O Globo, n 32.375, 28/03/2022. Economia, p. 12
BDRs de empresas “tech'' entram no radar de investidores
Nathália Larghi
Estudo mostra que papéis de Meta, Alibaba e Amazon são os favoritos dos brasileiros de mais alta renda neste início de ano
Em um cenário de guerra internacional, inflação e juros mais altos, espera-se que os investidores busquem ativos mais seguros. No entanto, não é o que vem acontecendo, especialmente entre os mais ricos. Um estudo da consultoria Smartbrain mostrou que o radar dos investidores brasileiros ricos está ligado aos Brazilian Depositary Receipts (BDRs), especialmente aqueles relacionados ao setor de tecnologia.
Os BDRs são recibos de ações de empresas listadas no exterior, mas negociados na B3. Ou seja, é uma forma de investir indiretamente em ações da Meta (dona do Facebook), Amazon e outras, mesmo estando no Brasil. E foram justamente esses papéis que ganharam a atenção dos investidores no começo deste ano.
Segundo o levantamento da fintech Smartbrain, em janeiro os três papéis mais negociados na Bolsa pelos investidores de mais alta renda foram os BDRs da Meta, do Alibaba e da Vale. Em fevereiro, os recibos de ações da empresa de Mark Zuckerberg e do e-commerce chinês se mantiveram no topo, mas no lugar da mineradora entrou a Amazon.
A pesquisa foi feita com base na plataforma da fintech, que processa diariamente mais de 300 mil extratos de investimentos, somando mais de R$ 210 bilhões de patrimônio. A maioria dos investidores considerados na pesquisa é assessorada por consultores, gestores de patrimônio, gerentes de e e escritórios de agentes autônomos. Portanto, é possível afirmar que leva em conta os ativos em que os investidores mais ricos aplicaram.
JUROS NOS EUA
Segundo analistas, o fato de esses investidores focarem em empresas de tecnologia neste momento surpreende, mas pode ser justificado pela busca de boas oportunidades.
—O Alibaba, no começo do ano, teve uma queda bem acentuada e, simultaneamente, nunca esteve melhor. Então, há espaço para alta — diz Alberto Amparo, principal executivo de análise internacional na Suno Research.
Uma das principais razões para a queda do Alibaba foi a possibilidade de “deslistagem” das empresas chinesas nas Bolsas americanas. No fim de 2021, a Securities and Exchange Commission (SEC), regulador do mercado americano, determinou que empresas estrangeiras que não cumprissem padrões de auditoria dos Estados Unidos seriam expulsas das Bolsas do país. Isso, segundo Amparo, assustou os investidores, ainda que não haja motivo, já que os fundamentos da empresa continuam os mesmos:
— Alibaba nem estava entre as mencionadas. E as empresas terão 24 meses para se adaptar, então a probabilidade de não se encaixarem é pequena. Alibaba continua pujante. As ações caíram como se a empresa tivesse piorado e não foi o que aconteceu.
No caso da Meta, outra que registrou queda no início do ano, pesou o fato de as novas configurações de privacidade da Apple terem afetados os resultados de venda de anúncios do Facebook.
—Só que a Meta é uma empresa que já venceu inúmeros desafios. Então segue sendo uma boa oportunidade —explica Amparo.
Por fim, a Amazon também mostra possibilidade de alta, justamente devido às quedas recentes após o lucro líquido baixo no trimestre, diz Amparo:
— Os investidores são muito imediatistas. O investimento da Amazon é em pessoas, em crescimento.
Já Jennie Li, estrategista de ações da XP Investimentos, avalia que essas companhias podem sofrer mais devido à perspectiva de juros maiores nos EUA. Este mês, o Federal Reserve, o banco central americano, elevou os juros pela primeira vez desde 2018, do intervalo entre zero e 0,25% para entre 0,25% e 0,50% ao ano.
Segundo Jennie, isso impacta negativamente companhias chamadas “de crescimento”, que precisam reinvestir seu capital para ampliar os negócios. Como elas normalmente fazem mais dívidas para financiar seu crescimento, quando os juros sobem, o resultado operacional delas piora. Afinal, elas vão pagar mais caro por seus empréstimos.
— Há dois tipos de setores em que gostamos de dividir o mercado: o de crescimento e o de valor. Crescimento são essas como Amazon, Facebook, Uber. Elas têm potencial de gerar lucro, mas, por enquanto, ainda estão crescendo. Doou trolado há os bancos e produtoras de commodities, que são empresas de valor: já cresceram muito no passado e agora são mais sólidas. Elas pagam mais dividendos, porque não precisam reinvestir caixa pra crescer — explica a analista.
Para ela, o fato de o grupo de investidores analisado ser mais endinheirado e, em muitos casos, contar com a assessoria de profissionais pode justificar a estratégia de optar pelos BDRs de tecnologia:
— O investidor que está bem informado vai encontrar as oportunidades.
EM 2021, ‘DE VALOR’
No ano passado, o cenário de preferência dos investidores era bem diferente. As três favoritas do grupo analisado pela Smartbrain foram justamente ações “de valor”: Vale, Banco do Brasil e a própria B3. O critério usado pela companhia foi a posição média que cada ativo teve nos rankings mensais, ponderada pela quantidade de meses em que apareceu nas listas dos mais aplicados.
A Vale foi a ação favorita em 2021 entre esse público, com volume de negociação de R$ 637,3 bilhões. Ao longo do ano, porém, sua valorização não foi tão alta: 4,83%. O Banco do Brasil ficou em segundo lugar, apesar de suas ações terem caído 19,89% ao longo de 2021. O mesmo aconteceu com a B3, terceira colocada, que registrou recorde de volume financeiro, com R$ 7,04 trilhões, mas teve queda de 42,25% no valor dos papéis.
As três empresas são consideradas defensivas pelos analistas. Isso significa que, ao aplicar nessas ações, os investidores não estão em busca de rentabilidades muito altas, mas sim de proteção para sua carteira, já que se trata de empresas consolidadas e resilientes em momentos de crise.
—Elas têm mais poder para passar por períodos de inflação. Por isso aparecem no topo —diz Jennie.
Os analistas, no entanto, são categóricos ao afirmar que a principal estratégia deve ser a diversificação e o respeito ao perfil e objetivos de cada investidor.