O Globo, n 32.373, 26/03/2022. Política, p. 09

Noite de celebração e reverência ao teatro na ABL

Bolívar Torres


Fernanda Montenegro toma posse diante de auditório lotado: 'Sou a primeira representante da cena brasileira a ser recebida nesta academia: destacou a atriz

Quem acompanhou a preparação de Fernanda Montenegro para sua posse na cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, oficializada em cerimônia no Petit Trianon na noite de ontem, que contou com autoridades como o prefeito Eduardo Paes, espantou-se com a dedicação e disciplina da atriz. E foi como se, aos 92 anos, ela se preparasse para uma peça. Sendo que o papel de acadêmica já pode ser visto como um de seus trabalhos mais intensos. 

— Sou atriz. Venho dessa mística arte arcaica eterna que é o teatro. Sou a primeira representante da cena brasileira a ser recebida nesta academia —disse Fernanda, em um discurso que misturou sua própria história no teatro com a trajetória das artes cênicas no Brasil.

A atriz relembrou um conceito de Shakespeare — a vida é um palco— para definir sua relação com o mundo. — Todos nós, seres humanos, somos atores neste palco. Agradeço com meu coração e minha razão estar sendo aceita nesta casa com esse elenco protagonista—disse, aproveitando para falar sobre a política de cultura do governo. 

—Resistimos. Somos eternos.

Nas cerimônias de posse, todo novo acadêmico é “recebido” por um veterano. Ontem, esta função coube à amiga Nélida Piñon, que teve seu discurso lido pela filha de Fernanda Montenegro, a atriz Fernanda Torres. Em seu texto, ela definiu a entrada da nova acadêmica como um grande dia para a pátria. E relembrou as origens da empossada, neta de portugueses e italianos. 

— Fernanda Montenegro tem o tamanho do Brasil —disse Nélida. Seu texto falou ainda sobre o olhar da homenageada sobre aspectos humanos.

— Não houve falha de Fernanda Montenegro no amor à arte de interpretar. Nem ao amor à condição humana — disse Fernanda Torres interpretando as palavras de Nélida Piñon. —Afirmo que Fernanda foi tecida por uma fervorosa adesão ao Brasil. Cumprindo com seriedade todas as etapas, a Grande Dama, mesmo sem rivais para a cadeira (ninguém ousou concorrer contra ela), não deixou a campanha de lado e fez questão de passar por uma eleição, ocorrida em novembro. Recebeu 32 dos 34 votos (dois foram em branco).

Na última quinta-feira, dedicou-se ao ensaio da posse. Ontem à noite, a mais nova acadêmica chegou ao Petit Trianon, uma hora antes da cerimônia. 

— É como a preparação de um papa —brincou sua assessora Carmen Verônica, que há décadas acompanha os passos da atriz. — Fernanda está com 92 anos e queria muito que esse momento da posse fosse perfeito, sem nenhum problema.

E assim foi. Em julho, a atriz deverá reencontrar o Teatro R. Magalhães Jr., no prédio da ABL, pela primeira vez como acadêmica, para uma leitura de Nelson Rodrigues. Fernanda conhece bem o local, onde se apresentou diversas vezes. Em uma delas, em 2013, interpretou uma adaptação do romance “Capitu, memórias póstumas”, de seu agora colega de fardão, Domício Proença Filho.

— A leitura foi um momento mágico, uma das maiores alegrias da minha vida — lembrou Proença. — Ficamos amigos depois desse projeto. Após ser eleita, ela adotou um recolhimento necessário, que mostra como levou a sério a preparação.

“HONRA E PRIVILÉGIO”

Antes da posse, Ignácio Loyola Brandão disse que, se pudesse, se ajoelharia aos pés da atriz:

—É uma honra e um privilégio ser seu contemporâneo e sentar-se ao seu lado nesta Academia —disse. O autor de “Não verás país nenhum” justificou:

— A  Academia é de personalidades da cultura e da arte e da literatura. Existe alguém maior que Fernanda no campo dela? O que fez, em teatro e cinema, suas posições, novelas... ímpar sempre. Admirável. 

Fernanda Torres sublinhou a dedicação envolvida na entrada da mãe na ABL.

— Minha mãe só me dá alegria. Ela é do trabalho, quer se envolver ao máximo na Academia. Está entrando como entra em cena. O presidente da ABL, Merval Pereira, declarou Fernanda empossada na Academia após Domício Proença Filho diplomá-la.

— Foi uma noite histórica — disse Merval. —A Fernanda tem essa vontade de representar a cultura brasileira.