Valor Econômico, v. 23. n. 5689, 13/02/2023, Agronegócios, B8
Menor oferta pode elevar preços internacionais de lácteos
Érica Polo


A expectativa de produção mais enxuta de leite em regiões fornecedoras importantes, como Mercosul, Nova Zelândia e EUA, acende um sinal de alerta para o segmento em 2023 - e, na esteira, para o consumidor brasileiro. A consequência direta da menor oferta global, como se viu no ano passado no Brasil, é a alta dos preços dos derivados lácteos. 

Isso porque as indústrias que atuam no país têm ampliado importações em busca de matéria-prima a preços mais competitivos - movimento que acontece desde meados de 2022. Com a menor produção nas fazendas brasileiras, os preços internos de matéria-prima subiram. 

Em janeiro, as importações somaram 151 milhões de litros (equivalente leite), com alta de 132% ante um ano antes. Em 2022 como um todo, aumentaram quase 30% e chegaram a 1,31 bilhão de litros. 

Neste primeiro semestre, época de entressafra no Brasil, as companhias estão fechando programações de importação até junho. Não é um movimento incomum, mas há quem já garantiu compras por um tempo mais longo. Se é usual negociar contratos de 90 dias, pelo menos uma grande empresa fechou todo o semestre antecipadamente para escapar de oscilações de preços, afirmou uma fonte do segmento. 

Com a esperada redução da produção em outros países, desponta uma tendência de alta para o leite em pó integral (o produto mais negociado por essas empresas) no exterior nos próximos meses. 

Projeção elaborada pela consultoria Milkpoint Mercado a partir de dados da plataforma Global Dairy Trade (GDT) e da bolsa de valores NZX Futures, ambas ancoradas na Nova Zelândia - líder global em fornecimento de leite -, mostra, por ora, altas médias para a tonelada um pouco superiores a 2% entre março e junho, com pico de US$ 3,5 mil em junho na NZX Futures. 

Os valores vinham recuando, após a tonelada do leite em pó alcançar US$ 4,7 mil na GDT em março de 2022. A produção nos EUA e na Nova Zelândia deve crescer, mas menos do que o esperado, diz Valter Galan, sócio da consultoria. Os dois países respondem por 100 bilhões de litros e 21 bilhões de litros, nessa ordem. 

Atualmente, os importadores brasileiros estão pagando um preço superior ao das referências das plataformas neozelandesas. É que o leite vem de fornecedores do Mercosul, e há um descolamento de cotações entre esses mercados agora. Em janeiro, por exemplo, a tonelada de leite em pó foi negociada a US$ 3,8 mil com os países vizinhos, enquanto rondava US$ 3,3 mil na GDT. 

Demanda 

A razão para a valorização no continente americano é a própria demanda brasileira. A diferença de preços entre a matéria-prima nacional e a importada chega perto de 30%. O Brasil, vale lembrar, importa de Argentina e Uruguai porque nestes casos não incide tarifa externa comum (TEC) sobre o leite, de 28%. 

A Argentina, porém, está enfrentando adversidades climáticas e sua produção poderá cair entre 2% e 5% em 2023, projeta a Milkpoint. O país deverá produzir pouco mais de 11 bilhões de litros neste ano. 

Por outro lado, é esperada uma recuperação da produção brasileira em 2023, ao menos para repor a queda que ocorreu em 2022, perto de 5%. A produção esbarrou nos 23 bilhões de litros, segundo o IBGE. 

“Para 2023, o clima é favorável e os custos de alimentação do rebanho caíram. E houve alta de 25% nos preços pagos ao produtor em 2022”, diz Laércio Barbosa, presidente da Associação Brasileira de Lácteos Longa Vida (ABLV). 

À parte da oferta de matéria-prima, será preciso observar a demanda - já que o comportamento do consumo interfere nos preços domésticos. As tendências inflacionárias da produção no campo e dos preços ao consumidor devem ser estudadas separadamente, diz Paulo Martins, pesquisador da Embrapa. 

Por ora, apesar dos desafios, agentes setoriais não esperam que 2023 repita recordes em preços de lácteos como se viu no ano passado.