O Globo, n 32.378, 31/03/2022. Mundo, p. 18
QUEDA DE BRAÇO COM PUTIN
Filipe Barini
EUROPA ESTUDA ALTERNATIVAS APÓS KREMLIN EXIGIR RUBLO PARA PAGAMENTO DE GÁS RUSSO
A um dia do prazo estabelecido pelo governo russo para a apresentação de um novo modelo de pagamento, a ser feito em rublos, pelo gás do país, governos da Europa tentam montar estratégias de emergência para lidar com uma potencial falta do produto, ao mesmo tempo em que emitem sinais de que não devem aceitar as condições do Kremlin.
O impasse ocorre em meio a sanções extremas da União Europeia (UE), dos EUA e de aliados contra a Rússia, como forma de pressionar Moscou a suspender a invasão da diante das quais o gás é uma forma de contra ataque de Vladimir Putin.
O caso mais emblemático é o da Alemanha, principal importador do gás russo, e cujo governo, após titubear inicialmente, adotou uma posição dura contra a invasão. Ontem, Berlim sinalizou que, por enquanto, o fornecimento está garantido, mas já deu o primeiro passo de um plano de emergência para gerenciar a oferta do produto, que pode incluir um eventual racionamento.
O anúncio na semana passada de que o pagamento terá de ser feito em rublos — forma encontrada pela Rússia de sustentar o valor de sua moeda e retaliar as sanções que congelaram suas reservas em euros e dólares no exterior — levou a uma alta de 15% dos já elevados preços do gás na Europa. No entanto, o próprio Kremlin afirmou ontem que a mudança não será imediata, abrindo espaço para negociações.
— Pagamentos e entrega são um processo que demanda tempo. Isso não significa que as entregas de amanhã [hoje] já deverão ser feitas em rublos. De um ponto de vista técnico, esse é um processo mais demorado — afirmou o secretário de Imprensa do Kremlin, Dmitry Peskov.
Em conversa telefônica com o chanceler alemão, Olaf Scholz, o presidente Putin reiterou o desejo de cumprir os contratos vigentes e disse que a decisão de modificar o modelo de pagamento deve ser discutida por especialistas alemães e russos, segundo um comunicado do Kremlin.
DEPENDÊNCIA DO GÁS RUSSO
Já o porta-voz do governo alemão, Steffen Hebestreit, disse que o líder russo deu sinal verde para que os pagamentos de abril sejam feitos em euros e mais tarde convertidos em rublos pelo Sberbank, não afetado pelas sanções. Scholz indicou não estar de acordo.
— Scholz não concordou com os procedimentos apresentados, mas pediu que fossem enviadas informações para entender melhor o mecanismo —disse Hebestreit.
Ainda ontem, Putin conversou por telefone com o premier italiano, Mario Draghi, cujo país também depende das importações de gás russo. Segundo o Kremlin, o presidente detalhou o novo formato de pagamento, anteriormente rejeitado por Roma. Dessa vez, não foi divulgada a resposta de Draghi.
Nesse cenário, o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Ryabkov, declarou que o país pretende continuar a fornecer gás, mas destacou que as circunstâncias mudaram nas últimas semanas. Hoje, 41% de todo o gás consumido na Europa vêm da Rússia, segundo a Direção-Geral de Energia da União Europeia.
—Espero que não enfrentemos a continuação de uma guerra econômica desesperada. Apelo ao bom senso de todos que podem tomar decisões na Europa. A Rússia sempre foi um fornecedor confiável de energia e continuará sendo, mas nossos interesses e demandas devem ser respeitados —disse Ryabkov, em entrevista à RT. — Espero que mudem de ideia, usem o tempo restante para encontrar uma solução criativa para essa situação.
Anunciada em 23 de março, a mudança no sistema de pagamentos atinge o que Moscou considera “países hostis”, que adotaram as sanções que restringiram drasticamente o acesso russo aos mercados financeiros internacionais.
— A Rússia, é claro, vai continuar a fornecer gás natural, de acordo com os volumes e preços acertados em contratos previamente concluídos — disse Putin, ao anunciar a decisão. — As mudanças apenas afetarão a moeda de pagamento, que passará a ser o rublo russo.
Segundo especialistas, a medida ajudará a impulsionar o rublo, que já dá sinais de recuperação após fortes perdas logo depois do anúncio das sanções. Esta semana, a cotação do dólar está abaixo de 90 rublos — há pouco mais de 20 dias, o valor chegou a 139 por dólar.
ESTOQUES ABAIXO DA MÉDIA
Nenhum país até o momento sinalizou que aceitaria as novas condições, elevando o alerta de um potencial corte no fornecimento, no momento em que os estoques da UE estão em apenas 26% da capacidade máxima, bem abaixo da média.
Na França, onde o presidente Emmanuel Macron disse pessoalmente a Putin que não faria pagamentos em rublos, o chefe da agência reguladora de energia declarou que o país não deve ter problemas, uma vez que sua matriz energética, baseada em usinas nucleares, o torna menos dependente do gás russo do que os vizinhos.
No entanto, outros governos,seguindo os passos da Alemanha, adotaram planos de contingência. A Grécia fará uma reunião de emergência para discutir o impacto de uma eventual paralisação no fornecimento, e o governo da Holanda lançará uma campanha para incentivara redução no consumo.
O impasse também aumenta a discussão sobre a redução da dependência europeia do gás russo, uma bandeira levantada por nações do Leste Europeu e pelos EUA antes mesmo de o conflito começar. No caso americano, foi assinado um acordo, na última sexta-feira, para incrementar os envios de gás natural liquefeito (GNL) já este ano e acelerá-los ainda mais até 2030.
No passado, a pressão de Washington para vender mais gás à Europa atrasou a conclusão de um novo gasoduto russo para o continente, o Nord Stream 2, que, embora esteja concluído, agora não tem mais data para entrar em funcionamento —e ainda não se sabe se será utilizado no futuro.