das parcerias espúrias no interior da terra indígena sem qualquer controle da Funai”.
Uma caminhonete SW4 avaliada em R$ 366, 9 mil, que teria sido um presente de um fazendeiro para Paridzané, foi apreendida.
A operação cumpriu sete mandados de busca e apreensão e sequestro de bens e 15 medidas cautelares contra fazendeiros e indígenas, além das prisões.
“COMEÇAR A MEDIÇÃO”
Conversas gravadas com autorização judicial mostram Jussielson e o cacique negociando arrendamentos. “A gente não falou com o senhor que vai começar a medição do pasto, para aumentar o valor do arrendamento?”, pergunta o coordenador da Funai a Paridzané. “A gente tá chamando um por um pra explicar o que vai fazer com relação à medida do pasto”, reforça Jussielson.