O Globo, n 32.373, 26/03/2022. Economia, p. 14

Dólar recua 5,3% na semana e fecha a R$ 4,74

Vitor da Costa e Letycia Cardoso


Moeda americana teve o oitavo pregão seguido de queda. Para analistas, tendência no curto prazo é de baixa. No ano, o real é a divisa com maior valorização. No mercado de ações, Ibovespa termina praticamente estável


O dólar comercial encerrou a semana em baixa de 1,77%, a R$ 4,74. Trata-se do oitavo pregão consecutivo de queda da moeda americana. É também a menor cotação desde 11 de março de 2020, quando encerrara os negócios a R$ 4,72. 

Na semana, o dólar recuou 5,3% e, no acumulado do ano, a queda chega a 14,86%, o que coloca o real como a divisa que mais se valorizou no mundo em 2022 na comparação com uma cesta de moedas. 

No mercado de ações, a Bolsa encerrou o pregão estável, com variação de 0,01%, a 119.066 pontos. Os investidores repercutiram a divulgação da prévia da inflação de março e as declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o processo de normalização da política monetária.

ENTRADA DE RECURSOS

Para Ariane Benedito, economista da CM Capital, o real seguiu se beneficiando do forte luxo de entrada de recursos estrangeiros na Bolsa. Para ela, esse ingresso de dólares não reflete apenas o patamar elevado da taxa básica de juros — atualmente em 11,75% ao ano —mas também a posição favorável do Brasil na comparação com outros emergentes no momento:

—Como não estamos vendo os países da América Latina tão impactados com essa crise geopolítica, o estrangeiro fica mais confortável para fazer investimento. Vimos uma entrada pesada em commodities ,no início, mas o estrangeiro já começa, com esse câmbio mais baixo, a se posicionar em outras empresas que estão ganhando fôlego, como as aéreas e as de turismo. 

Embora pondere que ainda é difícil definir até onde o dólar pode chegar, Ariane afirma que o cenário no curto prazo tende a ser favorável para a moeda brasileira, caso a instabilidade externa persista.

— Quanto mais instabilidade tivermos nos Estados Unidos e na Europa, vamos continuar vivendo essa baixa no dólar. Caso ocorra uma arrefecida no cenário internacional, podemos perder um pouco esse fator competitivo —disse Ariane, referindo-se ao cenário fiscal, eleitoral e à inflação elevada.

No caso da Bolsa, Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos, destaca a correção nas empresas de commodities, principalmente as energéticas, como o principal impedimento para uma valorização mais forte do Ibovespa. Beyruti ainda diz que a queda do dólar impacta negativamente nos papéis das empresas exportadoras, como Petrobras, JBS e Vale:

— É uma questão de rotação de ativos. O investidor vende o que está caro e compra o que está barato. E como os ativos de commodities têm peso muito grande no Índice Ibovespa, isso acaba atrapalhando o resultado geral.

BRENT SOBE 8,74% NA SEMANA

O petróleo iniciou o pregão em baixa depois do fechamento de um acordo de fornecimento de gás entre Estados Unidos e União Europeia (UE), que busca reduzir a dependência energética da Rússia. Os termos preveem ao menos 15 bilhões de metros cúbicos de gás natural liquefeito (GNL) para os países da UE. 

Líderes da região ainda firmaram um acordo, em uma cúpula em Bruxelas, para que realizem compras conjuntas de gás natural, e dessa forma, possam obter preços menores.

 “Em vez de competirmos uns com os outros, elevando os preços, uniremos as nossas demandas”, disse a presidente da Comissão Europeia, Úrsula Von Der Leyen. 

Ainda assim, o petróleo acabou fechando o pregão em alta após informações sobre um incêndio que atingiu instalações da Saudi Aramco. A Arábia Saudita é um dos grandes produtores da commodity .O barril do Brent para junho fechou com valorização de 1,79%, a US$ 117,37. Já o contrato para maio do WTI, referência do mercado americano, encerrou com valorização de 1,38%, a US$ 113,90. 

Na semana, o Brent subiu 8,74%, enquanto o WTI, 8,78%. Segundo nota do JP Morgan, os consumidores já estão reagindo às altas e reduzindo o consumo. No próximo trimestre, a demanda por petróleo deve ser de 1,1 milhão de barris por dia a menos do que o previsto anteriormente.