O Globo, n 32.374, 27/03/2022. Economia, p. 18
Advogados ficam mais longe do fórum e mais perto dos clientes
Letycia Cardoso
Após avanço da digitalização, escritórios migram para bairros como Lagoa, Leblon e Barra na nova rotina do pós-pandemia
Após a aula de beach tennis, a advogada Paula Las Haras, de 40 anos, coloca a roupa social e segue para o trabalho de bicicleta elétrica. O trajeto no próprio bairro, o Leblon, leva poucos minutos. A rotina de Paula é cada vez mais comum entre advogados no Rio, que trocaram a proximidade do Tribunal de Justiça, no Centro, pelos bairros da Zona Sul.
O movimento traz à memória a migração, na década passada, de gestoras de recursos à sombra do Morro Dois Irmãos. Um grupo discreto que movimenta milhões e decidiu sair do antigo núcleo do mercado financeiro, no Centro, e se fixar nos arredores da clientela.
No caso dos escritórios de advocacia, porém, não há um enclave definido. Estão na mira áreas nobres, como Leblon, Lagoa e Barra.
A digitalização do Poder Judiciário, que ganhou fôlego durante a pandemia, foi o empurrãozinho que faltava para que as horas no trânsito fossem trocadas por mais qualidade de vida. Assim como viagens de negócios e encontros presenciais deram lugar a reuniões por videoconferência nas empresas, muitas audiências têm sido realizadas on-line. Encontros com juízes ganharam pontualidade ao serem feitos à distância, e o trabalho híbrido tem se mostrado eficiente. A redução no movimento no Centro durante a pandemia também contribuiu para a mudança de endereço.
Sem necessidade de ir ao fórum com frequência, Paula decidiu com o sócio, Eduardo Lustosa, de 47 anos, migrar a sede do LLH Advogados, especializado em consultoria e contencioso tributário, para a Zona Sul. Na rotina dos escritórios de advocacia no pós-pandemia, a própria função do local de trabalho mudou.
—A gente não precisa mais de grandes salas de reunião. Temos um lugar de encontro com apenas 20 cadeiras. Tiramos a recepção, as baias e fizemos uma decoração com cara de casa, que aproxima os clientes —conta Paula, que agora avalia processos com vista para o mar: —Afinal, ninguém procura advogado porque está feliz. O objetivo foi montar um ambiente para diminuir o estresse.
O layout do escritório também ficou diferente para o advogado Leonardo de Campos Melo, de 42 anos, e seus sócios, Rodrigo Moreira, de 38, e Bruno Barreto, de 34, desde que mudaram, em janeiro deste ano, o LDCM, de contencioso estratégico e arbitragem, do Centro para uma casa à frente da Lagoa Rodrigo de Freitas. No campo pessoal, ao gastar menos tempo nos traslados, os três ganharam momentos com as famílias e passaram a praticar mais esporte.
A decoração é moderna e colorida, muito distante do imaginário tradicional de escritório repleto de tons sóbrios. O subsolo abrigará um auditório onde serão realizados eventos abertos à comunidade, como palestras sobre cultura, tecnologia, ciência e educação. No andar superior, a sala Corcovado, com paredes de vidro, varanda ao ar livre e vista para o Cristo Redentor é o ponto mais disputado, contam.
—Tenho feito muitos almoços com clientes aqui. É o meu lugar preferido — revela Melo.
A proximidade com o cliente é ponto citado por todos que mudaram o CEP do escritório. Os sócios do PDK Advogados, Raphael Dutra, de 31 anos, e Rafael Pistono, de 44, instalaram na última semana o escritório especializado em telecomunicações, privacidade e proteção de dados na Barra da Tijuca. O ambiente formal deu lugar a um espaço mais moderno, com janelas amplas, mesa grande, laptops e mais interação.
—A gente viveu muito tempo com reuniões fora do escritório. Os clientes pediam para marcar em algum café ou restaurante da Barra ou Zona Sul. A ideia é fazer com que eles se sintam à vontade para irem ao escritório —explica Pistono.
Além da facilidade de transporte, pelo amplo número de vagas na região para carros e a proximidade do metrô, há flexibilidade para encaixar o trabalho na rotina pessoal.
Pistono acorda às 5h30 para pedalar, deixa o filho na escola e segue para o escritório. Quando não há compromissos, o almoço é com a esposa em casa, a poucos minutos de distância. Já Dutra tem agora a oportunidade de colocar em prática um hobby que sempre desejou: aulas de piano. Para isso, sai às 18h do escritório e, quando precisa, retorna sem ter de enfrentar muito trânsito.
—As pequenas pausas fazem com que sejamos mais eficientes trabalhando. Conciliar tudo sem perder horas com deslocamento tem sido muito prazeroso —diz Dutra.
A mudança do Centro para a Zona Sul também vem sendo planejada pelo Veirano Advogados. A ideia é ir para um espaço menor, no Leblon, em agosto.
—O espaço novo será aproveitado de maneira mais adequada ao nosso contexto atual de trabalho híbrido. Teremos áreas no estilo open office, de convívio, salas de reunião, auditório, cafeteria e o que mais fizer sentido para a recepção de amigos, clientes e parceiros —adianta Paula Surerus, sócia-gestora do Veirano Advogados.
E mesmo quem continua no Centro busca novos ares. O LP Law, de direito empresarial, por exemplo, acaba de se mudar para um imóvel a duas quadras do aeroporto Santos Dumont, com salas altamente tecnológicas, para a realização de videoconferências.
—O local deixou de considerar a posição em relação ao fórum e passou a priorizar o deslocamento. Os clientes pousam no aeroporto e chegam rápido no escritório — diz o sócio Alessander Lopes Pinto: —No meu caso, basta cruzar o Aterro do Flamengo.