Valor Econômico, v. 23. n. 5693, 17/02/2023, Finanças, C2
Mercado local tem nova sessão de ganhos
Arthur Cagliari, Augusto Decker, Gabriel Roca e Matheus Prado 

 

Na medida em que a temperatura do conflito entre o governo e o Banco Central arrefece por ora, os ativos locais voltaram a ter sessão com alguma descompressão de prêmios de risco ontem. O Ibovespa subiu 0,31%, a 109.941 pontos, enquanto o dólar comercial terminou com uma queda de 0,18%, cotado a R$ 5,2110. Após ajustes, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 caiu de 13,27% do ajuste anterior para 13,205%; e a do DI para janeiro de 2026 passou de 12,69% para 12,675%. 

O início do pregão foi de estresse elevado, após o governo confirmar que o salário mínimo, atualmente em R$ 1.302, deve ser reajustado para R$ 1.320 a partir de maio deste ano. Além disso, para evitar que o Imposto de Renda alcance um número maior de trabalhadores, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) explicou que também ficou acertado que a isenção alcançará o equivalente a dois salários mínimos, ou R$ 2.640, em 2024. 

Participantes do mercado afirmam que, enquanto outros setores do governo já desenvolvem suas políticas e aumentam gastos, as pastas econômicas ainda não apresentaram medidas para equilibrar as contas do país. Não obstante, à tarde, investidores reagiram bem a alguns pontos da entrevista do presidente à “CNN Brasil”. 

Lula afirmou, entre outros pontos, que não cabe ao presidente da República “ficar brigando” com o chefe do BC. “Eu até teria direito, porque ele não é presidente do BC indicado por mim, ele foi indicado pelo [Jair] Bolsonaro, ele foi indicado pelo [Paulo] Guedes. Então, significa que a cabeça política dele é uma cabeça muito diferente da minha e daqueles que votaram em mim. Mas ele está lá, tem um mandato.” 

Celso Pereira, diretor de investimentos da Nomad, afirma que havia uma certa cautela em relação à entrevista do Lula, mas que, depois do fato, houve uma perspectiva de que o presidente levantou uma bandeira branca, acenando que quer evitar conflito com o BC. Ele diz ainda que o fato de a revisão das metas de inflação não ter estado na pauta do encontro do Conselho Monetário Nacional (CMN) ajudou. “Agora resta acompanhar o desdobramento do arcabouço fiscal. O BC vai depender muito disso para se comunicar, e o mercado vai ficar em posição de cautela.” 

Nessa linha, as ações ligadas à economia local voltaram a se destacar na sessão, em movimento de descompressão de prêmios de risco, mas também técnico, já que o mercado está pouco posicionado e muito vendido nos setores. CVC Brasil ON teve alta de 7,23%, Hapvida ON subiu 4,06% e Rumo ON ganhou 2,98%, também refletindo seu balanço trimestral. 

Para Gabriela Joubert, analista-chefe do Inter, as incertezas domésticas seguem no radar e têm provocado fortes oscilações no mercado local. “Vimos alguns atritos do governo com o BC, mas nos últimos dias ficou claro que também existe uma ala do Executivo preocupada com a mensagem que vem sendo passada. A tendência é que o cenário permaneça sensível”, afirma. 

A executiva diz ainda que a estabilização do mercado externo, conforme o otimismo das primeiras semanas do ano se esvai, e a temporada de balanços do quarto trimestre de 2022, que trouxe, até aqui, alguns resultados abaixo das expectativas, também pressionaram a performance do índice. 

Segundo pesquisa realizada em fevereiro pelo Bank of America com gestores de 35 fundos latino-americanos, a política local segue sendo o que mais preocupa os investidores, mas as atenções estão se dividindo. A possibilidade dos EUA terem juros mais elevados e da economia americana passar por desaceleração e a conjuntura da China ganharam mais importância. 

Os níveis de caixa do grupo estão em 7,6% (a média histórica da pesquisa, iniciada em 2018, é 4,9%); 17% estão tomando mais risco que o normal (média histórica é 22%); e 49% tinham proteções contra quedas agudas nos mercados acionários nos próximos três meses (contra média de 36%).