O Globo, n 32.371, 24/03/2022. Política, p. 07

Alckmin se filia ao PSB, faz elogios a Lula e Vira alvo de Doria e Ciro

Bruno Góes


Ex-governador dá mais um passo para ser vice na chapa do petista, critica Bolsonaro e provoca ironias de presidenciáveis

Em evento de filiação ao PSB, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin fez uma série de elogios ontem ao ex-presidente Lula. Alinhado à centro-direita, o ex-tucano afirmou que o petista, seu antigo adversário político ,“representa a própria democracia”. Cotado para ser o vice na chapa de Lula em outubro, Alckmin terá a missão de ampliar o alcance da candidatura do ex-presidente.

Segundo aliados do presidenciável, o ex-tucano será importante para conquistar eleitores de centro e setores econômicos ainda relutantes ao retorno do PT ao poder. O ex-presidente não foi à filiação e foi representado pela presidente do partido, a deputada Gleisi Hoffmann (PR).

— Lula é hoje quem melhor reflete e interpreta o sentimento de esperança do povo brasileiro. Ele representa a própria democracia, porque ele é filho da democracia —disse Alckmin. Ainda em seu discurso, o novo pessebista frisou que é preciso“ter coragem” para fazer política e disse que o momento é crucial para enfrentar a violência e a miséria.

Ao criticar o presidente Jair Bolsonaro, o novo integrante do PSB afirmou que a mentira “é o que há de pior para o regime democrático”. Ele também fez referência a manifestações antidemocráticas de apoiadores do presidente.

—Aqueles que ameaçam o Parlamento e o Supremo Tribunal Federal estão ameaçando a democracia.

Primeiro a discursar, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, ressaltou a necessidade de a oposição a Bolsonaro ampliar o leque de apoios.

—Não se trata de uma disputa entre esquerda e direita. Será entre a democracia e o arbítrio.

Um dos articuladores da filiação de Alckmin, o ex-governador de São Paulo Márcio França (PSB) também ressaltou a importância da união para derrotar Bolsonaro.

Adversário histórico do PT em São Paulo e em disputas nacionais, Alckmin ainda é recebido com relutância por correntes do petismo. Ontem, porém, Gleisi fez mais um sinal de aproximação.

Ao lado dos líderes do PT da Câmara e do Senado, a presidente do partido fez um breve discurso em que ressaltou a importância do ato de filiação. Segundo ela, “nunca foi tão necessário juntar forças”.

— Nós estivemos juntos e juntos fizemos História. E faremos juntos novamente — disse, em referência ao apoio do PSB aos mandatos de Lula.

O ex-presidente não compareceu ao evento. Sua avaliação é que uma aparição pública ao lado de Alckmin poderia provocar embaraço. Isso porque a indicação do ex-governador para vice da chapa não passou ainda pelas instâncias partidárias. O lançamento da pré-candidatura de Lula deve ocorrer no dia 30 de abril, em São Paulo.

PRESIDENCIÁVEIS REAGEM

Nas próximas semanas, o PSB vai formalizar a indicação de Alckmin para vice da chapa do petista. Depois disso, o PT deve marcar um encontro nacional com delegados para aprovar a escolha.

Ontem, além de Alckmin, foram filiados o vice-governador do Maranhão, Carlos Brandão; o senador Dario Berger (SC); e os ex-deputados paulistas Pedro Tobias e Floriano Pesaro.

O movimento de Alckmin gerou reação de seu ex-afilhado político e atual governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que é pré-candidato à Presidência. Ao ser questionado em coletiva à imprensa se estava arrependido de ter isolado Alckmin no PSDB, o que levou o ex governadora deixar a sigla, Doria devolveu a pergunta com uma provocação:

—Quem deve ter arrependimento é o Geraldo Alckmin. Depois de 33 anos, quem abandonou o PSDB foi ele. Portanto, cabe a pergunta: Geraldo Alckmin, você não está arrependido? Depois de ter sido fundador do PSDB, partido que combateu a corrupção nos 13 anos de lulismo no governo, partido que o senhor criticou inúmeras vezes em debates, em manifestações, em artigos —disse Doria.

Inicialmente, Alckmin queria disputar o governo de São Paulo, mas não teve espaço no PSDB. Doria resolveu lançar seu vice, Rodrigo Garcia, que, para isso, migrou do DEM para o partido.

Procurado, o presidente do PSDB nacional, Bruno Araújo, não quis comentar o assunto. No mês passado, ele disse ao GLOBO que Alckmin ser vice de Lula seria o ato de maior incoerência política na história do país.

O presidenciável do PDT, Ciro Gomes, classificou afiliação de Alckmin ao PSB para ser vice de Lula como um “conchavo vergonhoso”:

—Historicamente, para políticos de correntes diferentes se reencontrarem, superarem as suas diferenças na frente do povo, normalmente tem uma razão ancestral, que justifica a superação daquilo, e uma razão futura, que explique por qual motivo é legítimo aquele encontro.