Valor Econômico, v. 23. n. 5675, 24/01/2023, Finanças, C1
Expectativas de inflação pioram e pressionam taxas de juros
Victor Rezende e Gabriel Roca
Na esteira das críticas feitas na semana passada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) às metas de inflação e à autonomia do Banco Central, as expectativas de inflação de médio e de longo prazo voltaram a subir. Aos poucos, o mercado cristaliza a expectativa de que a inflação ficará em níveis mais altos ao longo de todo o horizonte de projeção, com estimativas cada vez mais distantes do centro da meta. Com isso, as taxas de juros de longo prazo retomaram o nível de 13% ao ano.
“O mercado reavalia a política econômica à frente e as indicações que o presidente tem dado, de que deve elevar as metas de inflação, se refletem em uma alta das expectativas”, afirma o economista-chefe da Novus Capital, Tomás Goulart.
Essa sinalização, segundo ele, faz com que um nível de 3% para a inflação - como é a meta para 2025 - seja muito baixo.
A cada semana, o Boletim Focus, que reúne projeções de mercado, tem mostrado um processo de desancoragem ainda intenso das expectativas de inflação. No relatório divulgado ontem pelo BC, o ponto médio das projeções dos economistas de mercado para o IPCA de 2024 subiu de 3,70% para 3,84%, enquanto a mediana das previsões para a inflação de 2025 permaneceu em 3,50%.
Houve um descolamento também nas expectativas prazos ainda mais longos: o ponto médio das estimativas para o IPCA 2026 subiu de 3,22% para 3,47% e nem mesmo o IPCA de 2027 escapou, ao passar de 3% para 3,20%.
“O movimento de elevação das expectativas de inflação de longo prazo é notável. Isso já estava acontecendo na inflação implícita [refletida nas taxas dos títulos públicos] e agora começou a aparecer no Focus”, observa a economista-chefe da ARX Investimentos, Elisa Machado, ao apontar o comportamento das medidas de inflação extraídas das NTN-Bs, papéis do Tesouro atrelados ao IPCA. O mercado até chegou a testar algum alívio em dezembro, mas voltou a precificar a inflação bem acima de 6%.
“Isso está relacionado diretamente a todo esse debate que temos visto em relação à independência do Banco Central, às metas de inflação e à âncora fiscal. São três assuntos que mexem diretamente com as expectativas de longo prazo. O que vamos ter que entender é o efeito disso na condução da política monetária, já que o Focus é um ‘input’ importante no modelo do BC”, afirma Machado.
Em seu cenário central, a ARX mantém a expectativa de que a Selic permaneça nos atuais 13,75% ao menos até o fim do ano. Já em relação à comunicação do BC, a economista diz que a autoridade monetária tem sinalizado que irá reagir caso o cenário fiscal afete as variáveis que influenciam nas projeções de inflação no horizonte relevante. “É claro que essas expectativas estão subindo, mas a mensagem do BC permanece adequada. A princípio continuamos a ver a Selic parada, até porque estamos no período de debate sobre o cenário econômico”, diz.
Embora a curva de juros (as taxas em diversos prazo de vencimento) esteja distante dos níveis mais elevados vistos no ano passado, quando chegou a colocar no preço uma Selic acima de 15%, começa a se materializar a percepção de que a taxa de longo prazo terá de ser mais alta. Ou seja, o aumento do prêmio de risco exigido pelo mercado começa a aparecer nos preços. Ontem, a taxa do DI para janeiro de 2029 subiu de 13,01% para 13,15%, enquanto a do DI para janeiro de 2031 avançou de 13,09% para 13,24%.
A Quantitas já projetava que a taxa Selic se manteria inalterada em 13,75% ao longo deste ano, com o primeiro corte ocorrendo apenas em janeiro de 2024. “Parte do mercado ainda previa cortes neste ano, mas vai ficando claro que não tem espaço”, afirma o economista-chefe da gestora, Ivo Chermont. Ele acredita, ainda, que as expectativas de inflação devem sofrer deterioração adicional.
“Por que as expectativas de inflação iriam diminuir? A narrativa ruim de antes, que era só fiscal, começa a se ampliar também para questionamentos sobre a independência formal do BC e de resistências do governo à indicação de nomes de mercado para o cargo da diretoria de política monetária, de caráter bastante técnico. É um acúmulo de notícias ruins por todos os campos”, pontua Chermont.
O economista nota que as expectativas de inflação já pioravam, mas em ritmo mais gradual. “Agora a coisa vai ganhando tração, porque parece que não tem nenhuma espécie de freio. Como qualquer coisa que ganha movimento, essa dinâmica precisa de algum freio para diminuir.”
Nesse sentido, o economista-chede do Banco BV, Roberto Padovani, acrescenta que o espaço para redução da Selic em 2023 tem diminuído. A expectativa do banco antes era de que o juro básico chegaria ao fim do ano em 10%, mas, agora, ele espera que a taxa encerre o ano em 12%.
“Isso é compatível com a volta da inflação para a meta, que é 3%. Nossa leitura é de que todo o debate sobre as metas, autonomia do BC e expansão fiscal, neste momento, indica juros mais altos por mais tempo, um mercado de crédito mais apertado e, portanto, menos crescimento e mais desemprego.”
Para Padovani, o processo de desinflação deve se dar com os juros nominais parados, já que isso implicac juros reais mais altos. Nesse sentido, o economista acha “pouco provável” uma nova alta da Selic. “Seria preciso um descontrole bem mais forte no lado fiscal e não estamos vendo isso agora”, diz.
Já Tomás Goulart, da Novus, alerta para a possibilidade de aumentos no juro básico, a depender do movimento do câmbio e dos preços das commodities. “Se tivermos uma depreciação cambial mais forte ou um movimento de commodities para cima, o que poderia pressionar a inflação, o BC pode voltar a subir a taxa de juros.”
Para o economista, a pressão do novo governo sobre o BC tem sido contraproducente e, assim, os agentes observam o cenário e indicam inflação mais alta à frente. “Não tem motivo para esperar que a inflação fique ancorada.”