Valor Econômico, v. 23. n. 5692, 16/02/2023, Finanças, C2
Ativo local tem reação positiva a fala de Haddad
Arthur Cagliari, Augusto Decker, Gabriel Roca e Matheus Prado
Um dia após o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, fazer acenos ao governo federal, foi a vez de o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), colocar panos quentes no atrito entre a autarquia e o Executivo, o que impulsionou os ativos locais na sessão de ontem. Investidores também gostaram da sinalização do petista de que a apresentação de uma nova âncora fiscal pode ser antecipada para março.
No fim da sessão, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 caiu de 13,45% do ajuste anterior para 13,285%, e a do DI para janeiro de 2027 recuou de 13,135% para 12,88%. O Ibovespa avançou 1,62%, aos 109.600 pontos, enquanto o dólar, que seguiu dinâmica externa de valorização da moeda americana, se descolou dos mercados locais e teve alta de 0,44%, cotado a R$ 5,2205.
Ainda que a volatilidade siga elevada, acenos do governo ao BC, que já havia feito movimento semelhante na terça-feira, permitiram uma sessão de alívio. Na avaliação de agentes financeiros, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tem reduzido o volume de críticas ao Banco Central, “terceirizando” a missão para outros membros do partido e congressistas.
Além disso, em evento organizado ontem pelo BTG Pactual, Haddad apontou que planeja apresentar a proposta de um novo arcabouço fiscal já em março e, apesar de voltar a expressar o desejo do governo por juros mais baixos, ressaltou que há comunicação diária com o Banco Central e os ruídos atuais são momentâneos. O ministro reforçou a necessidade de harmonia entre as políticas fiscal e monetária, mas assegurou que o diálogo com Campos Neto nunca foi interrompido.
Haddad negou ainda os rumores de que uma alteração nas metas de inflação estivesse na pauta da reunião desta quinta-feira do Conselho Monetário Nacional (CMN), mesmo que a demanda do governo pareça cada vez mais precificada pelo mercado. No mesmo evento, Rogério Xavier, da SPX Capital, Luis Stuhlberger, da Verde Asset, e André Jakurski, da JGP, concordaram que as metas de inflação deveriam ser revisadas para que sejam críveis.
Andres Abadia, economista-chefe para América Latina da Pantheon Macroeconomics, afirma que os sinais dados pelo ministro são positivos, mas que investidores seguem preocupados com possíveis mudanças nas metas. “Enquanto as falas de Haddad são vistas com algum otimismo, as expectativas de inflação estão subindo mesmo para horizontes mais distantes, e uma revisão da meta atual pode prejudicar a credibilidade do sistema monetário”, diz.
Mais pessimista está o investidor local. O chefe de ações de um banco de investimento disse ao Valor, em condição de anonimato, que movimentos de descompressão como o de ontem devem correr sempre que houver noticiário marginalmente positivo, já que o mercado está “leve” e com muitos papéis “shorteados” [com investidores apostando na sua queda]. Na sessão, Hapvida ON subiu 7,64%, MRV ON avançou 5,85%, refletindo a volta do programa Minha Casa, Minha Vida, e Natura ON teve alta de 5,73%.
No entanto, essa fonte acredita que o investidor local segue em compasso de espera e sem dar prioridade ao mercado de ações. “Temos sorte que o exterior está ajudando, ainda que o investidor estrangeiro esteja focado em uma carteira mais defensiva, e o resto dos papéis do índice, mais dependentes do cenário local, estejam ‘largados’, com o investidor doméstico ainda pessimista. Haddad disse que irá entregar uma proposta de arcabouço no mês que vem, mas o mercado não está com expectativas amplamente positivas. E as metas de inflação também devem ser alteradas, o que também não é animador”, diz.
Globalmente, dados de varejo acima do consenso nos Estados Unidos catapultaram o dólar para uma sessão de altas, neutralizando a melhora do real.