Valor Econômico, v. 23. n. 5683, 03/02/2023, política, A9
Marcos do Val depõe à PF sobre plano para dar golpe de Estado
Caetano Tonet, João Valadares, Vandson Lima e Fabio Murakawa
 


O senador Marcos do Val (Podemos-ES) prestou depoimento à Polícia Federal na quinta-feira (02) para detalhar o plano para o qual teria sido convidado pelo ex-deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), em uma reunião em dezembro com presença do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), para dar um golpe de Estado. 

O parlamentar deu diferentes versões para a história. Primeiro, ainda na madrugada, afirmou por meio das redes sociais que Bolsonaro tentou coagi-lo a participar de uma trama contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, cujo objetivo era impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda de acordo com o senador, ele teria procurado Moraes para alertá-lo sobre a operação. 

“Eles colocariam um equipamento de gravação. Teria um veículo já próximo ao STF, captando o áudio. E eu, nessa reunião com o ministro Alexandre, eu conduzindo para ele falar que em alguns dos processos dele, ele ultrapassou a linha da Constituição”, afirmou ele em entrevista coletiva no Senado. 

A revista “Veja” trouxe detalhes da história e reproduziu mensagens em Silveira o pressionava a levar o plano adiante. Segundo o relato, Do Val iria ao encontro de Moraes e tentaria gravar alguma declaração comprometedora. Para a missão, receberia equipamentos modernos supostamente fornecidos pelo Gabinete de Segurança Institucional e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). 

No entanto, no decorrer do dia, Do Val foi alterando o discurso. Primeiro, disse que o encontro teria ocorrido na Granja do Torto. Depois, no Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente. Além disso, pela manhã, afirmou que Bolsonaro teria ficada calado durante todo o encontro. Horas depois, em entrevista à GloboNews, disse que Bolsonaro pediu uma posição futura do parlamentar. Do Val disse ainda que renunciaria ao mandato, mas depois recuou. 

Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal “O Globo”, o ex-presidente deu sua versão da história a interlocutores. Ele disse que o encontro com Silveira e Do Val foi breve e que permaneceu calado durante todo o tempo. 

O Valor procurou o ministro Alexandre de Moraes, do STF, sobre as falas de Do Val, mas o magistrado não quis comentar o assunto. No Congresso, porém, a reação foi imediata.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente, confirmou que a reunião ocorreu e disse ter sido avisado por Marcos do Val que o caso viria à tona. “Sobre o que está sendo noticiado, ele [Do Val] já havia me relatado o que tinha acontecido, que isso ia ser trazido a público, contudo numa linha de que essa reunião, que aconteceu, ela seria uma tentativa de um parlamentar de demover as pessoas que estavam nessa reunião de fazer algo absolutamente inaceitável, absurdo e ilegal”, disse no plenário do Senado. “O que peço aqui é que todos os esclarecimentos sejam feitos, e não digo nem abertura de inquérito, porque a situação que foi narrada não configura nenhuma espécie de crime, que todos os esclarecimentos sejam feitos, para que não fiquem narrativas em cima de narrativas no intuito de superar os fatos. O fato é que, dia 31 de dezembro, o ex-presidente Bolsonaro deixou a Presidência”, completou Flávio.

Titular da pasta da Justiça, o senador Flávio Dino (PSB-MA), afirmou que a denúncia reforça a responsabilidade no âmbito jurídico de Bolsonaro. “Temos relatos que vão se somando, sempre mencionando pessoas muito próximas a ele [Bolsonaro]. Estamos diante de um fato novo que fortalece a ideia que, além da responsabilidade política, há cada vez mais indícios conducentes à responsabilidade jurídica do ex-presidente”, disse Dino, que licenciou-se do ministério nesta semana para tomar posse como senador. 

Para Dino, a reunião golpista relatada por Marcos do Val soma-se à minuta encontrada na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, um esboço de decreto para realizar uma intervenção na Justiça Eleitoral e mudar o resultado do pleito de outubro. “O ex-ministro da Justiça tinha em casa um planejamento de golpe de Estado. São tijolos que vão se somando em um edifício de golpe de Estado. Quem eram os arquitetos, engenheiros e mandantes a investigação vai mostrar”, acrescentou o ministro. 

Para Dino, as investigações vão levando ao entendimento de que “os atos de 8 de janeiro eram a ponta visível do iceberg”, ficando “cada vez fica mais evidente que há um encadeamento lógico nesses vários eventos tendentes à ruptura da democracia”. 

Na chegada para a sessão solene de abertura dos trabalhos do Congresso Nacional, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, comentou o assunto. “Estamos acompanhando. Acho que não cabe ao Executivo o processo de apuração. Os organismos competentes vão fazer as acusações devidas”, disse Rui Costa. 

Procurado, o ex-ministro do GSI Augusto Heleno disse ao Valor que a denúncia feita pelo senador é improcedente. “É mentira qualquer envolvimento do GSI ou da ABI, como instituições, nesse 'plano”, disse Heleno ao Valor. “Eu jamais tomei conhecimento de qualquer ação nesse sentido.” 

A Abin também negou envolvimento com qualquer iniciativa relacionada à possibilidade de gravação de conversas de ministro do Supremo. “A Abin reafirma seu compromisso com a democracia e o Estado Democrático de Direito e sua direção e corpo de servidores jamais coadunariam com esse tipo de ação.” 

O depoimento de Do Val para a Polícia Federal ocorreu por ordem do ministro Alexandre de Moraes. O caso pode parar também no Conselho de Ética do Senado. (Colaborou Isadora Peron)