O Globo, n 32.372, 25/03/2022. Economia, p. 14
Caixa reduz juros em duas linhas de crédito imobiliário
Carolina Nalin, Ana Clara Veloso e Pollyanna Bretas
Medida vai na contramão do mercado, já que a Selic subiu a 11,75% este mês. Especialista manifesta preocupação com medida em pleno ano eleitoral
A Caixa Econômica Federal reduziu as taxas de juros em duas das suas principais linhas de crédito imobiliário. O anúncio foi feito ontem pelo presidente do banco, Pedro Guimarães, em evento da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc). Isso ocorre no momento em que a taxa básica da economia, a Selic, está em 11,75% ao ano, maior patamar desde abril de 2017.
Na modalidade subsidiada, do programa Casa Verde e Amarela, a redução foi de 0,5 ponto percentual para famílias com renda mensal entre R$ 2.000,01 e R $2.400 e valerá a partir de 12 de abril. Já na linha que usa recursos da poupança, a taxa passa de 2,95% para 2,8% ao ano, mais o rendimento da poupança e TR, e passa a valer no próximo dia 28, com teto de R $1,5 milhão para o valor de imóvel e sem limite de renda familiar.
Na avaliação de Sérgio Lazzarini, professor do Insper, há duas preocupações: o custo financeiro da medida para a Caixa e um eventual uso político da estatal em ano de eleições, já que a redução dos juros vai na contramão do mercado:
—O custo do capital está aumentando (com a alta dos juros), e isso vai ter um impacto financeiro para a Caixa. E estamos em ano eleitoral. Então toda a iniciativa das estatais que seja atípica ou que configure alguma iniciativa no sentido de prejudicar o caixa das estatais tem um efeito eleitoral para o controlador, que é o governo em exercício.
Lazzarini lembra ainda a proximidade de Guimarães com o presidente Jair Bolsonaro e cita a inconsistência entre a nova redução dos juros no Casa Verde e Amarela com a exclusão da chamada Faixa 1 do programa anterior, que subsidiava imóveis com prestações até 10% da renda de famílias com ganhos no limite de R$ 1.800.
No caso da linha atrelada à caderneta, Pedro Cunha, professor do MBA de Incorporação e Construção da Fundação Getulio Vargas (FGV), ressalta que, por ser pós-fixada e depender da remuneração da poupança, ela estava ficando cara:
— O rendimento da poupança aumentou e acabou encarecendo essa linha de crédito. A Caixa fez essa redução para compensar esse aumento.
Para Gilson Oliveira, professor de Finanças do Ibmec/RJ, o movimento da Caixa pode se enquadrar nas medidas de estímulo à economia anunciadas recentemente pelo governo.
Nos bastidores, a Caixa argumenta que o corte é pequeno e só afeta os financiamentos atrelados à poupança, que não tiveram alteração significativa com a alta da Selic. No caso da Casa Verde e Amarela, diz, a redução está associada à nova política de subsídios do Ministério de Desenvolvimento Regional, anunciada em fevereiro.