Valor Econômico, v. 23. n. 5690, 14/02/2023, Finanças, C2
Ativos locais sobem com investidor atento a disputa entre governo e BC
Arthur Cagliari, Augusto Decker, Gabriel Roca e Matheus Prado


Os ativos locais exibiram performance positiva na sessão de ontem, com os investidores acompanhando de perto novidades sobre as críticas do governo federal ao Banco Central. 

No fim da sessão, o dólar comercial fechou em queda de 0,88%, cotado a R$ 5,1760, e o Ibovespa teve ganhos de 0,70%, aos 108.836 pontos. No mercado de juros, a recuperação ficou mais concentrada nos vértices mais longos da curva: a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuou de 13,10% para 13,08% e a do DI para janeiro de 2033 caiu de 13,61% para 13,48%. 

As críticas recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Banco Central (BC) e ao nível de juros atualmente praticado no país fizeram com que ganhasse força entre membros do governo a ideia da necessidade de elevar as metas de inflação, atualmente em 3,25% para 2023 e em 3% para 2024 e 2025. O Valor noticiou, inclusive, que interlocutores do PT acreditam que o presidente do BC, Roberto Campos Neto, sinalizará na reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) a possibilidade de rever a meta do ano para 3,5%. 

Um eventual movimento nesse sentido é tido como amplamente negativo por agentes do mercado, o que tem pressionado os ativos locais. No entanto, o mercado mostra sensibilidade e segue especulando sobre se e quando ocorrerão as discussões. 

Além disso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou durante evento do PT que as propostas do Desenrola, programa de renegociação de dívidas de pessoas físicas, e de mudanças na tabela do Imposto de Renda (IR) estão prontas para serem analisadas pelo presidente Lula. Uma fonte disse ao Valor que Haddad também abordou “política fiscal e política monetária” durante a reunião do diretório. 

Parte do movimento observado nos juros futuros nos últimos dias foi desfeito. Em meio às perspectivas de que a alteração nas metas de inflação pudesse abrir algum espaço para cortes de juros, os vértices curtos da curva vinham exibindo queda. Já as taxas longas subiam, diante da necessidade de juros de equilíbrio maiores para contrapor uma inflação mais elevada no médio e longo prazo. 

Não obstante, profissionais do Santander esperam que o movimento de inclinação da curva de juros se intensifique adiante. “Desde que o BCB encerrou o ciclo de aperto, temos argumentado que os vértices de dois e cinco anos deveriam se inclinar, principalmente por conta das incertezas sobre a trajetória de consolidação fiscal, em um contexto de juros internacionais mais altos. Mantemos essa visão para o médio prazo e não antevemos mais uma redução temporária desta inclinação”, dizem. 

As incertezas dos agentes financeiros acerca das metas de inflação e dos problemas fiscais do país seguem se materializando em um movimento de revisão nas projeções de inflação de curto e médio prazo. Ontem, o relatório Focus, do BC, apontou que a estimativa dos agentes financeiros para o IPCA em 2023 subiu de 5,78% da semana passada para 5,79%. Para 2024, a previsão foi para 4%, de 3,93%, e em 2025 chegou a 3,60%, de 3,50%. 

Para Matheus Pizzani, economista da CM Capital, é muito cedo para o Conselho Monetário Nacional (CMN) discutir eventuais mudanças nas metas de inflação do país. “Muita coisa precisa ser alinhada ainda. O [Fernando] Haddad e a [Simone] Tebet têm pouco tempo em suas pastas. Alguns nós precisam ser desatados para se ter um cenário mais certo para esse tipo de discussão, como a definição do arcabouço fiscal e da reforma tributária”, disse. “Particularmente, não acredito que esse debate seja resolvido no curto prazo.” 

Lucas Tambellini, sócio da Sumauma Capital, lembra que, enquanto o estrangeiro segue como comprador dos ativos locais, o investidor local vende, pressionado pelos juros e pela falta de visibilidade. Isso só muda, em sua visão, com uma maior clareza em relação à qualidade do ciclo de queda de juros, que inevitavelmente virá, diz, por conta das condições macroeconômicas, mas pode não ser sustentável em caso de imposição política. 

“O mercado terá mais elementos em abril, quando o novo arcabouço fiscal for apresentado e a reforma tributária começar (ou não) a andar. Acredito que a discussão de meta é marginal. Lula está jogando para os seus eleitores, mas temos que lembrar que foi o Congresso que aprovou medidas como a independência do BC e a privatização da Eletrobras. Então, ou o governo mostra ter uma base no Legislativo que ainda não demonstrou, ou estamos falando de ruídos”, diz.