O Globo, n 32.377, 30/03/2022. Economia, p. 12

Bolsonaro pede a Pires diálogo com Congresso

Malu Gaspar e Manoel Ventura


Presidente teve 3 reuniões fora da agenda com indicado para assumir Petrobras e quer que estatal melhore a comunicação

O presidente Jair Bolsonaro se reuniu em segredo com o economista Adriano Pires três vezes nas últimas duas semanas, antes de indicá-lo para substituir Joaquim Silva e Luna na presidência da Petrobras, como antecipou o blog da colunista do GLOBO Malu Gaspar. Os encontros não foram registrados na agenda oficial do presidente da República.

Nas três conversas, sempre com a presença do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, Bolsonaro disse considerar que a Petrobras se comunica mal com a sociedade e afirmou estar em busca de alguém que se comunicasse melhor, inclusive na interlocução com o Congresso.

O nome de Pires passou a ser considerado depois que a ideia de nomear o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, tornou-se inviável. No comando executivo da companhia, Landim enfrentaria conflitos de interesse. O executivo, porém, disse a interlocutores próximos que rejeitou o convite porque não queria deixar o Flamengo.

Como consultor de empresas, Adriano Pires é um dos especialistas mais ouvidos na imprensa sobre assuntos como petróleo, gás e energia. Sua consultoria é o Centro Brasileiro de Infraestrutura.

AMORTECER IMPACTO

Segundo interlocutores, Bolsonaro teria dito a Pires que não quer mudar a política de preços da Petrobras. Mas gostou de ouvir do economista que seria necessário fazer um fundo para subsidiar os combustíveis por tempo determinado, amortecendo o impacto da alta dos preços do petróleo no mercado internacional.

Pires já se manifestou a favor dessa proposta, defendendo que fossem usados recursos como dividendos pagos pela Petrobras à União, royalties e participações especiais. Esse fundo amenizaria o impacto ao consumidor em momentos de turbulência, como o causado pelo conflito entre Rússia e Ucrânia.

Constituir esse fundo, porém, é tarefa para o Ministério da Economia, de Paulo Guedes, e não da companhia. O dinheiro teria que sair da União.

Em Paris para uma série de eventos com empresários e representantes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Guedes disse esperar que a demissão de Silva e Luna não tenha efeitos reais. Além disso, afirmou que a estatal não deve ser privatizada este ano.

“O presidente disse expressamente que não privatizaria a Petrobras neste mandato, o primeiro mandato. Nunca disse nada sobre o segundo mandato”, afirmou, acrescentando que seu sonho como liberal é privatizar a empresa.

Nos encontros com o presidente, Pires afirmou que a guerra da Ucrânia demonstrou a importância do diesel e do gás para a segurança energética do país.

Em uma das visitas ao presidente da República, sempre no Palácio do Planalto, o futuro presidente da Petrobras também se encontrou com o ministro Ciro Nogueira.

No entorno do presidente, a indicação de Pires é atribuída ao ministro de Minas e Energia, com quem o consultor se reúne sempre em Brasília. Nos últimos meses, Pires se tornou figura frequente em reuniões para discutir crises no setor elétrico e de petróleo.

Bolsonaro também pediu a Pires que amplie a interlocução com o Congresso Nacional. Assessores presidenciais esperam mudanças pontuais na política de preços da estatal, sem descaracterizá-la, para atenuar os efeitos dos combustíveis sobre a inflação. Um desejo de parte do governo é que a empresa seja mais “sensível”. Bolsonaro quer uma condução mais política da maior empresa do país, de acordo com interlocutores do governo.

TRAQUEJO POLÍTICO

Bolsonaro escolheu um nome com bom traquejo político especialmente junto ao Centrão (o grupo de partidos que apoiam o presidente) para melhorar a interlocução com os parlamentares. Pires tem bom trânsito com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Com a confiança do mercado e do Congresso, dizem aliados de Bolsonaro, Pires pode fazer eventuais alterações na Petrobras sem causar soluços e crises. Além disso, como especialista do setor, pode montar argumentos técnicos inclusive contra gestores de carreira da Petrobras, avalia o governo.

Adriano Pires é um dos principais críticos das administrações petistas na Petrobras. Para Bolsonaro, é preciso que a empresa demonstre publicamente supostos problemas nessas gestões, especialmente com relação às refinarias que não foram concluídas.

Nas palavras de Bolsonaro a um interlocutor, é preciso “abrir a caixa-preta” da Petrobras. E isso pode ser usado como munição durante a disputa eleitoral.