O Globo, n 32.375, 28/03/2022. Política, p. 08
Articulação no PSDB para ignorar as prévias é um ''golpe'', diz Doria
Mariana Rosário e Thiago Prado
Após ensaiar migrar para o PSD, Eduardo Leite decidiu ficar no partido e começou a avisar aliados em telefonemas ontem
O governador de São Paulo, João Doria, afirmou ontem que a existência de qualquer articulação no PSDB para retirá-lo das eleições presidenciais configura um “golpe”. A declaração foi dada após a movimentação de parte dos tucanos para ignorar as prévias realizadas em novembro —com vitória de Doria — em prol de uma candidatura de Eduardo Leite, derrotado no pleito interno. Após ensaiar migrar para o PSD, o governador gaúcho decidiu ficar no PSDB e começou a avisar aliados em telefonemas na noite de ontem, véspera da coletiva em que anunciará sua saída do cargo.
Desde o convite para entrar no PSD feito pelo presidente do partido, Gilberto Kassab, uma ofensiva para manter Leite foi realizada pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) e o deputado Aécio Neves (PSDB-MG). Leite havia sinalizado que deixaria o PSDB para disputar o Palácio do Planalto, mas mudou de ideia ao longo da última semana, analisando argumentos apresentados por aliados. O principal deles, o fato de o PSD nos estados ter candidatos a governador alinhados ao presidente Jair Bolsonaro e ao ex-presidente Lula.
A negativa de Leite impõe o desafio a Kassab de buscar uma nova alternativa para a disputa ao Planalto. No ano passado, o plano A do presidente do PSD era a candidatura do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG), que deixou o DEM, mas acabou recuando de participar da corrida como opção da terceira via. Kassab chegou a abrir conversas com Lula e o PT, mas insiste que o partido que comanda terá candidatura própria e, assim, começou a negociar com Leite.
Aliados de Leite no PSDB dizem que a convenção da sigla vai homologar o nome do candidato a presidente, independente do resultado das prévias. Avaliam ainda que os demais partidos que negociam com os tucanos —União Brasil, MDB e Cidadania —são simpáticos ao governador gaúcho e que a aliança estaria acima da disputa das primárias do PSDB.
— Uma tentativa torpe, vil, de corroer a democracia e fragilizar o PSDB —afirmou Doria ontem, durante coletiva para anunciar uma nova etapa da vacinação da quarta dose contra Covid, ao ser questionado sobre a articulação de integrantes do partido para não reconhecer as prévias da sigla.
Até ontem, Doria estava deixando as críticas públicas a cargo de aliados. O tesoureiro do PSDB, César Gontijo, já havia cobrado “ética” de Leite ao lembrar o gasto do partido com a realização das prévias. O governador de São Paulo ontem foi na mesma linha.
— Diante de prévias realizadas com o amparo da Justiça Eleitoral, com investimentos também registrados na Justiça Eleitoral, foram R$ 10 milhões investidos, as prévias valem —disse Doria.
PARTIDO RACHADO
O PSDB saiu rachado das prévias e, quatro meses depois, Doria não conseguiu unir o partido. O pleito foi marcado por idas e vindas, e chegou a ser adiado após um episódio de suspeita de ataque hacker ao sistema de votação. Ao fim das eleições internas, Doria recebeu 53,99% dos votos, e derrotou Leite, que somou 44,66%, e o ex-senador e ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio, que teve apenas 1,35%.
Com rejeição menor (14%), Leite passou a ser cortejado pelo PSD. Para tentar evitar a saída de Leite, membros e aliados do PSDB escreveram uma carta em que pediam ao governador do Rio Grande do Sul para permanecer na sigla. Nas redes sociais, o gaúcho afirmou que ficou “sensibilizado” com a iniciativa e prometeu que seguiria em diálogo com os tucanos.
O documento que agradou Leite contava com a assinatura de quase três dezenas de integrantes do PSDB e foi realizado sob a liderança do senador Tasso Jereissati. Um dos principais nomes que avaliza a carta é o presidente nacional do partido, Bruno Araújo, coordenador da campanha de Doria.
O governador de São Paulo não foi um dos signatários da carta, mas, quando questionado sobre o assunto, disse que pediu ao presidente do diretório de São Paulo, Marco Vinholi, que a assinasse.
— Nós queremos que o Eduardo Leite permaneça no PSDB. Quando assina o presidente, ele assina em nome de todos nós — declarou na ocasião.