Valor Econômico, v. 23. n. 5688, 10/02/2023, Empresas, B2
Petrolíferas têm lucro recorde e receita trilionária
Felipe Laurence


As sete maiores empresas do setor de petróleo e gás do Ocidente em valor de mercado, ExxonMobil, Chevron, Shell, TotalEnergies, ConocoPhillips, BP e Equinor, encerraram 2022 com lucro recorde em meio a alta nos preços das commodities. O conflito na Ucrânia, que tirou de circulação o petróleo e o gás da Rússia, além de restrições na oferta, sustentaram as cotações. 

Levantamento feito pelo Valor mostra que, conjuntamente, as sete empresas registraram lucro líquido de US$ 244,4 bilhões no ano passado, crescimento de 130,3% na comparação com 2021. Os números de BP e TotalEnergies são ajustados para retirar os efeitos contábeis das participações que detinham em empresas na Rússia, vendidas ao longo do ano. 

Já as receitas dessas mesmas empresas somaram US$ 1,81 trilhão entre janeiro e dezembro do ano passado, o que significa crescimento de 48% sobre 2021. O baixo patamar de endividamento dessas companhias, com redução de investimentos ao longo da última década, resultou que boa parte desse faturamento virou lucro e consequentemente retorno aos acionistas via pagamento de proventos, o que ajudou a elevar significativamente o valor das ações das empresas no ano passado. 

O resultado vem após um ano onde os preços do petróleo e do gás natural tiveram alta expressiva, principalmente no primeiro semestre, após as preocupações envolvendo a oferta das commodities com o corte dos produtos russos do mercado internacional. Em 2022, o baril do Brent subiu 21,13%, encerrando o ano cotado em US$ 85,91, o maior valor desde 2013. 

No entanto, o valor ficou longe do topo de US$ 133,18, em março, o que acabou impulsionando os resultados das companhias no primeiro semestre. Ao longo do ano as cotações foram se acomodando, mas mesmo assim o preço médio do Brent, referência no mundo para o petróleo, ficou em US$ 100,93, recuperação significativa ante a média de US$ 41,96 em 2020, no auge da pandemia. 

O lucro recorde do setor foi alvo de críticas do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que no seu discurso anual perante o Congresso americano, na terça-feira (7), classificou como “escandaloso” o resultado das empresas em meio a alta nos preços dos combustíveis. Biden reforçou sua proposta de uma taxação mais pesada em recompra de ações das empresas americanas para incentivar investimentos. 

O ano começou com incertezas para o setor, após os governos mundiais imporem sanções ao petróleo e gás natural produzido na Rússia por conta da invasão na Ucrânia. Além da incerteza sobre a manutenção da oferta dos produtos, as empresas precisaram se desfazer de participações em sociedades que tinham no país para elas mesmas não virarem alvo das punições. 

A britânica BP foi a maior afetada, registrando baixa contábil de US$ 25 bilhões após se desfazer da sua participação de quase 20% na Rosneft, maior produtora de petróleo na Rússia. A TotalEnergies teve impacto de US$ 3,7 bilhões, enquanto Chevron registrou US$ 4 bilhões e Shell, por sua vez, teve baixa entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões dos negócios no país. 

Apesar disso, as petrolíferas conseguiram superar as incertezas, com a escassez de oferta do petróleo e gás elevando os preços. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) acabou segurando a vazão de nova capacidade no mercado, com seus países membros ainda retomando operações no pós-pandemia. O gás natural, por sua vez, muito utilizado na Europa, viu os preços dispararem com o fim do fornecimento russo. 

Neste ano, analistas ponderam que deve acontecer a manutenção do quadro de desequilíbrio entre oferta e demanda de petróleo, apoiando uma visão positiva dos preços. O BTG Pactual acredita que a commodity deve se manter acima de US$ 100 o barril. Já o Citi avalia que as pressões macroeconômicas globais devem reduzir a demanda pela commodity, mantendo o barril do Brent em US$ 80 no ano. 

De qualquer forma, a tendência é que os preços do petróleo ainda assim fiquem acima da média de US$ 64,28 em 2019, pré-pandemia, o que deve manter os resultados das grandes empresas do setor em patamares elevados, mesmo com uma redução pontual na comparação trimestre a trimestre. As companhias devem implementar medidas de redução de gastos, se adequando ao cenário macroeconômico atual, apontam analistas. 

No mercado de gás natural, as pressões macroeconômicas devem reduzir a demanda pela commodity, mas a Agência Internacional de Energia (AIE) acredita que a oferta escassa, sem perspectiva de retomada do abastecimento russo, além de falta de alternativas viáveis, deve manter os preços acima da média histórica, mas abaixo dos recordes vistos em 2022.