Valor Econômico, v. 23. n. 5695, 23/02/2023, Agronegócios, B12
Brasil suspende as exportações de carne para a China
José Florentino e Rafael Walendorff


O Ministério da Agricultura anunciou ontem à noite a suspensão das exportações de carne bovina à China e confirmou um caso de doença da “vaca louca” no Pará. O autoembargo entrou em vigor nesta quinta-feira, 23. 

“O assunto está sendo tratado com total transparência para garantir aos consumidores brasileiros e mundiais a qualidade reconhecida da nossa carne”, disse o ministro Carlos Fávaro, em nota. 

Ainda não se sabe se é um caso clássico ou atípico da enfermidade, mas, por se tratar de “vaca louca”, o Brasil deve suspender de maneira voluntária suas exportações de carne bovina à China, como manda o acordo bilateral fechado em 2015. O país asiático foi o principal importador da proteína brasileira em 2022 e destino de 53,3% dos embarques. 

O mercado chinês deve permanecer fechado até que Pequim avalie as informações prestadas pelo governo brasileiro. O Ministério da Agricultura já comunicou a Organização Mundial de Saúde Animal (Omas) e o ministro Carlos Fávaro pode se encontrar com o embaixador da China no Brasil ainda hoje. O resultado do exame realizado pelo laboratório de referência da Omas em Alberta, no Canadá, que poderá confirmar se o caso é atípico deve sair nesta quinta-feira. 

Fontes ouvidas pelo Valor nos últimos dias indicam que se trata de um caso atípico, em que o animal desenvolve a doença naturalmente, devido à idade avançada. Logo, não há risco de propagação da doença, nem de contaminação por humanos. 

Mas, antevendo o autoembargo, as ações dos frigoríficos negociadas da B3 despencaram nesta quarta-feira, 22. Os papéis da Minerva tombaram 7,92%, a R$ 11,40, no que foi o maior recuo da B3 ontem. A JBS e a Marfrig, que dependem menos das exportações do Brasil à China, caíram 4,33% e 4,71%, a R$ 17,91, e R$ 6,27, respectivamente. 

“O mercado usa o que aconteceu no passado para fazer projeções. Em 2019, a China liberou em 13 dias e não deu tempo disso atrapalhar muito. Mas, em 2021, demorou bastante e afetou o resultado dessas empresas no quarto trimestre de forma contudente”, explica Gustavo Troyano, analista do Itaú BBA. 

Segundo Troyano, o mercado costuma esperar o pior e depois fazer correções, conforme a situação se desenha. “Fato é que as exportações ainda nem foram interrompidas, mas parece que o mercado está precificando um cenário em que o mercado chinês não ficará fechado por apenas uma semana”, comenta. 

Por outro lado, o analista do Itaú BBA cita que o Brasil é a melhor opção de fornecimento de carne bovina neste momento. “As questões de abastecimento pesam bastante. Se a China espera ter um crescimento em seu consumo interno, vai ter que ter de onde tirar”, afirma. 

Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, afirma que a China tinha amplos estoques em 2021, o que possibilitou estender o embargo. Este ano, o cenário é outro e fornecedores como Argentina, Estados Unidos e Uruguai têm ofertas limitadas. “Isso joga a nosso favor”, diz. 

Dos três frigoríficos de bovinos, a Minerva continua sendo a preferida do Itaú BBA. Apesar dessa instabilidade no curto prazo, a virada do ciclo pecuário no Brasil tende a favorecer os negócios da companhia, que é a maior exportadora da América do Sul. Assim, em um ano, as ações da empresa ainda acumulam uma alta de 16,8%. 

Nesse mesmo período, JBS e Marfrig têm baixas de 47,91% e 65,32%, já que estão mais expostas ao mercado americano, onde há uma redução gradual da oferta de gado. Troyano explica que a grande dúvida no mercado hoje é onde as margens das operações americanas vão estacionar. “Sabe-se que podem chegar em níveis muito baixos, mas ainda há um ponto de incerteza muito grande”, diz. 

O mercado físico do boi gordo praticamente não funcionou nesta quarta-feira, segundo Iglesias. “Frigoríficos exportadores suspenderam abates nesta semana e vão empurrar a escala. Estão esperando o laudo técnico que virá do Canadá para entender o que vai acontecer”, afirma. No mercado futuro, por sua vez, os contratos do boi para março caíram 5,7%, a R$ 288,65. 

Mesmo estando a certa distância do mercado de bovinos, as ações da BRF, do setor de aves e suínos, caíram 6,71% ontem, a R$ 6,40. Acontece que a gripe aviária tem avançado pela América do Sul nas últimas semanas. Hoje, os países que fazem fronteira com o Brasil lutam para impedir a propagação da influenza. 

O governo brasileiro, os Estados e a indústria também estão reforçando as medidas de biossegurança para impedir a contaminação em granjas comerciais, que, além de poder gerar embargos às exportações de carne de frango, exigiria o abate preventivo de animais. Mais sobre a queda das ações na B3, ontem: Mercados voltam a sofrer pressão externa e registram dia negativo